Savonarola, Robespierre e similares
José Luiz Alquéres*
27/04/2026
Em 1498, o monge agostiniano Girolamo Savonarola morreu na fogueira — o mesmo destino ao qual ele próprio havia condenado centenas de pessoas, sob acusações de ordem moral e religiosa.
Foi nesse período que a Inquisição, já existente havia dois séculos, ganhou novo ímpeto e passou a se imbricar diretamente com a governança política de Florença. A cidade, que havia expulsado os Médici — sua tradicional dinastia dominante — buscava uma experiência republicana. A tentativa, contudo, foi rapidamente capturada por correntes moralistas de viés radical, que converteram o ideal político em instrumento de perseguição.
Cerca de três séculos depois, na França, poucos anos após a Revolução Francesa, emergiu como figura hegemônica o revolucionário Maximilien Robespierre. Em nome da democracia, dos direitos humanos e da virtude, fez dessas bandeiras um instrumento de eliminação sistemática de todos aqueles que considerava seus inimigos.
O regime que nascera sob os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade degenerou rapidamente em um sistema de terror. Estima-se que cerca de dezoito mil pessoas tenham sido guilhotinadas em Paris, enquanto número semelhante pereceu no restante do país — todas sob a acusação de oposição a princípios que, em si, eram nobres.
À semelhança de Savonarola, que sucumbiu ao próprio método, Robespierre também terminou na guilhotina. Sua morte marcou o fim da chamada Era do Terror, mas deixou uma marca duradoura: a associação, jamais inteiramente dissipada, entre processos revolucionários e o recurso sistemático à violência extrema como instrumento de transformação política.
No século XX, esse padrão não desapareceu. Fidel Castro, em Cuba, reintroduziu o paredão nos anos 1960, enquanto a Revolução Russa, já em 1917, adotara métodos igualmente severos contra aqueles rotulados como “inimigos do povo”. Aqui na América Latina os Sandinistas, na Nicarágua; Pinochet, no Chile; e os generais na Argentina, mutatis mutandi, praticaram as mesmas barbaridades.







