segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Inteligência Artificial, uma questão espiritual - artigo de Dom Lindomar Rocha


Inteligência Artificial, uma questão espiritual  

Dom Lindomar Rocha 

 

Dom Lindomar Rocha Mota
Bispo de São Luís de Montes Belos (GO) 

Há uma tendência comum de tratar a inteligência artificial como um problema técnico. Perguntamos até onde chegarão as máquinas e quantas profissões desaparecerão; que riscos surgirão quando sistemas artificiais escreverem e calcularem melhor que qualquer um nós. Perguntas importantes, mas que permanecem na superfície. 

O problema da inteligência artificial está mais centrado em nós, e menos na inteligência que conseguiremos colocar nas máquinas. Nesse sentido, a questão é mais espiritual que técnica. 

A história oferece exemplos suficientemente claros, e o dinheiro é um dos mais eloquentes. Ele constituiu uma das grandes invenções da civilização porque tornou possível realizar a troca universal e a cooperação entre desconhecidos. Um instrumento extraordinário! Contudo, aquilo que deveria apenas quantificar o valor de uma coisa acabou ocupando o lugar da própria coisa. O dinheiro, criado para fazer circular, passou a ser acumulado.

É dentro dessa lógica que a inteligência artificial deve ser compreendida. Vista isoladamente, ela parece uma ruptura. Vista na história do engenho humano, revela também uma continuidade inquietante. Criamos algumas coisas para ampliar nossas capacidades e logo precisamos perguntar se continuaremos governando aquilo que criamos ou se começaremos a organizar a vida segundo as exigências da própria criação. 

Para construir sistemas situados na fronteira tecnológica, atualmente, não basta possuir boas ideias, são necessários sistemas complexos e muito dinheiro. Essa concentração torna a questão tecnológica inevitavelmente geopolítica. O mundo que recebeu a inteligência artificial depois da pandemia já aprendeu essa lição pelo caminho.  

A pandemia revelou a fragilidade da concentração. Fábricas paradas em um continente interrompiam linhas de montagem em outro. A falta de componentes relativamente simples impediu a fabricação de bens extremamente complexos, e o mundo começou a desconfiar. Desconfiou que não é prudente depender de um único país para produzir aquilo de que se necessita, nem de uma única moeda para guardar aquilo que acumulou. 

É nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser uma questão tecnológica. Podemos ter acesso instantâneo ao conhecimento acumulado pela humanidade e permanecer incapazes de responder à pergunta mais elementar de todas: para quê? Uma pergunta que nenhum algoritmo pode responder adequadamente, porque a resposta antecede o próprio algoritmo; e, chegamos, portanto, ao domínio do espírito. 

O Evangelho conhece profundamente o evento em que um meio toma o lugar do fim. Quando afirma que onde estiver o tesouro estará também o coração, Cristo desloca a discussão da posse para as atitudes. Quando adverte que não se pode servir a Deus e ao dinheiro, revela o momento em que o instrumento se transforma em senhor. Quando pergunta que vantagem existe em ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida, estabelece um critério radical com o qual poderíamos julgar o advento das IAs. 

A questão Católica diante da inteligência artificial, portanto, não deve ser se ela pensa como nós; mas, se nós, possuindo tamanho poder, continuaremos capazes de conviver unidos pela filiação comum que nos faz irmãos e irmãs? Tomando consciência, por fim, que a Inteligência Artificial poderá oferecer muitas respostas, mas somente o espírito humano é capaz de escolher as melhores entre elas. 


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