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domingo, 5 de junho de 2016

A inocência travada


Edson Vidigal*

A politica destes tempos agoniza putrefata. Intenções boas e más se confundem distorcendo os fatos, incrementando versões.
A maldade se atiça querendo arrancar sorrisos. Mas tudo se despolui nesse palco quando desponta desavisada, transpirando alegrias, uma criança.
A memória dos séculos guarda e nos relembra os momentos enternecedores em que crianças quebraram a caretice ambiental dos gabinetes ou as hipocrisias das muitas solenidades politicas.
Concentrado na leitura de papeis sobre a sua mesa de trabalho no Salão Oval da Casa Branca, o Presidente Kennedy parece não se incomodar com o que os seus guris John-John e Caroline aprontam. Festa rara dos fotógrafos.  
O Presidente Johnson, volta e meia, era interrompido por suas duas garotas. Em seu jeitão de texano de Austin, fazia troça comentando com seus Ministros que era mais fácil governar a América do que educar aquelas duas.
Governantes saboreiam as historias que contam sobre os seus rebentos. Getúlio correspondia-se frequentemente com Alzirinha escrevendo-lhe bilhetes a lápis num tratamento meio de igual para igual recheado de ternura e respeito.
Num dia desses, num táxi pela Rua do Catete, no Rio, comentei com o motorista – você imagina um Presidente governando o Brasil daqui deste quintal? Ele então me contou ter conhecido o Getúlio. Era criança e ouvindo os adultos chamando-o de ditador, não deixou por menos.
Toda manhã bem cedo, o Presidente caminhava pela calçada. O menino de então tinha sempre um jeito de cruzar com ele para lhe desejar bom dia. “Bom dia, ditador!”. E o Getúlio, sem perder o ar bonachão, correspondia – “Bom dia, meu filho!”.
Fosse algum marmanjo, a graça seria outra.
A revista O Cruzeiro costumava publicar fotos do João Vicente em calças curtas e suspensório colado no Jango em reuniões com políticos.
Em Brasília, a Dilma parecia incorporar a Pietá de Michelângelo quando a Paula, sua filha, deixava chegar ao Alvorada o Gabriel, o primeiro neto.
Sarney, então Deputado na Brasília nascente, adorava pedir a Roseana que declamasse para as visitas os versos com quais ela vencera o concurso para a escolha da letra do hino da escola.
A alegria do Palácio Jaburu agora é o Michelzinho com toda a pureza e inocência dos seus 7 anos de idade.
Nestes tempos em que a nossa imprensa não tem poupado espaço para expor maldosamente filhos e filhas de autoridades, incluindo ex-Presidentes da República, o respeito e o afeto  que não podem faltar da parte de nós outros, os adultos, a toda e qualquer criança, sumiram no noticiário dos últimos dias sobre a antecipação de herança que o Michel pai fez ao Michel filho.
Com tintas de escândalo, jornais publicaram – “Michelzinho, 7 anos, tem 2 milhões em imóveis”.  O blog do PT – “Michelzinho, filho caçula de Temer, tem 2 milhões em imóveis. Caçula do Presidente golpista com Marcela Temer é dono de um conjunto de escritórios no Itaim Bibi, bairro nobre de S. Paulo”.
O que há de ilegal ou imoral? Nada, absolutamente nada. Michel Temer sempre trabalhou em toda sua vida, justificando plenamente o patrimônio auferido. Advogado, Professor de Direito, autor de uma das obras mais vendidas no País sobre direito constitucional, não cobra por palestras.
Grande parte  do seu patrimônio já havia sido doado, como antecipação de herança às suas três filhas do primeiro casamento. Tão logo nasceu o Michelzinho, do casamento com D. Marcela,  passou para o nome do garoto, como antecipação de doação, o conjunto de salas onde foi antes seu escritório de advocacia e ultimamente escritório politico.
Onde o absurdo nisso? De forma verdadeiramente engraçada o Piauí Herald, jocosamente registrou:
“TOYS R US – Rico e famoso, Michelzinho atraiu a atenção de paparazzi nesta manhã ao estacionar seu carrinho no Leblon. “O veículo era nada menos que um Hot Wheels cromado modelo 2016. Ficou 10 minutos parado entre um boneco do Comandos em Ação e um playmobil”, revelou o fofoqueiro profissional Nelson Rubens. Em seguida, o caçula do presidente interino foi visto brincando de polícia e ladrão. Segundo o relato de babás uniformizadas que exigiram anonimato, o mancebo correu atrás de um pequeno meliante aos gritos de “prendê-lo-ei”.

*Edson Vidigal, Advogado, foi Presidente do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho da Justiça Federal.

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