A conspiração oficial
23.08.2021
João Bosco Rabello
A decisão das forças políticas e institucionais que jogam dentro das quatro linhas da Constituição é a de manter o cerco às ações desestabilizadoras do presidente Bolsonaro, o que acaba se traduzindo em uma espécie de impeachment branco, na medida em que o chefe de governo não se afasta de sua linha de confronto.
Como Bolsonaro aprofunda a crise enquanto o centrão tenta conciliar apoio político ao seu governo com os próprios interesses do bloco, o que se tem é o desgoverno – ou a falta de um rumo que deixe em pé alguma perspectiva de saída política para o impasse.
Nesse contexto, a batalha visível é a que opõe o Judiciário, representado pelo Supremo Tribunal Federal, e o governo federal, onde o presidente agrava seu isolamento sempre que tenta passos mais radicais e definitivos no enredo que traçou desde que viu desidratar sua força eleitoral.
Há mais que isso, porém. As forças políticas estão atentas, mas se mantêm cautelosas com base na constatação de que não há relação custo/benefício em uma iniciativa mais objetiva e frontal contra Bolsonaro.
Embora o presidente já tenha fornecido motivos suficientes, um processo de impeachment formal só teria um desfecho às vésperas do processo eleitoral e imporia ao país uma turbulência ainda maior que a gerada pelo chefe de governo.
Tal cenário não significa omissão da corporação política na guerra deflagrada por Bolsonaro. As manifestações de apoio ao Judiciário representam uma rede de proteção por trás das divergências pontuais que possam dividir o Legislativo, aí incluído o centrão. É o que se verifica agora com a suspensão da sabatina de André Mendonça indicado por Bolsonaro justamente para o STF.
A eficácia dessa estratégia de vigilância implacável, que o comportamento de Bolsonaro transforma em um impeachment silencioso, está diretamente ligada ao passo seguinte do presidente, sempre imprevisível.
A revelação do ex-ministro da Defesa, Raul Jungmann, não desmentida, de que os comandantes militares e o ministro da Defesa foram demitidos por recusarem a ordem de estilhaçar as vidraças do STF com um caça Grippen, dá uma medida da falta de limites do chefe de governo.
A ordem se inspirou em episódio real ocorrido em 2012, no governo Dilma, quando um caça da FAB, em evento de troca da bandeira na Praça dos Três Poderes, produziu esse efeito (ver vídeo ao final) ao que se sabe, acidentalmente.
Repetir a cena para intimidar o STF no contexto atual é a denúncia mais grave até aqui, de periculosidade mais que suficiente para desengavetar um dos mais de cem pedidos de impeachment que estão na Câmara.
Tais fatos registram uma tática presidencial de graduar suas ações de forma a justificar um ato final com o argumento de que tudo tentou para evitar o que, na verdade, provoca: uma crise sem precedentes. O pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, que poderá não ser o único, se insere nesse contexto.
A batalha institucional se dá em campo aberto, com a oposição constitucional a Bolsonaro em guarda, agindo de forma reativa, dando visibilidade ao presidente como agente ativo da desestabilização. A guerra é acrescida agora das polícias militares cuja sublevação já se manifestara em Pernambuco e, mais recentemente viu em São Paulo.
A reação dos governadores resultou nas demissões de comandantes, o de São Paulo, ontem, no mesmo instante em que adesão do mundo econômico ao coro dos descontentes com o governo forma o que se chama de estabilishment, a sinalizar que já descartou não só a reeleição de Bolsonaro, mas também a viabilidade de seu governo.
O cenário, assim posto, aponta para um período de turbulência contínua que tende a alcançar seu grau mais intenso em 2022. O pano de fundo é o agravamento do quadro econômico, cuja gravidade se mede já agora pelos índices negativos de inflação, emprego, crise de energia e renda, para ficar nos que mais resumem a crise.
O presidente, portanto, conduz seu próprio impeachment que, até aqui, se materializa pela inviabilidade política e eleitoral. Já não governa, conspira.
Publicação do Capital Político
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