(*) Lourival Serejo
Quem se dispõe a fazer uma crônica sobre o Natal tem como primeiro obstáculo vencer a tentação de invocar o tão citado soneto de Machado de Assis e a metafísica do seu desfecho: Mudaria o Natal ou mudei eu?
Desafiado por essa pergunta, o nosso poeta José Chagas replicou em versos, que evocam a memória do canto que o galo espalhou na madrugada do nascimento de Jesus para, num lance feliz, arrematar:
Pois, na pureza desse mesmo embalo,
sou um velho pastor, sempre a saudá-lo...
– Não mudou o Natal nem mudei eu.
Ao invocar o tempo de Natal pretendi, na verdade, falar do Natal e o tempo. Essa voragem que passa por nós e vai nos levando e levando sem percebermos suas voltas.
Quando éramos criança, vivíamos o ano inteiro esperando dezembro chegar. Era uma tortura sentir a locomotiva do ano andar se arrastando com seus doze vagões, como uma tartaruga lerda. Cada vagão que se soltava, era uma alegria. No fim daquela espera, Papai Noel nos brindava com um troféu de ganhador.
Hoje a velocidade do tempo transformou aquela locomotiva num trem-bala. Quando se pensa que é janeiro, julho desponta, e logo aparece o Natal, cada ano mais antecipado. Este ano começou em setembro, pelos anúncios comerciais veiculados.
O resultado é que já não se espera o Natal; ele vem correndo em cima da gente e nos sufoca com suas exigências sociais, viagens, confraternizações, presentes e visitas. A religiosidade da data está cada vez mais tênue. Não há mais tempo de pararmos para absorver o tempo de Natal. A superficialidade afastou o momento de introspecção, da auto-avaliação e do sentir a necessidade de absorver a mensagem da época para um renascer mais ético, mais solidário e mais fraterno.
Lá em casa, o Natal começava nos dias 11 ou 12 de dezembro, quando plantávamos arroz para enfeitar o presépio, que só era montado no dia 21. Então vivíamos um Natal curto, mas intenso, até o dia 7 de janeiro, um dia depois dos Santos Reis, ocasião em que desmontávamos o presépio e queimávamos as palhinhas. Depois, era cultivar a paciência para esperar outra viagem da locomotiva.
Para viver esse tempo de Natal, aproveitar a magia da sua mensagem, precisamos de um pouco de alheamento, que nos isole da agitação do consumismo e do corre-corre das comemorações para, então, despojados de tudo isso, nos concentrarmos na esperança que o milagre de um nascimento traz consigo. E, de braços abertos, podermos dizer: Feliz Natal!
Lourival Serejo é desembargador (TJ-MA).
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