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segunda-feira, 10 de julho de 2017

“É digitando que se entende.” Será?


Lúcia Moysés*

"O bem que praticas em qualquer lugar será teu advogado em toda parte." Emmanuel




     A conversa foi mais interessante do que poderia imaginar. Estava em um almoço em casa de amigos quando me aproximei do casal de namorados. Ambos com 18 anos, plenos de sonhos e ideais. Ela passara todo o tempo com o celular na mão, mas não o checava com aquela ansiosa frequência com que os jovens costumam fazê-lo. E o assunto girava exatamente sobre o impacto das novas tecnologias digitais sobre nossos comportamentos. Ela se explica: diz que vem tentando se controlar quando está junto ao namorado. Antes que eu indagasse o motivo, ele mesmo toma a palavra e me dá uma aula de bom senso e amadurecimento.

            Ele e uma irmãzinha pequena vivem com a mãe, que trabalha fora. Ao nascer, já encontrou a casa equipada com aparelhos eletrônicos, com destaque para a TV, o DVD, que lhe permitia brincar com seus videogames e assistir aos seus vídeos preferidos. A popularização da internet e dos aparelhos celulares ocorreu quando ele contava com oito anos, aproximadamente. Atraído pelas amplas possibilidades de lazer que o mundo digital lhe oferecia, viu seus desejos frustrados pela mãe que impôs regras para o seu uso.

            Tempo limitado e exigências de contrapartida foram estabelecidas pela mãe. Preocupada com a formação do seu caráter, ela lhe fez ver que necessitava da sua ajuda em relação aos cuidados com a irmã e com a casa, enquanto estava ausente, no trabalho.

            E assim ele cresceu, colaborando com a mãe nas pequenas tarefas domésticas. Ouvir o seu depoimento sobre as marcas que essa educação lhe deixou é comovente. “— Eu amadureci e hoje eu posso me virar sozinho pelo tempo que for preciso. Sei fazer de tudo dentro de casa. Nunca achei justo ficar à toa e deixar tudo em cima da minha mãe”.

            E é com essa visão de educação que ele analisa o uso exacerbado que os jovens hoje fazem das mídias digitais. É surpreendente ouvi-lo dizer que utiliza as redes sociais e a própria internet para pesquisas e estudos, de forma moderada e que se afasta do celular quando está conversando com outras pessoas, especialmente com a namorada.

            Estudos recentes têm analisado a relação entre a juventude e o mundo digital. Um, em particular, chamou-me a atenção: o do psicólogo norte-americano Howard Gardner, o renomado criador da Teoria das Inteligências Múltiplas. Seu livro mais recente – APP Generation – aborda questões como ética, criatividade, identidade, intimidade, entre outras. Particularmente em relação a essa última, os resultados de pesquisas feitas na Universidade de Harvard, onde ele atua, são preocupantes.

            O fato de os jovens passarem a maior parte do tempo livre conectados, mantendo conversas e interagindo com outras pessoas de maneira virtual, está fazendo surgir uma geração que tem dificuldade em manter relações face a face. Os jovens estão perdendo a capacidade de ler as expressões faciais, de resolver seus problemas com os outros e de saber se comportar nas relações no mundo real. Falta-lhes a intimidade, o contato de perto.

            Há pessoas que acham mais fácil discutir uma relação afetiva – até mesmo rompê-la – com o parceiro online do que pessoalmente.

            Esse fenômeno, bem como outros que estão ocorrendo entre a geração que hoje vive em função dos aplicativos, (os APPs a que se refere Gardner) poderiam ter seus efeitos minimizados se a família ajudasse as crianças e os jovens a utilizá-los de modo mais racional e equilibrado.

            Os dados apontaram, ainda, que os jovens estão, atualmente, menos dispostos a correr riscos do que os das gerações anteriores. Não há, no entanto, como negar que ao se entrar em uma relação, principalmente se for com vistas a um compromisso mais sério, que envolva a constituição de família, haverá sempre o risco de não ser amado, de não ser compreendido, de não se corresponder às expectativas do outro... Como seres espirituais que somos, tendo transitado por inúmeras reencarnações, trazemos, muitas vezes, compromissos reencarnatórios que irão nos fazer passar por dores e decepções, como forma de acerto com aqueles a quem prejudicamos. Em situações assim, é natural a ocorrência de sentimentos que vão de encontro aos nossos desejos, fazendo-nos sofrer.

            Aquele jovem com quem conversei sente-se preparado para enfrentar os riscos de uma relação frente a frente. E tudo começou com a maneira com que sua mãe buscou educá-lo, o que me leva a pensar que mães precisam se fazer amadas e respeitadas pelos filhos para que suas ponderações e exigências sejam acatadas, pelo bem deles próprios.

*Lúcia Moysés é professora e escritora

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