Temos fé?
Vania Mugnato de Vasconcelos
Quando o problema chega é que a verdadeira fé se mostra, afinal, é realmente bem fácil se dizer crente em Deus nos tempos tranquilos. Não é difícil colocar nomes nas vibrações ou assistir uma palestra, certo? Podemos até ter obras espíritas na cabeceira da cama ou na prateleira da sala, mostrando como somos virtuosos!
Mas a fé não será provada por palavras e alguns gestos
isolados. É preciso ver fé na coragem de enfrentar as dificuldades, conscientes
de que se Deus as permitiu em nossas vidas é por serem úteis, até mesmo
necessárias ao nosso progresso espiritual.
Devemos ver fé no ato de assumir as doenças como processos
de cura da alma e a desencarnação como libertação da prisão corporal, sem
experimentarmos o medo desesperado que faz questionar a misericórdia divina.
Necessitamos ver a fé agindo, proativa, produtiva. Orar é
importante, elevar a vibração espiritual é fundamental, mas fazer isso como
fôssemos ermitões, seres solitários que não precisam realizar nada pelo mundo e
o próximo, isso não representa a fé demonstrada por Jesus e seus apóstolos, e
por tantos seres que se tornaram símbolos de atuação no Bem.
A fé trabalha, assim como trabalha o amor. Ela se envolve
com a caridade, o estudo, a política, os relacionamentos, os problemas, as
soluções, a vida e a morte, as dificuldades financeiras, a alegria, a tristeza…
Como espíritas sabemos que estamos em época de transição
planetária, mudança qualitativa do planeta Terra que passará de mundo de
expiações para regeneração. E certamente todos pensamos como será bom quando a
humanidade estiver nesse novo patamar evolutivo! Só esquecemos de considerar
que nada evolui sem esforço, que é preciso coragem e trabalho transformador
para que o progresso se implante em definitivo entre nós.
Temos vivido uma época de muitos sacrifícios. Será que
deveríamos estar tão apáticos perante o que vemos acontecendo em todo o mundo?
Tantas caixas de pandora abertas e delas escapando todo tipo de horror não
deveriam nos motivar, estimular à fé ativa do trabalho?
Muitos espíritas parecem estar perdidos na fé tanto quanto
membros de qualquer outra filosofia moral. Eles se mostram temerosos das
doenças, rejeitam a possibilidade da morte, silenciam nas questões políticas
que impactam em todas as outras áreas da existência (saúde, educação,
segurança, alimento, moradia, justiça, etc.), têm deixado as coisas
simplesmente acontecerem…
E, se omitindo como estão, tornam-se corresponsáveis pela
desaceleração do processo de cura desse planeta. Contudo, Deus é sábio e não se
deixa enganar. “…Quando, porém, um povo não progride tão depressa quanto
devera, Deus o sujeita, de tempos a tempos, a um abalo físico ou moral que o
transforma.” (O Livro dos Espíritos, questão 783). E assim seguimos, mesmo à
revelia de nossa vontade, rumo ao progresso ofertado pelo Criador.
Quando o Espiritismo foi trazido para o Brasil, nossos
irmãos precursores iam discretamente aos centros trabalhar pela vida moral e
espiritual de encarnados e desencarnados, ainda que isso provocasse a ira da
igreja, a perseguição social, a execração pública. Hoje precisamos de espíritas
com a mesma coragem na fé, prontos para trabalhar de verdade, de peito aberto e
cabeça erguida, pelo esclarecimento espiritual dos mais necessitados que nós
mesmos. A questão que fica é: temos fé suficiente para fazer isso?
Vania Mugnato de Vasconcelos
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