Fonte: Agência Senado
O Senado aprovou nesta terça-feira (15), por unanimidade, o
projeto que garante a distribuição a estados e municípios de parte do bônus de
assinatura do leilão de campos excedentes do pré-sal. O PL 5.478/2019
já havia sido aprovado na parte da manhã pela Comissão de Assuntos
Econômicos (CAE). Agora o texto terá que passar pela sanção presidencial.
O projeto destina 30% do que a União arrecadar no leilão
aos entes federados. Estados e Distrito Federal ficarão com 15% — ou R$ 10,9
bilhões, se todos os campos forem leiloados — e municípios receberão os outros
15%.
— Nunca aconteceu, na história do Brasil, uma distribuição
de recursos do jeito que está sendo feita. Nós temos que ser verdadeiros.
Apesar de divergir em muitas coisas, há que se dar o valor a quem começou essa
discussão, o ministro [da Economia] Paulo Guedes. Ele erra ao dizer 'Menos
Brasília, mais Brasil' em vez de 'Menos União, mais Brasil' — afirmou o
relator, senador Omar Aziz (PSD-AM).
O rateio entre as prefeituras seguirá os critérios do Fundo
de Participação dos Municípios (FPM), que considera parâmetros como a
desigualdade regional e a renda per capita para beneficiar as populações com
menor índice de desenvolvimento. Já o critério de distribuição para os estados
foi o ponto que demandou maior esforço dos parlamentares por um acordo.
A Emenda Constitucional 102, que estabeleceu esses
percentuais, determina que as unidades da Federação recebam os recursos segundo
critérios do Fundo de Participação dos Estados (FPE). Essa regra agrada aos
entes mais pobres, que receberiam um rateio proporcionalmente maior em razão da
tentativa de se equalizar as distorções regionais.
Com a nova regra de distribuição, incluída pela Câmara,
apenas dois terços ficam distribuídos segundo o FPE e a parte restante
obedecerá a um critério para compensar as perdas dos estados exportadores com
as desonerações fiscais determinadas pela Lei Kandir. Além disso, o
projeto garante ao Rio de Janeiro, estado confrontante (de onde será
efetivamente retirado o petróleo), 3% (R$ 2 bilhões) da parcela da União, que
ficará com 67% do bônus.
— Embora as expectativas iniciais tenham sido frustradas,
em função de que nas primeiras negociações o critério de partilha era o FPE,
prevaleceu um entendimento que, se não agrada a todos, tem o amplo apoio do
conjunto dos governadores do Brasil – afirmou o líder do governo, senador
Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE).
Emendas
Durante a votação em plenário, o senador Rogério Carvalho
(PT-SE) voltou a defender emenda para compensar os estados do Norte e do
Nordeste, além do DF, pelas perdas com o novo critério. Para isso, a emenda
previa a retirada de mais 3% da parcela da União para que os recursos fossem
distribuídos a esses entes.
O relator explicou que, apesar de concordar com o mérito da
emenda, não seria possível acatar a mudança porque mudanças no projeto
atrasariam a aprovação e a data do leilão está próxima: 6 de novembro. A demora
na aprovação do critério, segundo o relator, poderia inviabilizar a
distribuição dos recursos.
A mudança sugerida por Rogério Carvalho foi rejeitada pelo
plenário, assim como outra emenda para que parte dos recursos (0,5% do total)
fosse retirada dos 67% da União e destinada ao estado de Roraima. De
acordo com o autor do pedido, senador Mecias de Jesus (Republicanos-RR), o
estado precisa de recursos para lidar com todos os problemas resultantes da
imigração massiva de venezuelanos para o Brasil. O líder do governo prometeu
uma reunião com a bancada de Roraima para tratar de recursos extraordinários ao
estado.
Para grande parte dos senadores que se pronunciaram, o
texto aprovado, apesar de não ser o ideal, foi o possível. O líder da maioria,
senador Eduardo Braga (MDB-AM), disse acreditar que o melhor seria não ter
alterado o critério para os estados, mas afirmou que a situação ideal não seria
possível do ponto de vista político.
— O ótimo é o inimigo do possível na política — argumentou
o líder, cuja opinião foi endossada pela líder do Cidadania, Eliziane Gama
(Cidadania-MA).
Isenção a petroleiras
Já o líder da minoria, senador Randolfe Rodrigues
(Rede-AP), defendeu o fim da isenção a petroleiras, que, segundo ele, já chega
a R$ 1 trilhão. De acordo com o senador, sem as isenções aprovadas pelo governo
de Michel Temer, haveria R$ 338 bilhões a mais para estados e municípios. Ele
pediu o fim das isenções fiscais às petroleiras. Ainda na visão de Randolfe, a
distribuição dos recursos não é uma "bondade do governo" atual e sim
o cumprimento do que determina a Constituição. O senador Reguffe (Podemos-DF)
concordou.
— Essa participação está especificada na Constituição,
então não é um favor do governo federal, é uma vitória do Congresso Nacional —
disse Reguffe.
Para o senador Cid Gomes (PDT-CE), relator da primeira
proposta que tratou da distribuição de recursos (PEC 98/2019), a Câmara não
deveria ter feito a alteração no critério de distribuição para os estados. O
senador disse que a outra Casa Legislativa não dá ao Senado o mesmo respeito
que recebe. O senador Veneziano Vital do Rêgo (PSB-PB) concordou e acusou a
Câmara de não cumprir o primeiro acordo estabelecido.
Já os senadores Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), líder do
governo, e Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), salientaram a disposição do governo de
fortalecer os entes federativos. Eles destacaram o ineditismo da distribuição
de recursos a todos os estados e municípios do país.
Excedente
O dinheiro a ser repartido é uma parte do chamado bônus de
assinatura do leilão, que totaliza R$ 106,56 bilhões. Esse valor foi acertado
pelo governo em mês de abril. Firmado pela Petrobras e a União em 2010, o
contrato de cessão onerosa garantia à estatal explorar 5 bilhões de barris de
petróleo em áreas do pré-sal pelo prazo de 40 anos. Mas novas sondagens
descobriram que a reserva tem potencial para cerca de 15 bilhões de barris. É
esse excedente que será licitado.
O bônus será pago em duas parcelas pelos vencedores do
leilão, uma neste ano e outra em 2020. Do total, R$ 33,6 bilhões ficarão com a
Petrobras em razão de acordo com a União para que as áreas sob seu direito de
exploração possam ser licitadas. Do restante (R$ 72,9 bilhões), 15% ficarão com
estados, 15% com os municípios e 3% com o Rio de Janeiro. Os outros 67% ficarão
com a União (R$ 48,84 bilhões).
O projeto obriga os entes a usar os recursos para o pagamento
de despesas previdenciárias e para investimentos. No caso dos estados, a
prioridade é para as despesas previdenciárias, ou seja: eles só poderão fazer
investimentos quando garantirem uma reserva financeira específica
para pagar as despesas previdenciárias a vencer até o exercício financeiro do
ano seguinte ao da transferência dos recursos pela União. Para os municípios,
não há essa regra e os recursos podem ser usados para as duas finalidades.
Municípios
Apesar de discordarem sobre os critérios de distribuição
para os estados, os senadores tiveram como ponto comum à maioria dos
pronunciamentos os benefícios aos municípios, que enfrentam dificuldades.
— Este é o primeiro passo. Nas próximas medidas do Pacto
Federativo com certeza nós conseguiremos desvincular mais recursos federais e
alocar nos municípios e nos estados brasileiros — afirmou o presidente do
Senado, Davi Alcolumbre.
Os senadores Carlos Viana (PSD-MG) e Wellington Fagundes
(PR-MT) também classificaram o projeto como o primeiro passo para uma mudança
na forma como os recursos são distribuídos entre os entes federados.
— Essa é uma vitória para o Brasil. O Pacto Federativo, tão
falado, cada dia mais passa a ser realidade e essa votação, sem dúvida nenhuma,
é histórica para a causa municipalista — comemorou Wellington,
O senador Nelsinho Trad (PSD-MS) afirmou que mais de 70%
dos municípios fecharam suas contas no vermelho em 2018. Os prefeitos, disse,
enfrentam dificuldade até para pagar as folhas de pagamentos e comprar merenda
escolar.
— Quero aqui parabenizar esta Casa. Hoje nós demos aqui um
passo muito importante, significativo, para valorizar o municipalismo
brasileiro.
O senador Telmário Mota (Pros-RR) destacou as dificuldades
dos prefeitos e lembrou que é nos municípios acontecem verdadeiramente as
políticas que beneficiam a população.
— Esse projeto vem trazer uma luz verde para o encontro do
Brasil que nós sonhamos. Eu tenho certeza de que não é tudo que os prefeitos
gostariam de ter, mas é aquilo que eles estão precisando. O Senado hoje dá uma
resposta para o Brasil, a de que aqui dentro se fazem políticas públicas com
responsabilidade.

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