sexta-feira, 28 de agosto de 2026

SE NASCÊSSEMOS VELHOS - Artigo do poeta Carlos Alberto Lima Coelho, jornalista e escritor


SE NASCÊSSEMOS VELHOS

Carlos Alberto Lima Coelho

São Luís-Maranhão-Brasil

E se a vida tivesse escolhido outro caminho?

E se chegássemos ao mundo com cabelos brancos, rosto marcado, passos lentos e olhos carregados de uma sabedoria que ainda não tivemos tempo de conquistar?

Nasceríamos velhos.

Viríamos ao mundo não para crescer, mas para diminuir os anos. A cada aniversário, uma ruga desapareceria. Os cabelos recuperariam a cor. As pernas ficariam mais firmes, a memória mais rápida, o coração talvez mais inquieto.

Seria a teoria do decrescimento: em vez de caminharmos da infância para a velhice, seguiríamos da velhice em direção à juventude.

Aos oitenta, começaríamos a vida.

Aos setenta, aprenderíamos a andar com mais segurança. Aos sessenta, descobriríamos que o corpo responde melhor aos nossos desejos. Aos cinquenta, sentiríamos nascer uma energia desconhecida. Aos quarenta, olharíamos o mundo com entusiasmo renovado. Aos trinta, acreditaríamos que quase tudo ainda é possível.

E, curiosamente, quanto mais jovens ficássemos, menos experiência carregaríamos.

Talvez aí estivesse o grande mistério.

Hoje envelhecemos acumulando lembranças. Nesse mundo invertido, rejuvenesceríamos perdendo-as.

A cada ano, uma história poderia desaparecer.

Primeiro esqueceríamos algumas dores. Depois, talvez certos amores. As decepções se apagariam, mas junto com elas poderiam desaparecer também as lições aprendidas. Os ressentimentos morreriam, porém parte da nossa identidade seguiria o mesmo caminho.

Até chegarmos à adolescência.

Seríamos jovens por fora e antigos por dentro — enquanto ainda restasse alguma memória.

Depois viria a infância.

As responsabilidades desapareceriam. O dinheiro perderia importância. As ambições seriam abandonadas. Os títulos, os cargos, os aplausos e as vaidades deixariam de fazer sentido.

Restariam as coisas simples.

Um colo.

Uma voz conhecida.

Um brinquedo.

Um sorriso.

Talvez descobríssemos, então, que a vida inteira foi uma longa viagem para compreender aquilo que as crianças já sabem sem precisar explicar: que felicidade não exige tantas coisas.

E continuaríamos diminuindo.

Até que, em algum momento, chegaríamos ao princípio.

Um bebê.

Sem passado.

Sem preocupações.

Sem medo do amanhã.

Apenas vida.

Talvez a existência terminasse exatamente onde começou: num colo, cercada de cuidado, silêncio e amor.

Pensando assim, percebo que nascer velho ou nascer criança talvez não mudasse a essência da caminhada.

O que realmente importa não é a direção dos anos.

É aquilo que fazemos enquanto eles passam.

Porque crescendo ou decrescendo, rejuvenescendo ou envelhecendo, todos caminharíamos para a mesma pergunta:

O que fizemos com o tempo que nos foi concedido?

E talvez a maior sabedoria fosse esta: chegar ao fim da existência levando no coração a experiência de um velho, mas conservando a capacidade de sonhar de uma criança.

Carlos AL Coelho


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