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quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Delações apontam acerto entre empreiteiras para dividir obras da Copa

Rodrigo Mattos
Do UOL, no Rio de Janeiro


Empreiteiras acertaram a divisão de obras de estádios da Copa por meio de um cartel, segundo delações feitas por executivos da Andrade Gutierrez. As informações constam da denúncia do Ministério Público Federal que levaram à prisão do ex-governador do Rio de Janeiro Sergio Cabral. Entre as arenas citadas, que supostamente fizeram parte das negociações entre construtoras, estão Maracanã, Mineirão, Arena Amazônia e Estádio de Brasília.

Segundo os executivos da Andrade Gutierrez, houve uma reunião entre todas as construtoras após o Brasil ter sido escolhido sede da Copa-2014, o que ocorreu em 2007. Daí, saiu um acordo para divisão de obras entre a empreiteira e a Odebrecht. Foi o que afirmou o executivo Clovis Primo em depoimento de colaboração no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro:

"Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa do Mundo de 2014, várias empresas interessadas nas obras necessárias reuniram-se previamente para averiguar quais seriam os interesses de cada uma na tentativa de fazer um conluio. O acerto prévio deu-se de maneira mais consistente entre Odebrecht e Andrade Gutierrez, sendo que ambas deram cobertura à outra para fraudar as licitações. Em decorrência do acerto, a Andrade Gutierrez venceu as licitações para a construção de estádios em Brasília e Manaus", contou.

O Estádio de Brasília custou R$ 1,4 bilhão e foi o mais caro da Copa. Um relatório do tribunal de Contas do Distrito Federal aponta superfaturamento de R$ 431 milhões nas obras na arena. Já a Arena Amazônia custou R$ 650 milhões.

A reunião entre empreiteiras logo após o Brasil ser escolhido para sediar a Copa foi confirmada por outro executivo da Andrade Gutierrez Rogerio Nora de Sá, que é investigado na Lava-Jato. Ele disse, no entanto, que o acordo só vingou entre poucas empreiteiras.

"As conversas entre as empresas era (sic) o de dividir as obras, mas esse acordo acabou não ocorrendo e restaram umas poucas empresas, ou seja, CNO (Odebrecht), Via Engenharia, Carioca, Galvão, Queiroz Galvão, OAS, Camargo Correa, interessadas no processo", disse o executivo.

No Rio de Janeiro, os vencedores da licitação foram a Odebrecht e a Delta, o que já estava acertado previamente pelo ex-governador Sergio Cabral antes da licitação, na versão dos executivos.

Posteriormente, a Andrade Gutierrez informou estar interessada em participar das obras do Maracanã. Foram procurar Cabral. Ambos dizem que lhes foi informado que era para tratarem com a Odebrecht sua inclusão na obra. A partir daí, Clovis Primo marcou reunião com Benedito Junior, na época vice-presidente da área de infraestrutura da outra construtora.

"Então o depoente acertou com Benedito que a AG comporia o consórcio com 30% dos 70% que caberia à Odebrecht, perfazendo um percentual de 21% do total; que a contrapartida seria a AG ceder parte do consórcio a ser formado com a Odebrecht para o Mineirão, intuito que acabou não se concretizando", relatou Primo.

Por essa versão, havia um acerto entre as construtoras para que a Andrade Gutierrez ficasse com a obra do Mineirão. Mas, depois, a construtora desistiu do projeto mineiro que se tornou uma PPP (Parceria Público-Privada), e ficou com outra empresa. Mas a empreiteira acabou recebendo um naco do Maracanã.

A obra do estádio começou estimada em R$ 430 milhões e teve como custo final R$ 1,2 bilhão. Há acusações de superfaturamento sendo que o TCE do Rio de Janeiro mandou reter R$ 200 milhões em pagamentos para as duas empreiteiras por contas dessas denúncias.

Outro executivo da Andrade Gutierrez Alberto Quintães confirmou, em depoimento, que a entrada da Andrade Gutierrez foi negociada com a Odebrecht pois o Maracanã fazia parte de sua cota na divisão. "Com relação à obra do MARACANÃ para a COPA de 2014 teve conhecimento que havia um acordo nacional e que o depoente foi chamado para uma reunião com Rogério Nova e Sergio Cabral no Palácio das Laranjeiras, onde foi pedido a Sergio Cabral permissão para a AG entrar no consórcio CNO (Odebrecht)/Delta que ficaria com a obra do Maracanã."

Até agora, na denúncia, executivos afirmaram ter pago propina para Cabral por meio de mesadas e percentuais de obras. O MPF não citou subornos a outros governadores nesta ação.

Na ação, os procuradores afirmam que o acordo de colaboração com a Andrade Gutierrez "trouxe temas que ainda não eram objeto de investigação criminal, dentre eles, a cartelização das empreiteiras para a construção ou reforma dos estádios que sediariam as partidas da Copa do Mundo de 2014".

As delações de executivos da Odebrecht estão em fase final de homologação e devem acrescentar informações a essas acusações da Andrade Gutierrez. O UOL Esporte ligou para os responsáveis pelo COL (Comitê Organizador Local), que repassavam as ordens das Fifa para as obras de estádios, mas não conseguiu falar com eles.

Procurado pela reportagem, o Governo do Amazonas afirmou que "a obra em questão não foi realizada pela atual gestão" e que "está disponível para colaborar com as investigações". A Odebrecht também foi procurada e disse que não vai se comunicar sobre o caso.

O Governo de Minas Gerais também afirmou que as obras foram realizadas em outra gestão, mas disse que está investigando o estádio. "informamos que, embora não tenha conhecimento formal da citada denúncia, o Governo do Estado é o maior interessado na elucidação do caso, haja vista tratar-se de contrato assinado em 2010, antes do início desta administração – tanto que está em curso, no âmbito da Controladoria-Geral do Estado, uma auditoria relativa ao contrato de parceria público-privada do Mineirão", diz o posicionamento.

O Governo do Distrito Federal, por sua vez, também afirmou que as obras ocorreram nas gestões anteriores e que apoia investigações sobre quaisquer desvios que possam ter ocorrido.

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