Crônica do imortal APB Eloy Melonio, exclusiva para o Facetubes: " UNS E OUTROS"
Eloy Melonio é membro da Academia Poética Brasileira.
01/10/2023
Por: Mhario Lincoln
Fonte: Eloy Melonio
Original do Facetubes
Eloy Melonio*
Em sua admirável simplicidade, Chico Xavier falava sobre questões que ainda hoje nos comovem. E foi com essa concepção que recebi um post de um amigo, listando coisas supérfluas e coisas necessárias. Ou seja, sábias afirmações em que o médium brasileiro revelava ― entre outras coisas ― que "uns querem ter olhos claros; outros, apenas enxergar".
Ao meu amigo, enviei esta resposta espirituosa: pois é, o nosso mundo é feito de "uns e outros".
Ainda bem! Já imaginou "se todos fossem iguais a você", como na canção do Tom e do Vinicius? Neste atual contexto de valorização da diversidade, isso seria um pesadelo, zoeira total.
Imagine-se, então, indo à feira num domingo pela manhã para comer o prato mais desejado na banca da D. Albertina. Lá, depara-se com uma fila de matar. E, aí, "volta pra casa abatido(a), desencantado(a) da vida". Parece que, nesse dia, tanto “uns” quanto “outros” resolveram comer o caldo de ovos mais famoso do pedaço. E olha que não era Black Friday!
No cruzamento da Ipiranga com a São João, um dos mais famosos logradouros da capital paulista, Caetano Veloso sentiu o coração acelerar naquele mundão de concreto, gente e veículos automotivos. Ouvindo a canção, imagino uma cena com muita gente na rua: uns, indo pra lá; outros, vindo pra cá. E, na veia musical do baiano arretado, “o avesso do avesso do avesso”.
Aproveitando uma dessas belíssimas manhãs de Sol da minha cidade (São Luís do Maranhão, a capital brasileira do reggae [Lei federal/2023]), minha esposa me mostrou a novidade do nosso terraço: um lírio laranja que acabara de desabrochar. "Coisa mais linda!", diriam, em uníssono, os amantes da floricultura. Fui ao Google para ver mais imagens dessa delicada flor, decantada por Honoré de Balzac em “O Lírio do Vale”. E encontrei uma rica variedade de tipos, formas e cores. Sou leigo nessa arte, mas me encantei com o que vi. E me lembrei de um trecho do livro do escritor francês: "Era ela o lírio daquele vale, enchendo-o com o perfume de suas virtudes" ([adaptado de] O LÍRIO DO VALE, L&PM).
Na ficção de Balzac, os olhos de Félix, o protagonista do romance ― por razões amorosas ―, brilham diante de seu “lírio” (com os mais belos ombros que já vira em toda a vida), mas o vale certamente abriga outras espécies igualmente belas e admiradas por muitas pessoas.
Na vida real, uns e outros estão por aí, cruzando avenidas, caminhando contra o vento. Uns gostam de samba, outros são ruins da cabeça. Uns são diferentes; outros, iguaizinhos aos seus pais. E ― parafraseando o autor francês ― “enchendo a vida com as cores e os odores de sua diversidade”.
O mundo gira, e o poeta tenta entender essa roda-viva. E se espanta ao perceber que, em si mesmo, existe dissintonia entre o “um” e o “outro” que habitam a sua subjetividade. Ferreira Gullar traduz-se assim: “Uma parte de mim/ é todo mundo;/ outra parte é ninguém”. Também eu me aventuro nessa introspecção: “Dentro de mim/ existe um eu que me diz/ quem eu sou/ mesmo quando penso/ que não sou quem realmente sou” (Dentro de Mim, pag. 123).
Que seria dos “outros” se não fossem "uns"? Ou de “uns” se não fossem os “outros”? Já imaginou uma cidade povoada só de “uns”, ou mesmo um grupo do WhatsApp transbordando de “outros”. Talvez por isso, imagino que a banda carioca de rock alternativo “Uns e Outros” não dividira o palco do rock com a gaúcha — também do rock — “Nenhum de Nós”. Não sei se “juntos e misturados” produziriam um som de qualidade.
Acredito que é na diversidade que sobressai a beleza do ser humano. O encanto de sermos todos uns e outros. Porque — em todas as épocas e lugares — "o supérfluo e o necessário", o igual e o diferente, o certo e o errado, todos, esperam de nós uma posição. Não podemos ter um pé no Pacífico e o outro no Atlântico. E, assim, ou nos encontramos no abrigo do porto ou nos cruzamos na travessia do mar da vida.
Compartilho, aqui, um bem-humorado aforismo do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), o poeta-maravilha: “Há uns que morrem antes; outros depois. O que há de mais raro, em tal assunto, é o defunto certo na hora exata”.
Excluindo-se a morte, “Cada um de nós compõe a sua história. E cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz”. Ou seja, querendo ou não, precisamos “tocar em frente”, como ensinam Almir Sater e Renato Teixeira, grandes poetas da nossa música sertaneja.
Reconhecendo o lado individual e o coletivo de cada um, precisamos nos respeitar mutuamente, sabedores de nossos direitos e deveres, de nossas diferenças e de nossa responsabilidade cívico-social.
No mundo real, assim como na avenida poético-musical, cruzamos com uns e outros. E, no cenário da diversidade, caminhamos ora juntos, ora separados. Em outras palavras, “Viver é arte de atravessar a vida”.
E, enfim, descobrimos no meio do caminho que "uns e outros" somos todos nós.
*Eloy Melonio é contista, cronista, letrista, poeta e membro da Academia Poética Brasileira, secional MA.

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