Lógica ilógica
Alex Pipkin, PhD em Administração
O futebol não é apenas o esporte nacional. É a metáfora mais fiel do pensamento mágico brasileiro.
Durante noventa minutos, suspendemos a realidade. Esquecemos a produtividade medíocre, os impostos sufocantes, a insegurança jurídica, a pobreza persistente e a lenta erosão das instituições.
Por alguns instantes, acreditamos que a vontade derrota os fatos, que o talento torna os fundamentos desnecessários, que o improviso supera o planejamento e que a esperança substitui a responsabilidade.
A bola nos oferece uma trégua emocional. Talvez seja exatamente por isso que o futebol nos fascine tanto.
Durante noventa minutos, podemos acreditar que o desejo vale mais do que a realidade. O problema começa quando levamos essa fantasia para fora do estádio.
A eliminação do Brasil não foi uma novidade trágica. Foi apenas mais um encontro entre a fantasia e a realidade.
O mais curioso é que nada disso é um mistério. Há décadas sabemos o que produz grandes seleções, empresas competitivas e países prósperos: planejamento, disciplina, liderança, responsabilidade, mérito e trabalho consistente. A receita nunca esteve escondida. O Brasil apenas continua à procura da fórmula que dispense os fundamentos.
O pensamento mágico não consiste em acreditar no impossível. Consiste em acreditar que os resultados sobreviverão ao desprezo pelas suas causas.
É exatamente essa lógica que atravessa o país. Queremos prosperidade sem produtividade, crescimento com impostos sufocantes, equilíbrio fiscal sem disciplina, liberdade sem instituições sólidas e desenvolvimento sem os fundamentos que o tornam possível.
No futebol, apostamos no talento. Na economia, na improvisação. Na política, nas narrativas. Em todos os casos, adiamos o indispensável e celebramos o improviso.
Em bom português, fazemos tudo errado esperando que tudo dê certo.
O problema do Brasil nunca foi a falta de esperança. Foi a convicção infantil de que a esperança pode substituir os fundamentos.
Amanhã termina o campeonato que mobiliza as emoções. Recomeça o campeonato que decide o destino de um país.
Nesse campeonato, não existem milagres. Existem causas, consequências e uma verdade que insistimos em adiar.
O Brasil não fracassa por desconhecer a receita. Fracassa porque continua procurando um milagre onde sempre existiu apenas trabalho.
A realidade pode ser ignorada por algum tempo. Jamais pode ser derrotada.








