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terça-feira, 7 de abril de 2015

Colocar o dedo

Dom José Alberto Moura
Arcebispo de Montes Claros (MG)

A curiosidade bem focalizada pode trazer resultados bons para a pessoa, a ciência e a comunidade. Depende do como realizá-la e utilizá-la. Há meios antiéticos para se saber o que se passa na vida dos outros, de instituições e governos. Os paparazzi muitas vezes querem descobrir a todo custo o que se passa na vida alheia. A liberdade de imprensa não raro pode ferir a intimidade de pessoas com desrespeito às mesmas. Por outro lado, o trabalho científico bem encaminhado dentro dos parâmetros morais pode trazer descobertas de antídotos e boa promoção da saúde e da vida. As descobertas tecnológicas ajudam o progresso quando usadas para auxiliar a boa comunicação, o transporte, a agropecuária e outros.

Uma curiosidade bem conduzida para o autoconhecimento, bem como o conhecimento do outro, pode ajudar a boa autoafirmação, a afetividade e as relações humanas. É de suma importância cada um descobrir seus próprios valores e limites, o sentido da vida com seu ideal realizador, com os parâmetros naturais e sobrenaturais.
Após a ressurreição de Jesus houve suas aparições aos discípulos, como os de Emaús, a Madalena, aos Apóstolos... Uma vez estes receberam a visita de surpresa de Jesus, com a ausência de Tomé, que ficou sabendo desse fato. Mas ele não quis acreditar e só aceitaria a verdade da ressurreição do Senhor se colocasse o dedo nas cicatrizes de suas chagas. Jesus não se eximiu de mostrá-las ao discípulo incrédulo numa próxima visita em que este também estava presente. Não foi preciso colocar o dedo nos sinais das chagas do que fora crucificado. A presença do Senhor bastou para Tomé acreditar com a proclamação da fé: “Meu Senhor e meu Deus!” (João 220,28).

A experiência da aproximação da pessoa com Jesus exime-a de precisar de colocar o dedo nele. A fé já é manifestação da certeza de que o crucificado não está mais no sepulcro. Está vivo. Não é um simples fundador de religião humano a mais. É quem tem poder sobre a vida e a morte. Podemos segui-lo porque é o Filho de Deus. Acompanhando-o realizamos o que Ele mesmo fez entre nós. Ensinou-nos a imitá-lo e também anunciá-lo aos outros. A certeza da ressurreição do Divino Mestre nos entusiasma a segui-lo e apresentá-lo aos outros com entusiasmo, encantamento, doação e audácia. Os discípulos deram a vida por sua causa. Em conseqüência disso nos legaram a vida em fraternidade, na promoção da justiça, da vida digna e de sentido, com os parâmetros da ética, da moral e do trabalho pelo bem comum, com inclusão humana e social para todos. Cada ser humano, então, é tratado como imagem e semelhança de Deus. A família é fonte de vida, com a formação do caráter que ajude a promoção da cidadania para todos.

Nossa fé em Jesus ressuscitado deve ser esclarecida e madura. As dúvidas, os questionamentos e a vontade de colocar o dedo nas cicatrizes do mistério de Deus podem nos ajudar a nos aproximar do Senhor para fazermos nossa própria experiência de fé amadurecida, superando o simples racionalismo e o puro emocionalismo. Estaremos prontos para mostrar a todos as razões de nossa própria opção em seguir o Mestre, realizando e ensinando  o que Ele fez e nos ensina para a promoção da vida digna e plena para todos! Teremos um mundo mais justo e solidário. Superaremos os egoísmos, os ódios, a corrupção e o mau exercício de cargos para termos mais justiça e promoção do bem comum!

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