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domingo, 9 de julho de 2017

E quase tudo virou saudades


João Batista Azevedo







Japeçoca
Há muito queria escrever sobre tudo que tinha na minha terra e hoje não tem mais, ou é muito difícil de se encontrar. E a penca de coisas é enorme. Para tanto tive de fazer uma verdadeira regressão psicológica. Um mergulho no tempo. E certamente não mencionarei tudo que o tempo guardou no esquecimento. Mas procurarei ser fiel às minhas lembranças: as veredas por onde andei, os frutos que saboreei e do muito que preencheu os dourados dias da minha infância.

Retrocedi no tempo e me vi nos meus dias de férias na casa de meus avós maternos no Boticário, - uma reentrância de campo onde se espalhava um extenso tapete verde de capim de marreca. Às primeiras chuvas o campo se enchia e logo vinham as vegetações imergindo do solo submerso. Eram as orelhas de veado, os pajés, as vitórias-régias, as gapeuas, os guarimãs que logo recebiam as primeiras japeçocas em seus acasalamentos e berçário. Nas primeiras horas daquelas manhãs ou nos fins daquelas tardes ouvia-se o cantar delas que cruzavam o estreito ressaco de enseada em direção à casa de Seu Doquinha ou lá pras bandas do Urucu. Era comum se vê singrando os campos nunca cercados, pessoas que faziam daquele habitat o seu próprio sustento e meio. As canoas e os marás eram utensílios de uso de todos que por ali moravam.

A parte alta de terra começava quase sempre por um rosário de quirizeiros, cujos frutos perfumavam o ambiente em suas épocas. Os tarumãs e as ingás também ganhavam aspecto em meio a plantação nativa. Mais no alto sobressaiam-se as casas dos moradores com seus quintais e roças.

A casa do meu avô Heráclito ficava em uma parte mais alta. À frente, um terreiro sempre limpo onde pastavam os animais e onde quase sempre era improvisado um campinho de futebol. Do lado a velha “casa-do-forno”. Mais para a direita ficava a casa de Seu José Castro, enquanto para o lado esquerdo morava o ranzinza Seu Zé Costa. Meu avô, de cuja lembrança me foge à memória, era um senhor severo, daqueles que empenhavam a palavra como a honra maior de um homem. Minha avó, Andrelina – a quem nós chamávamos carinhosamente de Delica - era extremamente dócil. Tinha nos seus pequenos olhos o profundo de um azul-mar. Era ela quem nos acolhia, quando das travessuras, do relho que era anunciado e quase sempre cumprido.

Bico-de-brasa
Afora a casa, quase sempre se tinha um poço no quintal, além, de uma sentina, um chiqueiro, um galinheiro e uma estrebaria. A primeira parte do quintal era quase sempre constituído de algumas árvores frutíferas, tais como, limoeiros, laranjeiras, tanjarineiras, algumas bananeiras e mangueiras. Sobressaia-se também um jirau e uma armação de paus que, fincados no chão, se cruzavam em xis para o suporte de canteiros suspensos, onde se plantavam as ervas e os temperos caseiros. Muito difícil vê-se quintal assim hoje em dia.

Do lado da estrada que vinha até a casa de meu avô uma frondosa mangueira nos presenteava com uma espécie rara de manga: a sapatinho. Confesso que nunca vi em outro lugar, acho que era o último exemplar. Era um tipo pequena, mas de um sabor agridoce sem igual. Era a preferida dos bezerros que costumavam por ali pernoitarem. Outras grandes árvores também compunham a beleza ímpar daquele lugar. Nelas costumavam se ver exemplares de tucanos, ainda que raros. Mas eram comuns naqueles tempos os bicos-de-brasa, os japis – estes tinham na grande árvore seus ninhos bem trançados que balançavam ao sabor do vento matinal. Por ali também visitavam as rolinhas “fogo-pagô”, e as pipirinhas pardas e azuis. Nas roças, nos arrozais, faziam algazarra os curiós, caboquinhos e bigodes. Todos livres, leves e soltos a grazinarem suas sinfonias nas manhãs de minha infância.

Entre as astúcias dos meninos daqueles tempos, uma era imprescindível. Menino que se prezasse valente, astuto e traquina, tinha que ter uma baladeira, uma cordinha, ou um pequeno cabresto, afim de campear os carneiros que pastavam soltos nos campos e capoeiras. Os machos nos serviam de montaria, enquanto as fêmeas quase sempre tinham outras utilidades.

Na volta pra casa, exceto as responsabilidades de ir para o Grupo Escolar e para a aula particular – coisa que sempre fomos obrigados a fazer, eu, meus irmãos e muitos da minha época – na casa de Dona Ubaldina, a vida seguia seu curso normal de menino. Uma pelada nos campinhos improvisados, o jogo de bolinhas, a bola de meia, o dinheiro de carteira de cigarros, os chevrolets feitos de latas de sardinhas com pneus de rolhas de vidros de penicilina, além de algumas tarefas caseiras, como o recolhimento crepuscular dos animas e o agasalhar de algumas poucas criações. Isto era muito comum nas famílias da época. Algumas vezes, em tempos já mais estios, os animais se afastavam pra mais longe e quase sempre não retornavam para casa no cair da tarde. Era certo que no dia seguinte tinha-se que ir atrás. O rumo era o Arrebenta, o Cazumba, o Jamari e o Candonga. As vezes se tinha êxito, mas quando não, a busca se repetia no dia seguinte.

Pipira azul
Nestas andanças por entre as capoeiras, uma fartura de frutos do mato sempre apareciam do nada, como se quisessem nos encantar com os seus sabores silvestres. Eram maracujazinhos-do-mato, murtas, goiabas-araçás, maria-pretinhas, cauaçus e os deliciosos tucuns-verdes. As amejubas eram raras, mas com faro apurado podia se achar. Das palmeiras diversas e em seu tempo também se achavam as macaúbas e os marajás. Nos campos, os bandos de graúnas-de-peito vermelho faziam seu balé de cores e cantos. Tudo ali existia naquele tempo diante dos nossos olhos...  Hoje, quase nunca mais se tem ou se vê essas maravilhas do interior.

A busca pelos animais de casa me rendia um prazer imensurável de liberdade e conhecimento. Em algumas vezes, eu, perdido entre as guloseimas do mato, esquecia até da razão de estar naquelas andanças, enquanto o burro e o cavalo faziam o caminho de volta pra casa e chegavam primeiro do que eu, me permitindo às vezes uma pisa pela vadiagem.

Já na boca da noite, era preciso tomar o banho às pressas, antes que os caburés começassem seu canto noturno. Morria de medo. Precisava estar preparado para ouvir as histórias de Dona Palica, que entre uma cachimbada e outra, contava pra a meninada da redondeza, as histórias de reis e rainhas de um reino distante, bem como as dos bichos, em especial as de Coelho e Tia Onça, as que mais me encantavam.

Assim caminhava a noite. A lua quase que constante nos céus daqueles tempos, nos convidada para as brincadeiras de “cair no poço”. Chegava a hora de dormir. O pai-nosso, a Ave-Maria nos guardavam e nos protegiam. E assim embalávamos nossos dias na pureza da vida.

Hoje tudo isso é filme na minha lembrança que um dia vivi e que o tempo não me deixa viver outra vez.

Um comentário:

João Batista Azevedo disse...

Obrigado companheiro Hélcio Silva por ter publicado a nossa crônica em seu blog. Estamos à sua disposição. Um grande abraço.