"Coronavírus somos nós”
Pe. Gianfranco Grazziola
Nestes últimos tempos estamos vivenciando um fenômeno contraditório do qual talvez não tenhamos a plena consciência particularmente em relação as suas consequenciais futuras. Este fenômeno ele vai além do momento presente porque de forma subtil se vai insinuando e acomodando em nosso ser sem que nos demos conta ao ponto de nos tornar insensíveis e impotentes diante de um vírus por todos chamado de Covid 19 que vem vitimando quase 1000 pessoas diariamente.
Mas o pior não é o Covid 19 com quem mais cedo ou mais tarde a gente vai aprendendo a conviver, mas outra doença que, é o conformismo aceitando que a classe oligárquica deste país passe imune e deixe de ser responsabilizada pelo desaparecimento de um número de pessoas que equivalem à população de alguns estados como por exemplo o de Roraima, para citar um entre os demais, sem contar que até o final do ano a conta poderá chegar a atingir o número de mortes igual ou superior a de muitas cidades de nosso Brasil. Isso significa que o que vivenciamos nestes últimos dois anos é um grande golpe que atinge a ecologia integral, fato que deixa grandes e profundas feridas para a Casa comum e a Mãe Terra.
Mas há outro dado que preocupa e que ultrapassa as singularidades, os personalismos, as brigas de poderes entre as diferentes instituições governamentais, é a questão do pensamento humano, da sua essência e seus valores, hoje externado das loucas e alucinantes atitudes do executivo que, usando as notícias falsas veiculadas por meio da sofisticada tecnologia como verdade absoluta alimentando polarizações, acabaram destruindo o debate de uma saudável dialética transformando e demonizando tudo o que fala de ideia, de ideológico, de ideologia, ao ponto de desmanchar e destruir todo e qualquer laço e diálogo humano.
Disso na sua perspicácia e visão profética se deu conta Papa Francisco, que depois de ter refletido sobre a crise ecológica global com a “Laudato Si” chamando a nossa atenção sobre nossa responsabilidade com o Planeta, nos brindou, num tempo de pandemia estrutural com mais uma lucida e pertinente contribuição sobre o tecido humano e suas relações por meio da “Fratelli tutti” , onde retomando o sonho do Papa Paulo VI da “civilização do amor”, juntamente com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb, nos propõe a fraternidade e a amizade social.
Escrevia no começo da pandemia um texto que volta a me provocar e cujo título provocatório é: “Coronavírus somos nós”. Dou-me conta como esta intuição que tive naquele momento é mais atual do que nunca, porque se não mudarmos de rota, quem nos vai aniquilar não será o Covid 19, para o qual temos bem ou mal vacina, mas o nosso próprio vírus letal, que somos cada um de nós para o outro.
Pe. Gianfranco Grazziola

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