A propaganda aceita tudo
Alex Pipkin, PhD em Administração
Sempre que assisto à propaganda oficial, tenho a impressão de atravessar o guarda-roupa de Nárnia. Durante alguns minutos, entro num mundo onde as leis da economia foram suspensas, as consequências foram revogadas por decreto e a prosperidade obedece disciplinadamente aos roteiristas da publicidade. O problema é que, terminado o comercial, o telespectador volta ao Brasil. A realidade também.
A propaganda oficial vive de promessas, enquanto a realidade cobra resultados. Não precisa provar; basta emocionar.
É por isso que governos populistas jamais resistem ao seu encanto.
Há uma ironia difícil de ignorar nesse modelo; com o dinheiro dos próprios impostos, o cidadão financia a publicidade destinada a convencê-lo de que sua vida melhorou. É o paciente pagando pelo próprio efeito placebo. Apenas no primeiro semestre deste ano, o governo autorizou cerca de R$ 520 milhões para publicidade institucional. Vejam, isso é mais que o dobro do valor empenhado no mesmo período do último ano eleitoral do governo anterior, segundo levantamento divulgado pela imprensa. O dado não deixa dúvidas: a ficção oficial tornou-se um artigo de luxo caro demais para o pagador de impostos.
O maior “talento” da propaganda estatal é condensar problemas complexos em frases de efeito. No universo dos palanques, as restrições desaparecem, os custos perdem importância e as consequências parecem sempre adiadas. Quando a realidade insiste em contrariar o roteiro, aumenta-se o volume do microfone e lança-se uma nova campanha.
A propaganda aceita qualquer roteiro.
A realidade continua trabalhando com consequências.
A economia, contudo, não se impressiona com discursos. Ignora pesquisas e campanhas; responde apenas a incentivos, produtividade, investimento e confiança. É ilusório imaginar que a escassez possa ser vencida pela retórica.
O Brasil parece dedicar cada vez mais energia a discutir a repartição da riqueza e cada vez menos a refletir sobre sua criação. É como discutir a decoração do bolo de aniversário antes mesmo de saber se há farinha na despensa.
Prestar contas é obrigação; fazer propaganda de si mesmo é vaidade.
A comunicação pública deve existir para expor fatos e serviços, não para cultivar percepções artificiais de sucesso. Quando a informação cede lugar ao marketing político, o debate público empobrece, e a transparência deixa de servir ao cidadão para blindar o governante.
A publicidade oficial, por isso, deveria ser tratada com extrema parcimônia.
Governos existem para administrar a realidade do país, não para administrar a realidade percebida.













