domingo, 2 de setembro de 2018

De LATA EM LATA o poeta enche um Livro

Hoje é domingo!
Procuro os poetas, e não vejo os poetas!
Vou à feira da Cohab, talvez encontrasse meu querido poeta Francisco Tribuzi por lá...
Não vi Kenard, não vi Cunha Santos, não vi Kleber Lago!
Quem sabe! ... Por aonde anda o João Batista do Lago?
Clarice chegou agora e me afirma que o poeta João Batista está em Curitiba...
Penso logo: O João foi votar no Ratinho...
Mas encontro o Mhario Lincoln...
O Mhario está na praça Santos Andrade... e o vejo de Lata em Lata...

E transcrevo abaixo:

De LATA EM LATA o poeta enche um Livro
(ou) a grandeza da interpretação autopoética

(*) Mhario Lincoln

Obs: O livro vem dentro de uma bela 'Lata do Poeta'. Genial, Garret. DEZ!



Em 01/08/2012, sem ainda conhecer essa pessoa humana multiculturalmente maravilhoso, o poeta, jornalista, radialista, produtor musical e escritor Cleverson Garrett, atentei-me para um livro que explodia em vendas: O VERÃO DA LATA, do jornalista Wilson Aquino, resgatando as loucuras e as 'viagens' do mítico verão de 1987/88 nas praias do sudeste e sul, brasileiras.

Depois virou uma série de projetos para TV e cinema e caiu, definitivamente, na mitologia nacional.

“Um fato inesquecível porque era muito boa, todo mundo fumou. Uma vez eu estava no Arpoador [zona sul do Rio] e vi uma lata nas ondas, veio até a areia.

As pessoas abriram, fizeram um 'baseado' e vários fumaram. Era o verão, fim de tarde, o sol se pondo, a beleza daquele lugar, foi um episódio emocionante", compartilha o autor do livro citado.

Pois bem, do Rio ao Rio Grande do Sul, milhares de latas hermeticamente fechadas, sem rótulo, cada uma com cerca de 1,5 kg de ‘diamba’ (palavriado maranhense), começaram a ser avistadas, procuradas, compartilhadas.

Nascia um fenômeno cultural: o "verão da lata".

Muito anos depois desse fenômeno, reencontro a ‘lata’, com novo rótulo.

Desta feita, assinada por Garret. Literalmente uma lata. Mas dentro, invés do cânhamo, um livro recheado de belas poesias, que, se não, suas aventuras
líricas no decorrer de todos esses anos.

“(...) ‘A lata do poeta’, cantada por Gilberto Gil, inspirou o título dessa obra, assim, como em 1988, o ‘Verão da Lata’, no litoral brasileiro”, diz Garret.

Foi exatamente no embalo desse ‘tapa’ – A Lata do Poeta - que comecei a ler este livro bem interessante. Não pela performance do invólucro, aliás, melhoradíssima. Porém – e muito mais – pelas assertivas líricas: “... se a realidade fosse suficiente/ não haveria o sonho...”.

Bom, aí entra um fator muito especial na linguagem poética de Cleverson Garret. O que eu chamo de descontinuidade da rima, com o propósito de garantir a originalidade da ideia:

”O que mais devemos temer/ é continuar sendo (tendo)/ aquilo que já/ não nos satisfaz...”.

Leia: se fosse aqui um Castro Alves ou mesmo um Casimiro de Abreu ou um Bilac, primeiro, a construção melodiosa seria bem diferente e as rimas quase uma necessidade. Se fosse Sousândrade, no entretanto, a beleza da construção poética também quebraria os paradigmas estruturais com construção poética eivada de inesperados arranjos sonoros, (‘ut supra’: sendo/tendo), com incríveis "(...) conjuntos verbais, que quebram a estrutura sintática da língua portuguesa”, nas palavras de Jomar Moraes, ex-presidente da Academia Maranhense de Letras, um dos maiores estudiosos de Sousândrade no Brasil.

Desta forma, Garret dignifica a métrica. Mas lhe faz incidir a marca própria do poeta: “Já não me sinto capaz de mudar o mundo/ e alguns ideais joguei num abismo profundo/ dos cabelos longos e do ar rebelde/ nada sobrou/ me tornei um gravata/ de maconheiro, mochileiro a pai e marido/ até o Rock’n’Roll virou jazz/ fui dormir nos anos 80/ acordei sem oxigênio”.

A mim me parece, inclusive, uma bela letra de música do Led Zeppelin, com a sonoridade ímpar da voz de Robert Plant, interpretando algo parecido: ‘Stairway’.

Foi o que senti ao ler esse poema “Dois Mil Anos”, titulado com a grafia do I CHING, livro de cabeceira – há muito – de Cleverson Garret.

Na verdade, eis um segmento poético bem interessante, somadas às mais de 350 páginas de “A Lata do Poeta”.

E isso diz muito a experiência de vida do autor que, no verão de 1988 – o da maconha na lata – foi morar – por seis meses - numa casa abandonada em Porto Belo, litoral de Santa Catarina: “Foi o melhor verão de minha vida...”, diz ele.

Como se vê, é um livro liquidificador, ‘id est’, traz em seu bojo, milimetricamente misturados, muito das experiências passadas, sofridas e apreendidas, ao longo de alguns anos, escola-mestra de aprendizado lírico para Garret: “Estenda-me a mão/ tire-me deste abismo/ estou cansado de tentar subir/ tão perto que posso sentir/ o ar mais fresco/ acariciando-me a face/ (...) Liberta-me da culpa/ entrega-me a paz/ sou moribundo/ em busca do sol”.

Leia, acima: incríveis palavras sob pressão psicológica imensa.

Porém, não abusiva ao leitor. Garret consegue explodir em solidão, angústia e grito, de forma quase suave, como a brisa, que lhe acaricia a face, no verso anterior.

Posso dizer ‘ex cathedra’, o quão difícil é, na construção de um texto ou de um momento poético, não saírem excertos pessoais nas entrelinhas: ódio, medo, angústia, sofrimento, dor... aqui, porém, o autor de “A Lata do Poeta” consegue controlar tudo isso na forma intrapessoal e transmitir aos seus fãs- como eu, agora - na forma da sublimação etérea, seus versos, reduzindo categoricamente o impacto que ele sentiu ao escrevê-los.

Cabe aqui exemplificar, com pertinência a dor pessoal do poeta - e como transformar essa dor em lirismo absoluto – diante do grito do peito: nesta hora, vem-me Florbela Espanca: “E, olhos postos em ti, vivo de rastros:/ Ah! Podem voar mundos, morrer astros,/ Que tu és como Deus: princípio e fim!...", (Florbela Espanca, Livro de Soror Saudade, 1923).

Algo realmente espetacular. Só os grandes poetas podem transformar imagens doloridas, fortes e ressentidas num giral de plectro semi-orgânico.
Imergi-me por longos dias da semana nas águas límpidas da experiência lírica de Cleverson Garret, acompanhando o balouçar da ‘lata’, à mercê das ondas da imaginação.

Na verdade, foi igualmente um batizado por submersão.

Agora estou apto a ler e entender outros diferentes momentos, onde aedos podem vir de diferentes formas e dimensões, a fim de somar graciosidade ao planeta poesia.

Termino com uma pérola: “segundo antes dos lábios se tocarem/ são os olhos que se beijam...”. Bravo, Garret!

Mhario Lincoln

Presidente da Academia Poética Brasileira.

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