Árbitros não são jogadores
Por Breno Rodrigo*
Em: 30 de abril de 2026
O Brasil é a pátria dos paradoxos. E a literatura nacional explorou com maestria essa condição. Em “Teoria do Medalhão”, Machado de Assis ironiza a formação de uma elite preocupada mais com aparência e conveniência do que com substância; um retrato agudo de um modo de vida que valoriza a forma em detrimento da substância. Sentencia Machado: “o melhor será não ter ideias absolutamente; coisa que ninguém te invejará”.
Já Lima Barreto, outro gênio e intérprete do espírito nacional, em “Os Bruzundangas”, constrói uma sátira implacável de um país fictício que, na prática, pouco tem de ficcional: “Na Bruzundanga, as leis existem, mas não para serem cumpridas”. A crítica atinge em cheio a distância entre norma e prática: uma constante na vida brasileira.
Mas foi Sérgio Buarque de Holanda, o pai do Chico, quem examinou nossos paradoxos com maior densidade analítica. Em “Raízes do Brasil”, obra-prima da tradição sociológica brasileira, publicada há mais de noventa anos, escreve no capítulo “Novos Tempos”:
Vale a pena ler a longa citação: “Trouxemos de terras estranhas um sistema complexo e acabado de preceitos, sem saber até que ponto se ajustam às condições da vida brasileira e sem cogitar das mudanças que tais condições lhe imporiam. Na verdade, a ideologia impessoal do liberalismo democráticos jamais se naturalizou entre nós. Só assimilamos efetivamente esses princípios até onde coincidiram com a negação pura e simples de uma autoridade incômoda, confirmando nosso instintivo horror às hierarquias e permitindo tratar com familiaridade os governantes. A democracia no Brasil foi sempre um lamentável mal-entendido.”
Mais a diante, no capítulo seguinte e conclusivo ― Nossa Revolução ― ratifica o autor: “É frequente imaginarmos prezar os princípios democráticos e liberais quando, em realidade, lutamos por um personalismo ou contra outro. O inextricável mecanismo político e eleitoral ocupa-se continuamente em velar-nos esse fato.”
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