Fonte: Agência Senado
O Plenário do Senado Federal aprovou em segundo turno nesta
terça-feira (22), com 60 votos favoráveis e 19 votos contrários, a reforma da
Previdência (PEC 6/2019). Mas ficaram pendentes de votação um destaque
apresentado pelo PT e outro pela Rede, que serão votados na quarta-feira (23),
a partir das 9h.
A principal medida da reforma da Previdência é a fixação de
uma idade mínima (65 anos para homens e 62 anos para mulheres) para a
aposentadoria, extinguindo a aposentadoria por tempo de contribuição. O texto
também estabelece o valor da aposentadoria a partir da média de todos os
salários (em vez de permitir a exclusão das 20% menores contribuições), eleva
alíquotas de contribuição para quem ganha acima do teto do INSS (hoje em R$
5.839,00) e estabelece regras de transição para os trabalhadores em atividade.
Cumprida a regra de idade, a aposentadoria será de 60% com
o mínimo de 15 anos de contribuição. Cada ano a mais eleva o benefício em dois
pontos percentuais, chegando a 100% para mulheres com 35 anos de contribuição e
para homens com 40.
O objetivo com a reforma, segundo o governo, é reduzir o
rombo nas contas da Previdência Social. A estimativa de economia com a PEC
6/2019 é de cerca de R$ 800 bilhões em 10 anos. O Congresso ainda vai analisar
uma segunda proposta (PEC 133/2019) que contém alterações e acréscimos ao texto
principal, como a inclusão de estados e municípios nas novas regras
previdenciárias.
A reforma foi aprovada em primeiro turno no início de
outubro, com 56 votos favoráveis e 19 contrários — são necessários pelo menos
49 votos para a aprovação de uma PEC. Os senadores derrubaram um dispositivo do
texto que veio da Câmara dos Deputados: as novas regras do abono salarial. Como
se trata de uma supressão, essa mudança não provocará o retorno da PEC 6/2019 à
Câmara dos Deputados.
Antes de anunciar o resultado da votação principal, o
presidente do Senado, Davi Alcolumbre, registrou a presença em Plenário do
ministro da Economia, Paulo Guedes.
— O Senado da República, o Congresso Nacional e a Câmara
dos Deputados enfrentaram, este ano, uma das matérias mais difíceis, mas, ao
mesmo tempo, mais importantes para a nação brasileira. O Parlamento mostra maturidade
política, mostra responsabilidade. O Congresso Nacional cumpre com as suas
responsabilidades. O Parlamento brasileiro entrega a maior reforma da
previdência da história deste país para o Brasil e para os 210 milhões de
brasileiros. Obrigado a todos os senadores pela paciência. Hoje o Senado
Federal demonstra grandeza com a votação desta matéria. Parabéns a todos e a
todas! — disse Davi.
Destaques rejeitados
Em votações no painel eletrônico, os senadores rejeitaram
dois destaques apresentados por partidos da oposição para modificar o texto da
reforma. Outros dois não foram votados.
Por 57 votos a 20, o Plenário rejeitou o destaque
apresentado pelo senador Weverton (PDT-MA) que retiraria da reforma a revogação
de regimes de transição que ainda existem frutos de reformas de governos
anteriores.
Já o destaque do senador Telmário Mota (Pros-RR) foi
rejeitado por 57 votos a 19. A intenção era beneficiar trabalhadores na
comprovação de tempo de serviço com insalubridade.
Votação suspensa
Devido a dúvidas de senadores sobre o teor das mudanças na
Constituição, os destaques apresentados por Humberto Costa (PT-PE) e Randolfe
Rodrigues (Rede-AP) tiveram suas votações adiadas para a quarta-feira (23). A
dúvida dos senadores é se o texto da reforma pode ou não atingir direitos de
quem trabalha em atividade periculosa.
O destaque do PT visa diminuir os prejuízos na
aposentadoria de trabalhadores que exercem atividades com efetiva exposição a
agentes nocivos químicos, físicos e biológicos. O destaque da Rede trata da
idade mínima desses mesmos trabalhadores.
Defendido em discurso do senador Paulo Paim (PT-RS), o
terceiro destaque acabou por ter a votação suspensa. Após questão de ordem do
senador Eduardo Braga (MDB-AM), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, suspendeu
a votação dos destaques, marcando para esta quarta-feira (23), às 9h, sessão
para continuar a análise do texto.
Eduardo Braga explicou a razão de os senadores estarem em
dúvida sobre a votação dos últimos destaques.
— Hoje, o trabalhador brasileiro tem direito à
aposentadoria por periculosidade? A informação que circula aqui no Plenário é
que, em 1995, uma Emenda Constitucional retirou a periculosidade da
Previdência. Eu indago à Mesa: essa informação procede? — disse Braga.
Davi Alcolumbre respondeu que o teor do discurso de Paim
estava correto e leu o texto constitucional, que será modificado pela PEC
6/2019: "§ 1º É vedada a adoção de requisitos e critérios diferenciados
para a concessão de aposentadoria aos beneficiários do regime geral de
previdência social, ressalvados os casos de atividades exercidas sob condições
especiais que prejudiquem a saúde ou a integridade física e quando se tratar de
segurados portadores de deficiência, nos termos definidos em lei complementar."
O presidente do Senado ressalvou, porém, que o líder do
governo, Fernando Bezerra, se comprometeu a atender posteriormente, em lei
complementar, os trabalhadores que pudessem ser prejudicados. Mas diante do
impasse, Davi preferiu suspender a votação.
Debate
Primeiro a falar antes da votação, Paulo Paim afirmou que a
reforma da Previdência vai repercutir na vida de milhões de brasileiros.
— Todos perderão com essa PEC, não escapará ninguém que se
aposentar a partir de novembro — disse Paim.
O líder do PT, senador Humberto Costa, afirmou que os
senadores estavam retirando direitos históricos dos trabalhadores brasileiros.
Em sua opinião, a reforma vai diminuir o valor de aposentadorias e pensões e
vai atingir com mais dureza os mais pobres, não mexendo com os bilionários nem
com os grandes devedores da Previdência.
— As pessoas vão trabalhar mais. É um absurdo o que se está
fazendo aqui. Essa reforma vai promover mais desigualdade, mais miséria, mais
pobreza, mais fome. Está aí o exemplo do Chile, exemplo do ministro da
Economia, Paulo Guedes. Esse discípulo de Pinochet quer fazer aqui o que
fizeram lá — afirmou Humberto Costa.
O líder do MDB, senador Eduardo Braga, afirmou que, embora
a reforma vá exigir “sacrifício de todos”, ela é necessária para combater
privilégios e ajudar o país a recuperar seu equilíbrio fiscal, retomar o
crescimento econômico, alavancar a geração de emprego e renda e garantir
capacidade de investimento público.
— É uma PEC que estamos votando porque o Brasil precisa –
disse Braga.
O líder do PSL, senador Major Olimpio (SP), afirmou que a
nova Previdência vai ajudar o país no equilíbrio econômico, fiscal e
orçamentário.
— Não é uma panaceia, não vai ser um remédio para todos os
males, mas é o ponto inicial para a retomada do crescimento e da geração de
emprego e renda. O Senado fez e continuará fazendo sua lição de casa — afirmou.
José Serra (PSDB-SP) votou favorável à reforma por entender
que ela vai ajudar a equilibrar as contas públicas e a restabelecer a confiança
na política fiscal. Além disso, Serra afirmou que a reforma “vai recolocar o
país na rota do crescimento econômico e atrair mais investimentos privados”.
Por sua vez, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) disse que
o Senado vivia “um momento histórico que vai colocar o Brasil em outro
patamar”. Ele afirmou que o Congresso Nacional estava cumprindo sua parte de
maneira responsável. O senador ponderou que a reforma é “um remédio forte,
amargo”, porém necessário para ajustar as contas públicas e dar credibilidade,
confiabilidade, estabilidade e segurança jurídica ao país.
Já o líder da Rede, senador Randolfe Rodrigues, afirmou que
a situação deficitária da Previdência é real e deve ser abordada, mas criticou
a opção por uma reforma que, na sua avaliação, onera apenas os mais pobres.
Para o senador, o país deveria tributar o capital financeiro e atacar as
políticas de desonerações fiscais.
Randolfe destacou a situação do Chile, que vivencia
protestos de grande escala e repressão policial por conta da situação econômica
do país. Ele lembrou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, estudou e
trabalhou no Chile e trouxe de lá inspiração para a proposta.
— Esta reforma está sendo idealizada por alguém que se
orgulha de ter sido formado no Chile de [Augusto] Pinochet, que está
desmilinguindo — afirmou Randolfe.
Na opinião de Randolfe, a reforma da Previdência vai
agravar a desigualdade social do Brasil.
O relator Tasso Jereissati registrou que o debate sobre a
reforma foi amplo e que o Congresso conseguiu aprimorar o texto do Poder
Executivo.
— O texto não é perfeito, mas é o melhor texto possível
dentro da diversidade da Casa — disse Tasso.
Os senadores Roberto Rocha (PSDB-MA), Marcos Rogério
(DEM-RO) e Ciro Nogueira (PP-PI) também defenderam a aprovação da Nova
Previdência.
Para o primeiro, a reforma é importante e necessária pois
vai inibir aposentadorias precoces e adequar as finanças brasileiras à
realidade econômica e de expectativa de vida da população. Roberto Rocha
acrescentou que o deficit previdenciário foi de R$ 260 bilhões no ano passado e
poderia chegar a R$ 300 bilhões este ano.
Marcos Rogério disse que a Previdência está gastando
atualmente 57% do Orçamento, enquanto apenas 9,4% é investido na área da saúde.
Para ele, a reforma é robusta, responsável e vai garantir sustentabilidade.
— Essa PEC sinaliza nosso compromisso com o Orçamento
público, com a geração atual e com as gerações futuras. Ainda não é a solução
definitiva, mas ela corrige a escalada do crescimento do deficit público —
avaliou Marcos Rogério.
Para Ciro Nogueira, a reforma vai combater privilégios e
ajudar o país a retomar o crescimento econômico.
Rogério Carvalho (PT-SE) afirmou que são os mais pobres que
pagarão a conta da economia dos R$ 800 bilhões.
Na opinião de Weverton, o Senado estava “decretando a
pobreza na velhice”, retirando dinheiro de milhares de pequenos municípios e
tirando direitos de milhões de pessoas.
Redação
O texto aprovado é o mesmo confirmado mais cedo pela
Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) sob a relatoria do senador Tasso
Jereissati (PSDB-CE), com modificações redacionais. Ele acatou emenda do
senador Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE) para ajustar a cláusula de vigência
relativa a mudanças nos regimes próprios de servidores públicos nos estados,
Distrito Federal e municípios.
A PEC 6/2019 revoga alguns dispositivos constitucionais das
regras de transição de reformas anteriores e condiciona a entrada em vigor
desses trechos, para esses entes federados, à aprovação de legislação local
ratificando a mudança. Para Bezerra, porém, a redação atual da proposta poderia
levar à interpretação de que todas as mudanças relativas a servidores públicos
previstas na reforma da Previdência só vigorariam após a aprovação de lei local
referendando aqueles dispositivos.
O próprio relator sugeriu ajuste redacional para harmonizar
as expressões “benefício recebido que supere” e “proventos de aposentadorias e
pensões recebidos que superem” ao longo do texto em trechos como o que trata
das alíquotas previdenciárias aplicadas aos proventos de servidores, escolhendo
a última expressão.
Tasso Jereissati também acatou emenda do senador Paulo Paim
(PT-RS) para ajustar a redação das regras de transição aos segurados do Regime
Geral da Previdência Social (RGPS), com a aplicação do regime de pontos 86/96.
A redação da PEC 6/2019 deixava de mencionar dispositivo que assegura a
apuração de idade e tempo de contribuição em dias para o cálculo do somatório
de pontos e aplicação da regra.
Outra emenda acatada foi a 585, também de Paim, que
acrescenta a expressão “no mínimo” antes da quantidade de anos de exercício
necessários de atividade em área com exposição a agentes nocivos à saúde.
Mudanças feitas pelo Senado
Durante as votações na CCJ e em Plenário, os senadores
promoveram alterações no texto que havia sido aprovado na Câmara dos Deputados.
Uma das mudanças feitas pelo relator na CCJ, e aprovada
pelos senadores, foi suprimir do texto a possibilidade de que a pensão por
morte fosse inferior a um salário mínimo.
Tasso ainda acolheu outras mudanças como a que acrescentou
os trabalhadores informais entre os trabalhadores de baixa renda, com direito
ao sistema especial de Previdência. O relator também eliminou, por completo,
qualquer menção ao Benefício da Prestação Continuada (BPC). Ou seja, as regras
atuais ficam mantidas e esse benefício não passará a ser regulamentado pela
Constituição.
Outra mudança feita pelo Senado foi a supressão de parte da
regra de transição para os profissionais expostos a agentes nocivos, como os
mineiros de subsolo, que elevava progressivamente os requisitos para que esses
trabalhadores conseguissem a aposentadoria.
Durante a tramitação no Senado também foi eliminado um
dispositivo que poderia prejudicar o acesso à aposentadoria integral de quem
recebe vantagens que variam de acordo com o desempenho no serviço público. A
emenda foi considerada de redação pelos senadores, em acordo.
A nova redação foi negociada com o Ministério da Economia e
com representantes de servidores públicos interessados. A intenção é permitir
que funcionários remunerados com gratificações por desempenho que já estavam no
serviço público até o fim de 2003, consigam levar para a aposentadoria integral
o salário baseado nesse extra.

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