O Paraguai ficou sério. E agora?
Alex Pipkin, PhD em Administração
Durante décadas, o Paraguai ocupou um lugar folclórico no imaginário nacional.
Era a pátria espiritual da muamba, o éden dos eletrônicos de procedência criativa e dos perfumes que desafiavam a química. Para a empáfia tecnocrática brasileira, o vizinho era apenas um puxadinho comercial.
Pois bem, a realidade adora uma ironia fina.
Hoje, a travessia da fronteira mudou de sentido e de classe social. Não são os sacoleiros que marcham rumo a Assunção; são os balanços contábeis de corporações brasileiras.
Mais de 230 indústrias nacionais já cruzaram a fronteira. O fenômeno agora alcança gigantes que abastecem o PIB global, como o Grupo Dass, fabricante de marcas como Nike e Adidas, que expandiu operações por lá. Somam-se à lista nomes como Lupo e Karsten. Não se trata de um flerte conjuntural; é um diagnóstico de falência do nosso ambiente de negócios.
O Paraguai decifrou o segredo que Brasília faz tempo em insistir tratar como heresia. Riqueza não emana de decretos, preces fiscais ou da romantização da escassez. Riqueza é filha legítima da produtividade. E produtividade, para desespero dos planejadores centrais, exige subtrair o peso do Estado das costas de quem ousa produzir.
Enquanto os vizinhos operam com o básico, ou seja, simplificação tributária, segurança jurídica e custos trabalhistas que cabem na planilha, o Brasil segue hipnotizado pela velha alquimia fantasiada de progressismo: tributar o oxigênio, subsidiar o compadrio, demonizar o lucro e esperar que o PIB brote, por geração espontânea, de um discurso de palanque.
Não brota. Capital não sofre de nacionalismo compulsório nem possui paciência para masoquismo burocrático; ele possui instinto de sobrevivência. Fábricas não desertam por falta de patriotismo; fogem de um ecossistema hostil onde o gerador de empregos é tratado como um réu em liberdade condicional, enquanto o Estado, esse sócio hipertrofiado e faminto, exige dividendos majoritários de uma riqueza que ele fez de tudo para impedir que existisse.
A diferença é mais profunda. O Paraguai parece hoje governado por pragmáticos obcecados em atrair capital. O Brasil, por sua vez, mantém uma “elite intelectual e política” com vocação quase mística para administrar a miséria.
Consuma-se a ironia histórica: a terra das bugigangas baratas passou a atrair fábricas; o “país do futuro” que sonhava ser potência industrial começou a exportar sua própria capacidade de produzir

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