O CORAÇÃO DE EULÁLIA
Acadêmico: Gabriel Chalita
Os acúmulos de sentimentos menores diminuem a vida. E entorpecem o movimento dos dias. Se olharmos para trás querendo vingança, o dia não segue para frente.
O coração de Eulália
Não poucas vezes, ela dizia, "É com o coração, não com o fígado, que se decide".
Eu ficava escarafunchando e pensava comigo mesmo que precisamos dos dois. Não era médico nem era das biologias. Mas sentia que cada órgão tinha sua finalidade.
Ela era mais velha do que eu. Era professora de piano. Era linda. E falava como se depositasse as palavras no mundo com delicadeza difícil de descrever. Um dia fui dizer à minha mãe que não havia mulher como Eulália. Minha mãe achou graça e, na feira, contou. Enquanto as duas escolhiam batatas, minha mãe disse do filho e da paixão quase infantil.
Passei tempos evitando um encontro. Quando a encontrei, ela tratou de sorrir com ternura, como se eu fosse um menino desprovido de qualquer atributo que representasse qualquer possibilidade. Atingiu meu fígado. Tive raiva. E raiva da minha mãe, tão desastrada nos assuntos do coração. Não nos dela que era apaixonada pelo meu pai e que tinha dele os mais lindos sentimentos. Nos meus. Nos meus assuntos do coração.
Algumas pessoas da cidade diziam que Eulália já havia passado do tempo de casar. Eu discordava. O tempo, decidimos nós. Eu era atrevido na época com alguns assuntos. Eulália acordava o meu coração. Ainda sinto o cheiro do seu perfume nas memórias do amanhecer da minha vida.










