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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Viver Jesus!




por Daniella Priolli F. E Carvalho

Conhecer, ler, estudar, sentir e viver Jesus

Há uma grande diferença entre conhecer, ler, estudar, sentir e viver os ensinamentos de Jesus.

Todos nós, cristãos de diferentes denominações, podemos dizer que conhecemos um pouco daquilo que Jesus nos legou há mais de dois mil anos. Já ouvimos falar de muitas passagens de sua vida, descrita nos Evangelhos e conseguiremos, caso interpelados, citar algum acontecimento ou dito das Sagradas Escrituras. Isso já faz parte da cultura popular. Talvez até alguns irmãos de outras religiões não cristãs e mesmo alguns materialistas ou agnósticos1 também tenham conhecimento do assunto.

Quanto a ler, no entanto, ficaremos surpresos com o escasso número daqueles que, considerando-se cristãos e, consequentemente, seguidores da doutrina ensinada por Jesus, podem dizer, com sinceridade, haverem lido, ao menos uma única vez, os quatro evangelhos canônicos.2 Mesmo entre nós, espíritas, o montante seria diminuto. Quando muito, alguns conhecem os episódios evangélicos, incluídos por nosso respeitado codificador - Allan Kardec - na terceira obra do Pentateuco Espírita: O Evangelho segundo o Espiritismo, lançado em 1864.

Encontramos, pasmem! cristãos que nunca leram os Evangelhos completos e espíritas que jamais os leram e tampouco O Livro dos Espíritos na íntegra. Seria algo como um advogado que sequer folheou o Código Penal de seu país ou um médico que mal abriu um livro de Anatomia. Descendo para um número mais restrito, vamos encontrar os que estudam os ensinos do amado Mestre Jesus. Contam-se nos dedos! E quão ricas são essas lições. Existem, é verdade, pessoas que dedicam encarnações inteiras a esse conhecimento. São os chamados exegetas.3 Mas, nós também, cristãos, podemos examinar com profundidade, sem fazer disso uma quase profissão. Há várias maneiras de fazermos boa imersão nos textos evangélicos: leitura/reflexão; pesquisa de contexto histórico (muito importante para entendermos as analogias, costumes da época); estudo “miudinho”, analisando com profundidade cada palavra no contexto geral, apoiado nas obras espíritas complementares (Coleção Fonte viva, de Emmanuel; livros de Irmão X e Amélia Rodrigues4 - os chamados historiadores espirituais -, na psicografia de Chico Xavier e Divaldo P. Franco, entre outros). Com razão diz-se que “a Doutrina Espírita é a chave para entender Jesus”. Mas, temos tempo para isso? Não somos sempre tão ocupados, distraídos; não es­taremos dormindo? Lembremos, então, as palavras de alerta proferidas pelo próprio Mestre amado, em seu sermão profético, ao se referir ao tempo de vigilância:

[...] Portanto, vigiai, pois não sabeis quando vem o senhor da casa [...]; ao vir repentinamente, não vos encontre dormindo. O que vos digo, digo a todos: Vigiai!(Marcos, 13:35 a 37.)5

Mas essas, só quando lemos e estudamos é que as conhecemos.

Quando estudamos, nos instruímos; ou melhor, segundo a etimologia latina, “construímos dentro”. Construímos informações, valores morais, novas regras de conduta e novos hábitos também. Ao assimilar os ensinos de Jesus, edificamos valores novos sobre a rocha, alicerces sólidos, cujos ensinos constam em Mateus (7:24 a 27) e em Lucas (6:46 a 49) com o título Três advertências. Tudo isso é de vital importância ao nosso aprimoramento moral, à nossa evolução.

No entanto, nada mais fácil! Puro trabalho braçal, isto é, mental. Requer dedicação, boa vontade e disposição, é claro; direi mesmo, leitor, que essa é a parte mais simples da aquisição de valores espirituais.

O difícil é sentir Jesus! Mas... você perguntaria, o que é sentir Jesus? Sentir é quando toda a sua mensagem faz sentido dentro de nós, na nossa consciência. Quando entendemos seus ensinamentos como verdades imutáveis, como expressões das leis de Deus; quando não encaramos mais os seus postulados como inacessíveis; quando compreendermos que podemos nos esforçar para praticá-los e que não há regeneração possível sem o seguirmos. Sentir é ter a certeza de que Ele é o Caminho que nos conduzirá a Deus e à perfeição, ao domínio de nossas dificuldades espirituais. Caminho que consiste em seguir seus passos, tentar pensar como Ele, tentar fazer o que Ele faria em nosso lugar. Sentir Jesus é ter a certeza de que Ele está no comando, como preposto de Deus, governador espiritual do nosso planeta; que é o Irmão maior, que nos tutela e nos ama incondicionalmente. Esse momento é muito pessoal, individual. Representa um divisor de águas nas nossas vidas como Espíritos imortais. Muitos de nós demoramos quase dois mil anos para atingir esse estágio; outros nem conseguiram ainda, mas todos, sem exceção chegaremos lá.

É o verdadeiro Natal nas nossas vidas, na acepção real da palavra. Representa o nascimento de Jesus nos nossos corações. Que emoção, que maravilha! Esse momento sublime, de quando começamos a sentir e amar Jesus, nunca se apagará de nossa memória imortal. Porém, para chegarmos a este estágio, precisamos vencer outras etapas: conhecer o Mestre, ler sobre seus ensinamentos e estudá-los para entender e sentir sua presença viva dentro de nós.

E, por fim, quando estivermos amadurecidos espiritualmente, nos habilitaremos a viver a sua mensagem em plenitude; agiremos cada vez mais conforme os exemplos que Ele vivenciou no período do messianato terreno. Estaremos educados com Jesus. Pois educação é o que exteriorizamos; o que mostramos de nós, da nossa essência; o que colocamos para fora; mostramos “do que está cheio o nosso coração”6(Mateus, 12:34; Lucas, 6:45).

Com Jesus conhecemos a verdade que liberta. E a verdade, conta-nos o Espírito Amélia Ro­drigues, conforme Jesus nos fala, é

[...] o conhecimento de si mesmo, a autoafirmação no Bem, a transformação pessoal para melhor, com incessante esforço de superação das imperfeições, a busca da vida eterna, a saúde integral.7

E isso tudo, meus amigos, só é verdadeiramente possível quando vivenciamos Jesus. Quando, em vez de lermos os Evangelhos, eles são lidos em nossas atitudes. Só acontecerá dentro de nós quando, a exemplo de Paulo de Tarso, o magnífico apóstolo difusor do Evangelho do Mestre amado, pudermos dizer do fundo de nossos corações:

Eu vivo, mas, já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim. (Galátas, 2:20.)

                                        ******

 1No sentido religioso, agnóstico é aquele que não acredita na existência de Deus, por se encontrar num patamar racionalmente inacessível.

2Os Evangelhos de Marcos, Mateus, Lucas(os três sinóticos - que contêm muitas partes em comum), e o de João compõem o cânone (ou régua) do Novo Testamento.

3Aquele que faz exegese; que faz a inter pretação profunda de um texto bíblico, jurídico ou literário.

4Educadora, escritora e poetisa baiana (1861-1926), que tem escrito livros com temas evangélico-doutrinários espíritas pela psicografia de Divaldo Pereira Franco.

5DIAS, Haroldo D. (Trad.) O novo testamento.Brasília: Edicei, 2010. p. 227.

6“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João, 8:32.)

7FRANCO, Divaldo P. Pelos caminhos de Jesus. Pelo Espírito Amélia Rodrigues. 7. ed. Salvador: Ed. Leal. cap. 2, p. 24.

Reformador, de fevereiro de 2013


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