quinta-feira, 8 de setembro de 2022

ViceVersa Mhario Lincoln/Osmarosman Aedo

Brasil / VICEVERSA*

ViceVersa com Osmarosman Aedo/Mhario Lincoln

*ViceVersa é marca registrada do Facetubes.

07/09/2022

Por: Mhario Lincoln Fonte: Osmarosman Aedo/Mhario Lincoln

Mhario Lincoln/Osmarosman Aedo


O artista, poeta, escritor, militante cultural, designer gráfico e produtor Osmarosman Aedo e MHL. 

1 Mhario Lincoln - Você sempre se apresenta como Soteropolitano. Isto é, um orgulho para você. Aliás, Leon Tolstói disse certa vez: "Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia". Você concorda?

Osmarosman Aedo - Concordo plenamente, mesmo porque quem nega sua origem não merece viver em nossa sociedade que bem sabemos, merece o respeito de enxergar-se antes de enxergar outrem.

2 MHL - Sua carreira musical passou também pela Bahia. Fale-me um pouco dessa experiência e conte alguns momentos em que você viu que estava no caminho certo.

OA - Bem dizer da verdade, tudo começou em Salvador, Bahia, de onde sou originário (por isso o Soteropolitano que você citou acima). Em princípio, não tinha a menor ideia de que um dia um artista seria. Por isso, não tenho os jargões ou histórias de que: comecei aos cinco anos; comecei cantar por causa de minha família; minha referência é fulano, sicrano ou beltrano e por aí vai... Só sei que quando me dei conta tinha tomado um violão emprestado (não recordo de quem, peço desculpas pela memória indefinida) e em pouquíssimo tempo já me encontrava nas esquinas rabiscando uma carreira que já vem por cinco décadas. Quanto ao caminho certo (sem o privilégio da poesia), não o encontrei ainda, porque sei que ao encontrá-lo nada mais será preciso, darei crédito ao absoluto, enfim.

3 MHL - "Toda solidão que vier acompanhada/ Vou diagnosticar como desvio de conduta (...)". É parte de um desabafo poético realmente significativo e faz parte do livro "Antes... E depois de Você". Então toda experiência é válida para incrementar o trabalho universal da poesia?

OA - O mais interessante de meus escritos é que nunca têm uma definição precoce (as definições e interpretações deixo para os amigos que me dão o privilégio de lê-los), mas creio que translucidamente d’alma, há sempre uma releitura de meu estado emocional em tudo o que escrevo.

4 MHL - Um dos trabalhos aplaudidos pela literatura paranaense é o "Parnaso". Uma antologia idealizada por você e por Silvana Mello. Reúne tanta gente magnífica que, em algumas vezes, não tinha acesso direto à grande mídia, mas, que através desse brioso trabalho, acaba tendo. Fale-me mais.

OA - O “Parnaso Poético” (batizado assim por Silvana Mello), veio da necessidade de abrir mais portas e janelas para escritores que intimidados pela dúvida, não acreditavam nas coletâneas, devido uma série de desagrados, desde os custos investidos até a qualidade de impressão. Daí crermos, que o Parnaso veio e está, para muitos exemplos e aprendizados tanto para nós os coordenadores, quanto para esses magníficos talentos que nos circundam.

5 MHL - Você e Geraldo Magela tiveram uma amizade muito produtiva. Ele, coordenando a Feira do Poeta, em Curitiba-PR. Por isso, aproveito sua gentileza de participar de nosso Viceversa para falar um pouco de Magela, já que o aniversário dele, se vivo fosse, ocorreu neste mês de agosto, coincidindo com a data em que estamos fazendo esta entrevista.

OA - O Geraldo Magela, a quem orgulhosamente chamo de AMIGO, o que se estende também a você e a muitos outros que aqui já se tornaram família artística, não foi tão somente um divisor de equilíbrio entre nós e a arte de se recriar todos os dias. Ele era o sábio que cercado de montanhas de livros e informações, nos abordava com o incentivo de começar ou continuar sem que precisássemos evitar o exagero. Um grande AMIGO que faz falta por tudo.

6 - MHL - ainda sobre seus versos:

“(Eu quero sim ser lembrado

Pela: sensibilidade

sensatez

bem-aventurança

sustentabilidade

seriedade

responsabilidade

e pelo profissionalismo, vale ser lembrado. (...)”

“(..) Quero ser esquecido

Pela: incapacidade

inconsciência

indiscernibilidade

invisibilidade

e pela irracionalidade também quero ser esquecido)”.

Sei perfeitamente que poesia não se explica. Mas se aplica. Por isso, o termo “invisibilidade” me pulou aos olhos, haja vista que você é querido, olhado e aplaudido onde chega. Então posso entender que é apenas uma liberdade poética?

OA - Sim é liberdade poética a mesma de que nossa conduta humana se apropriou para esconder: nossas mágoas, nossos desatinos, nossas fraquezas, nossas intempéries silenciosas, nossas travessuras monitoradas e nossa luminosidade, quando de escuro se veste nossos pensamentos.

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Osmarosman Aedo/Mhario Lincoln

OSMAROSMAN AEDO: Antes de mais nada preciso falar da honra e ao mesmo tempo do quão embaraçoso é entrevistar um artista tão completo quanto Mhario Lincoln. Por isso, faço 4 perguntas muito timidamente por não saber como me conduzir diante de tamanho conhecimento, mas como bom Soteropolitano, tentarei. agora vamos à pergunta: (1) - Todo talento quando de posse do discernimento já vem de berço (?) ou já nasce com o indivíduo (?) ouvimos por aí. Você crê nisso ou o talento é conquistado e lapidado conforme a convivência do indivíduo ou com o meio em que vive?

MHARIO LINCOLN - Amigo Osmarosman, você tem muita sustentabilidade e consistência plural em suas afirmações. Principalmente no que fala. Por isso é que estamos aqui conversando. Você é inteligente, consensual e dono de muita sobriedade. Parabéns por esta conversa.

Mas, quanto à pergunta, por décadas ouço falar sobre as facilidades em fazer, escrever e construir. Sobre o talento e sobre outras coisas inerentes à quase perfeição humana. Tentei entender, mas nada me deixou concluir de forma positiva, quando me olho para dentro. Isso porque, a vontade de crescer e entender o que faço me catapultou para além do talento. É a dinâmica desse dom, uma base apenas, para aumentar as possibilidades de estudar mais, entender mais, chegar mais longe. Assim, tive que ler, reler, participar, discutir, errar e voltar a errar: são as dores do crescimento, da evolução. Foi dessa forma com um esforço hercúleo que tentei saber qual caminho trilhar. Nesse ínterim, aprendi que nem toda intuição é sabedoria. E mais, tem-se que ensinar o cérebro a pensar, pois é ele quem regula cada uma de nossas funções corporais, desde respirar, comer ou correr, à capacidade de raciocinar, de se apaixonar ou de argumentar. Eu tive muita dificuldade em ensinar meu cérebro a pensar. Foram momentos de angústia, decepções e retornos. Senti emoções incríveis, boas, péssimas e cheguei à conclusão de que é a vivência (da vida) e seus altos e baixos, a melhor forma de ensinar o nosso cérebro. Então, a cultura, a sapiência, a sabedoria, não diz respeito ao Homem físico. Mas ao Pensamento do Homem. Assim, a profusão do que absorvemos, acaba fazendo o monge, da mesma forma que o axiomático "...cachimbo faz a boca torta". Por outro lado, Herbert Spencer disse, em frase erroneamente atribuída a Darwin: “a sobrevivência é do mais apto”. Então, concluírmos, "....nunca é do mais sabido".

2 - OA - Dá a perceber que seu afloramento literário e musical (entre outras vertentes artísticas), vem crescendo fantasticamente nos últimos tempos. Esse fenômeno natural deve-se à sua visão ampliada da vida ou os acontecimentos em seu entorno o inspira?

MHL – Houve uma mudança brusca em alguns valores durante a migração: São Luís/Curitiba. Lá, na minha origem, por ser nativo, tinha acesso a tudo e a todos. Todavia, aqui onde resido, nada mais foi fácil. Daí, a única forma de participar das atividades que escolhi para continuar a minha vida, pós 50 anos, foi dedicar-me diuturnamente ao estudo. Voltei a fazer aulas de harmonia, a reler os grandes clássicos; inclusive dois livros para isso foram “Cem Anos de Solidão”, de García Márquez e “Tambores de São Luís”, de Josué Montello, passando por “Pilares da Terra”, de Ken Follett. Depois li Liev Tolstói, Kant, Machado de Assis, Olavo Bilac, reli Camões, Gonçalves Dias e um poeta que me deixou bastante confuso: Aleksandr Blok, que eu considero outro manifestante do espírito russo, desde Dostoiévski. Passei a estudar a doutrina espírita, de onde argui-me enquanto ser humano, procurando exercer minhas qualidades, sem vanglórias, soberbas ou comparações aleatórias. Isso foi meu ‘start’ para reconhecer o que sou, como estou e o que posso fazer com essas lições adquiridas em prol do outro, fato que, até hoje, tem feito minha felicidade.

OA 3 -- O artista é movimento de sentimentos (falo por experiência própria). O artista que te move tem também essa motivação ou já é tão natural em sua rotina, que se tornou um só elemento (você e a arte)?

MHL - Por não ser a arte aos olhos filosóficos, um conhecimento racional e objetivo, mas intuitivo, aí entra, a força incomum das partículas invisíveis do conhecimento vivencial. Ninguém faz arte por única e poderosa reação de ter talento. Mas sim, de acrescentar, somar e abastecer esse vivenciamento subjetivo. Com relação a arte em si, ela pode assumir algumas funções, de acordo com o propósito do artista: utilitária, naturalista ou formalista. No meu caso, acho eu, tento fazer a arte naturalista, isto é, retratar o considerado natural ou real, através da maneira mais perfeita possível, tendo como fidelidade precípua, a representação como fundamento. Portanto, não há diferença entre “ser artista” e ser o “Mhario”, em razão de ter-me incorporado literalmente às coisas que escrevo, componho, pinto ou fotografo, dentro de meu próprio subjetivismo. Daí, florescer a olhos nus, a minha digital, onde histórias e fraquezas acabaram por fornecer subsídios incomuns para uma conexão entre o que produzo e o público que me acompanha.

Osmarosman Aedo, no Solar do Rosário, no Largo da Ordem, Curitiba-Paraná.

4 - OA - Como iniciei aqui, entrevistá-lo é um desafio e uma tarefa muito difícil devido sua completude no que diz respeito ao universo da compreensão, então para finalizar gostaria que deixasse aqui sua visão do agora em relação as tendências artísticas ditas do século XXI, ora expostas à sua impecável e extraordinária crítica artística.

MHL - Antes de mais nada, estou imensamente grato e orgulhoso por você, Osmarosman Aedo, ter aceito este convite para fazermos este VICEVERSA. Muito contribuirá para nossos leitores e para um novo projeto, que é a publicação de um livro físico com as entrevistas, que você mesmo fará a diagramação da obra. Abraços meu amigo. Sempre #juntos!

Mas vamos à pergunta: ao contrário do que se aprendeu na chamada “Semana de 1922”, o século XXI começou com exageros digitais em todos os gêneros da arte humana. Outro dia assisti a um vídeo criado com “lasers”, representando a Caverna de Platão. Ou músicas feitas apenas juntando ‘loops’ (pequenas partes harmônicas de composições aleatórias). Nas atividades das artes visuais, basta que se coloque uma tela em rotação e se jogue um monte de cores para surgir algo abstrato. No começo do ano, muita gente assistiu ao renascimento do grupo ABBA, através de figuras holográficas. E por aí vai. Tudo bem. Concordo com essa evolução. Todavia, em quaisquer que sejam os movimentos artísticos, há que se ter um conceito, o mínimo de consciência do que vai ser feito. Aí entra o estudo, atrelado aos dons: talento e capacidade de evolução. Mutatis Mutandi parece ser essa – do digital – a tendência orgânica do Mundo contemporâneo. E no meu bestunto, fator incontrolável para que haja um afastamento irracional entre o humano e o mecânico. Como fala Derrick de Kerckhove, autor da teoria Humanismo Digital, quando o assunto se refere a inteligência não humana: será que a “inteligência artificial é compatível com o humanismo? Tenho motivos para duvidar disso, pelo menos na sua versão ocidental (…). Tudo depende se estamos falando de seres humanos como indivíduos ou como coletividade (…)”.


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