A VIDA DE BENTO
Acadêmico: Gabriel Chalita*
A ciência não resolve a dor da partida. O amor, sim. Com ele, escrevemos a palavra 'saudade' com as tintas do que aprendemos sobre a gratidão.
A vida de Bento
O sol estava preguiçoso na manhã daquela segunda-feira em que recebi o telefonema com a notícia da morte de Bento.
Pronto. Já deixei claro que esse é um dizer sobre a morte. E sobre a vida.
Na semana que antecedeu ao fim, eu estava com ele. Uma música tocava, enquanto apreciávamos um chá de hortelã colhido ali mesmo onde colhemos tantos afetos. Bento gostava dos plantios. Na terra e nas pessoas. Há uma roseira e outras plantas. E há uma horta, também. E há o cuidado que faz com que a vida, onde se olhe em sua casa, seja vida.
O dia estava frio e ele, entre um aquecer e outro do chá de hortelã, foi separando peças de roupas, toalhas, lençóis, cobertores para amenizar o frio de irmãos seus, de irmãos nossos.
Bento conhece por nome quem mora nas ruas onde ele mora. Já conseguiu abrir as portas de outras vidas para alguns. Para outros, ainda não, diz ele. É mais complexo do que parece.
Bento ajuda algumas entidades. Faz isso, há muito, sem alardes. Faz porque acredita que tem que fazer. Que tem que aliviar as dores do mundo.
Fico pensando no seu sorriso ouvindo a música, bebericando o chá, separando as roupas e contando histórias. Fico pensando que nem ele nem eu nem ninguém sabíamos que era, aquela semana, a última semana do seu sorriso. Do seu sorriso como sabemos. O resto é mistério. O tempo de ficarmos é um tempo cuja decisão não é nossa. O futuro que temos, também não sabemos.









