quinta-feira, 28 de maio de 2026

A soberania dos sem-cérebro - Roberto Kenard, jornalista, escritor e poeta


A soberania dos sem-cérebro

Roberto Kenard, jornalista, escritor e poeta

Temos hoje a classe média mais estúpida já havida no país. Treinada nas escolas e universidades para não pensar, se põe a dar opinião da feira nas redes sociais.

É o caso que envolve a soberania. Acabo de ver no YouTube um desses idiotas a dizer que Lula impõe nossa soberania e fala de igual para igual com líderes de outros países.

Seria risível, não fosse trágico. O idiota acredita que soberania se impõe com a garganta. Fosse assim, os mais preparados para a presidência de um país seriam os tenores de ópera.

A soberania depende, no plano básico, de dois fatores, nessa ordem: poder bélico e desenvolvimento.

Não há uma potência mundial sem armas nucleares. Absolutamente nenhuma. O Brasil conta com tanques de guerra que soltam fumaça nos desfiles militares. Verdadeiro exército de Brancaleone.

O segundo ponto. Sem alto desenvolvimento tecnológico, o país é frágil. Ele vive a reboque dos países plenamente desenvolvidos.

Por fim, há um terceiro ponto: a soberania é também uma questão interna. O Estado precisa ter o controle de seu território. O Brasil não tem. Não tem controle de suas fronteiras e inúmeras cidades foram dominadas pelo narcotráfico (no Ceará, depois que o PT assumiu o governo, há inclusive cidades em que a população inteira abandonou suas casas, expulsa pelas facções criminosas).

Portanto, dizer que Lula impõe nossa soberania é coisa de quem tem dois neurônios, cada um armado de faca, numa briga fratricida. Imagina a confusão que isso causa na cabeça dessa gente.


ANIMAÇÃO DA VIDA - Poeta e escritor Carlos Alberto Lima Coelho

 

ANIMAÇÃO DA VIDA



Carlos Alberto Lima Coelho

São Luis Maranhão Brasil

*****

“No despertar de cada manhã, começa — ou talvez termine — a animação silenciosa dentro do meu corpo físico, envolvido pelas energias fluídicas que constroem o meu eu.

Sou matéria que respira o invisível, consciência que atravessa o tempo vestida de carne, pensamento e sentimento.

Há em mim uma corrente sutil que não se vê, mas sustenta os sonhos, move os passos e acende a chama da existência.

Cada emoção molda essa atmosfera íntima; cada lembrança deixa marcas invisíveis na arquitetura da alma.

Desperto, então, não apenas para um novo dia, mas para a continuidade de uma viagem espiritual onde o corpo é estrada e o espírito é viajante.

E entre o nascer do sol e o silêncio da noite, vou construindo meu eu — fragmento por fragmento — nas delicadas teias das energias que me cercam e me transformam.”

Poeta e escritor


OLEIRO & DEUS (DIA DO OLEIRO) , Por Antonio Guimarães de Oliveira, escritor e poeta

 

OLEIRO & DEUS

(DIA DO OLEIRO)


Antonio Guimarães de Oliveira, escritor e poeta

Eu sou o barro, mole e flexível,

Nas mãos do Oleiro, sou moldado com cuidado...

Ele me dá forma, me faz crescer,

e me transforma em algo novo, belo e precioso...

Com Seu sopro, eu sinto vida,

E Seu fogo, me purifica e me transforma...

Eu sou um vaso, frágil e delicado,

mas nas mãos do Oleiro, sou forte e resistente...

Eu sou uma obra de arte, criada por Deus!

Um vaso para seu amor e perdão;

instrumento para seu serviço!

Com Seu auxílio, posso ser um oleiro com o ofício de perdoar...

(ANTONIO GUIMARÃES DE OLIVEIRA. DATA: 28.5.2026. SÃO LUÍS-MA)

 

O livro de Josué 8 - Ai é destruída


O livro de Josué 8 - Ai é destruída

 Ai é destruída

1 Disse o Senhor a Josué: Não temas, não te atemorizes; toma contigo toda a gente de guerra, e dispõe-te, e sobe a Ai; olha que entreguei nas tuas mãos o rei de Ai, e o seu povo, e a sua cidade, e a sua terra.

2 Farás a Ai e a seu rei como fizeste a Jericó e a seu rei; somente que para vós outros saqueareis os seus despojos e o seu gado; põe emboscadas à cidade, por detrás dela.

3 Então, Josué se levantou, e toda a gente de guerra, para subir contra Ai; escolheu Josué trinta mil homens valentes e os enviou de noite.

4 Deu-lhes ordem, dizendo: Eis que vos poreis de emboscada contra a cidade, por detrás dela; não vos distancieis muito da cidade; e todos estareis alertas

5 Porém eu e todo o povo que está comigo nos aproximaremos da cidade; e será que, quando saírem, como dantes, contra nós, fugiremos diante deles.

6 Deixemo-los, pois, sair atrás de nós, até que os tiremos da cidade; porque dirão: Fogem diante de nós como dantes. Assim, fugiremos diante deles.

7 Então, saireis vós da emboscada e tomareis a cidade; porque o Senhor, vosso Deus, vo-la entregará nas vossas mãos.

8 Havendo vós tomado a cidade, pôr-lhe-eis fogo; segundo a palavra do Senhor, fareis; eis que vo-lo ordenei.

9 Assim, Josué os enviou, e eles se foram à emboscada; e ficaram entre Betel e Ai, ao ocidente de Ai; porém Josué passou aquela noite no meio do povo.

10 Levantou-se Josué de madrugada, passou revista ao povo, e subiram ele e os anciãos de Israel, diante do povo, contra Ai.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

PENSANDO, IMAGINANDO... Por Carlos Alberto Lima Coelho, jornalista, radialista, escritor e poeta

PENSANDO, IMAGINANDO...


Carlos Alberto Lima Coelho

São Luis - Maranhão - Brasil

*****




“Além do imaginário” é mais do que criar imagens na mente — é dar forma aos sonhos, às memórias, aos símbolos e às esperanças que alimentam a alma humana.
O imaginário nasce quando a realidade encontra a sensibilidade.
Uma estrada iluminada pelo sol pode virar metáfora de destino.
Uma lembrança simples ganha dimensão de poesia.
Construir o imaginário é transformar experiências em significado.
É quando o coração interpreta o mundo além do que os olhos enxergam.
Na filosofia, o imaginário funciona como ponte:
entre o visível e o invisível;
entre o passado e o sonho;
entre aquilo que somos e aquilo que desejamos ser.
Na arte e na vida, cada pessoa constrói o próprio universo simbólico:
com afetos,
com perdas,
com encontros,
com fé,
com silêncios,
e com esperança.
Talvez por isso existam histórias que nunca envelhecem:
porque elas continuam morando dentro da imaginação humana.
E no fundo, viver também é isso:
seguir construindo paisagens interiores onde a alma consiga descansar, acreditar e florescer.
Há pensamentos que parecem nascer do silêncio da alma — e quando encontram palavras, viram poesia, filosofia e memória ao mesmo tempo.
Construir o imaginário talvez seja exatamente isso:
acender luz dentro das lembranças para que a vida continue bonita mesmo quando o tempo passa.
E algumas pessoas têm esse dom raro:
transformam sentimentos em presença,
memórias em eternidade,
e o cotidiano em algo quase sagrado.

Ainda é possível governar o Brasil? Por: Breno Rodrigo, cientista político e professor de política internacional


Ainda é possível governar o Brasil?

Por: Breno Rodrigo*

Em: 21 de maio de 2026

A democracia brasileira passa por uma das mais severas transformações em sua história recente. A “esperança equilibrista” que norteou o enorme engajamento popular ao longo da festa da redemocratização converteu-se, nos últimas anos, em pessimismo cívico generalizado.

As promessas inseridas no texto da “Constituição Cidadã” não demoveram a crise social, as desigualdades atávicas e a putrefação do modelo educacional. Na prática, as elites comprometeram-se apenas com seus privilégios ― travestidos em direitos adquiridos ― em burocracias insuladas no aparato estatal.

Na percepção dos estratos mais pobres, as elites pensam apenas em seus interesses especiais e o povo precisa se virar num tipo de capitalismo popular orientado pelo empreendedorismo, pelo esforço individual e pela livre iniciativa sem controle tributário.

Ao lado de tudo isso, a política nacional na última década acentuou três vetores de crise.

O primeiro vetor de crise é identificado com o problema da legitimidade. A Nova República nasceu sob o signo da conciliação. A transição democrática brasileira não foi resultado de ruptura revolucionária, mas de um complexo pacto de acomodação entre elites civis, setores militares e forças políticas emergentes. A estabilidade institucional tornou-se, portanto, o principal objetivo do novo regime. Vale dizer, todavia, a estabilidade não produziu necessariamente legitimidade substantiva.

Ao longo das décadas, consolidou-se no imaginário popular a percepção de que a democracia brasileira garantiu direitos formais às maiorias, mas preservou os privilégios materiais das minorias incrustadas na máquina estatal. O cidadão comum vota, participa e trabalha; contudo, percebe que o Estado continua capturado por corporações, oligarquias partidárias e grupos burocráticos relativamente impermeáveis às pressões sociais. A conclusão óbvia foi a erosão gradual da confiança pública nas ditas “instituições”.

Há tempos, os partidos perderam densidade ideológica — se é que um dia tiveram. Os sindicatos perderam capacidade de mobilização dos trabalhadores. A imprensa perdeu o monopólio da mediação narrativa para as redes sociais. As universidades perderam autoridade simbólica diante da ascensão das redes digitais e de seus ativistas. E o próprio Estado perdeu a capacidade de produzir expectativas coletivas de futuro.

Guerra no Oriente Médio: Brasil lucra, mas o povo sofre - Por Ney Lopes, jornalista e escritor, ex-deputado federal


Opinião: Guerra no Oriente Médio: Brasil lucra, mas o povo sofre

27 Mai 2026

Ney Lopes

A guerra no Oriente Médio está remodelando a geopolítica global, e o Brasil se destaca nesse novo cenário. Entre as razões para essa posição privilegiada, estão o aumento das importações de petróleo bruto brasileiro pela China e pela Índia. Além disso, as jazidas de petróleo descobertas no Pré-Sal são de qualidade "leve", altamente desejada pelas refinarias estrangeiras. No entanto, esse petróleo é exportado sem refino, gerando dependência de produtos derivados importados.

A previsão de produção nacional é de 4,11 milhões de barris por dia, com 60% das exportações da Petrobras destinadas à China. Estima-se que, se o preço do barril atingir US$ 100, a receita gerada será equivalente a quase 1% do PIB. O Brasil emergiu como o principal beneficiário desse conflito, pronto para substituir o Oriente Médio como fornecedor principal para a Ásia.

O Bolso do Cidadão

Surge a pergunta: por que os lucros não chegam ao bolso do cidadão? A resposta está no paradoxo de um país que exporta cacau e importa chocolate belga. O Brasil se comporta como um gigante na extração, mas assemelha-se a um anão na capacidade de refinar. Décadas de erros políticos e falhas na gestão energética deixaram o país dependente da importação de 25% do diesel necessário para sustentar o agronegócio nacional. Assim, quando o conflito entre Estados Unidos e Irã faz o preço do barril disparar, o custo do combustível importado também sobe, gerando inflação e atormentando o consumidor.

A receita gerada pelas exportações de petróleo bruto é absorvida pelos cofres da Petrobras, destinada ao pagamento de impostos e royalties, além de ser utilizada pelo governo para cobrir “buracos” no orçamento. O dinheiro não chega ao trabalhador, mas sim ao balanço financeiro do Estado e das grandes corporações.

O Que Fazer?

A grande dúvida é como o Brasil deveria proceder. A solução parece evidente: investir em refinarias. No entanto, uma obra desse porte levaria de 7 a 10 anos para ser concluída e mais duas ou três décadas para se pagar. Até lá, o mundo já terá mudado. Projeções indicam que, até 2035, carros elétricos, híbridos e movidos a biocombustíveis dominarão o mercado, reduzindo a demanda por combustíveis fósseis. O risco é que uma nova solução já nasça obsoleta.

A verdade é que o Brasil colhe lucros na esfera internacional devido à guerra no Oriente Médio. Para que haja uma melhoria na qualidade de vida da população, serão necessárias novas soluções energéticas que façam do país um gigante no mapa global, beneficiando também quem trabalha e consome. Do contrário, persistirá o clássico cenário de uma "faca de dois gumes".


A Bíblia... O Livro de Josué 7 - Os israelitas derrotados em Ai. Acã


A Bíblia... O Livro de Josué 7 - Os israelitas derrotados em Ai. Acã

Josué 7

Os israelitas derrotados em Ai. Acã

1Prevaricaram os filhos de Israel nas coisas condenadas; porque Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zera, da tribo de Judá, tomou das coisas condenadas. A ira do Senhor se acendeu contra os filhos de Israel.

2 Enviando, pois, Josué, de Jericó, alguns homens a Ai, que está junto a Bete-Áven, ao oriente de Betel, falou-lhes, dizendo: Subi e espiai a terra. Subiram, pois, aqueles homens e espiaram Ai. 

E voltaram a Josué e lhe disseram: Não suba todo o povo; subam uns dois ou três mil homens, a ferir Ai; não fatigueis ali todo o povo, porque são poucos os inimigos. 

4 Assim, subiram lá do povo uns três mil homens, os quais fugiram diante dos homens de Ai. 

5 Os homens de Ai feriram deles uns trinta e seis, e aos outros perseguiram desde a porta até às pedreiras, e os derrotaram na descida; e o coração do povo se derreteu e se tornou como água.

6 Então, Josué rasgou as suas vestes e se prostrou em terra sobre o rosto perante a arca do Senhor até à tarde, ele e os anciãos de Israel; e deitaram pó sobre a cabeça. 

7 Disse Josué: Ah! Senhor Deus, por que fizeste este povo passar o Jordão, para nos entregares nas mãos dos amorreus, para nos fazerem perecer? Tomara nos contentáramos com ficarmos dalém do Jordão. 

8 Ah! Senhor, que direi? Pois Israel virou as costas diante dos seus inimigos!

9 Ouvindo isto os cananeus e todos os moradores da terra, nos cercarão e desarraigarão o nosso nome da terra; e, então, que farás ao teu grande nome?

10 Então, disse o Senhor a Josué: Levanta-te! Por que estás prostrado assim sobre o rosto?

terça-feira, 26 de maio de 2026

JK? De novo? (2 de 2) Artigo de José Paulo Cavalcanti


JK? De novo? (2 de 2)

José Paulo Cavalcanti

Seguimos no exame do caso JK que, segundo Comissão nomeada pelo atual governo do Brasil, teria sido assassinado. Eleições são capazes de tudo. Começo dizendo que era domingo e JK voltava, para casa, já quase escuro. As colisões dos veículos ocorreram numa reta próxima de Resende (Rio). Primeiro, entre o Opala de JK e um Ônibus da Viação Cometa (com quem se chocaria, inicialmente), indo na direção SP/Rio; enquanto na outra pista em direção contrária, Rio/SP, vinha um caminhão SCANIA carregado com 30 toneladas de gesso. Foi ele o responsável pelas mortes de JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, numa segunda colisão.

Era plana, gramada e sem guard-rails, a área de separação entre as duas pistas. E também planos os acostamentos e as áreas adjacentes (mais de um quilômetro), em ambos os lados. Certo que, fosse mesmo um atentado, certamente o local escolhido para isso iria ser outro. Provavelmente uma curva, junto a precipício.

E, para quem planeja um atentado, último veículo do mundo que se utilizaria para provocá-lo seria um ônibus. Lento. Em velocidade menor que a do Opala. E cheio de passageiros (40), testemunhas oculares da tragédia. O acidente se deu com o Opala de JK invadindo a faixa da esquerda, por onde trafegava o ônibus (há fotos com marcas das tintas, provando essa batida). Talvez um cochilo do motorista. No chão ficaram as marcas dos pneus, prova inequívoca do desvio que teve o veículo da sua rota normal. Basta ver as fotos.

Dito Opala, dirigido pelo motorista Geraldo Ribeiro, se desgovernou após esse primeiro abalroamento. Ultrapassou o canteiro central e avançou pela pista contrária. Dali, em situação normal, seguiria em frente, em uma área plana e de mato baixo.

Mas o que ocorreu?, eis a questão. Provavelmente deu-se que seu motorista, passado o breve instante de torpor com o abalroamento no ônibus, terá reagido virando à direita. Para impedir que o veículo entrasse naquele mato. Com risco de furar um pneu. E no desejo de retomar sua viagem, normalmente. Passaria à esquerda do caminhão pelo acostamento, assim pensou, e voltaria depois à sua pista. Era o que desejava. Só que por azar, muito azar, chocaram-se, a parte frontal direita de seu Opala, com a parte frontal direita da carreta Scania, que vinha em sentido contrário. Por pouco, muito pouco, não conseguiu. É pena.

Já envenenamentos não produzem efeitos repentinamente. Caso ocorresse, o motorista começaria a passar mal e teria parado. Já a versão de um tiro de precisão, na cabeça do motorista de JK não se sustenta.

Primeiro, porque o crânio de Geraldo Ribeiro, se vê nas fotos da época (apresentadas no Laudo), não tinha qualquer lesão. Segundo porque, caso tivesse o motorista sido atingido por uma bala no crânio, e jamais poderia ter depois alterado conscientemente a trajetória do veículo em que estava. Como fez. Quem tiver maior interesse no caso basta acessar, pela internet, o site da CNV, com a íntegra do Laudo e seus anexos.

A história tem suas tramas. Seus designíos. E seus mistérios. Claro que o Regime Militar ficaria feliz em ver morto JK. Um risco a menos. Mas é como se o destino, esse "Deus sem nome" como queria Fernando Pessoa (carta a Henry More), tivesse agido antes. E, no fim, tudo se resumiu a só um acidente automobilístico. Às vésperas ou não de eleições, essa é a verdade. P.S. Minha seleção seria o time inteiro do Náutico (ver o último 6 x 2). Acostumado a ser HEXA.

Jornal do Commercio de Pernambuco, 22/05/2026


Nós contra eles - Artigo de Merval Pereira, jornalista e escritor


Nós contra eles

Merval Pereira

Pelas informações que circulam no meio político, o presidente Lula pretende imprimir num eventual quarto mandato uma radicalização à esquerda que não esteve presente em nenhum dos anteriores. Já havia a suspeita de que ele pudesse querer deixar essa marca durante seu governo, embora, na campanha, pudesse vender a imagem de moderado para atrair um eleitor não petista que não pretenda votar em Flávio Bolsonaro. Como sempre se soube, na política uma coisa é o que se diz na campanha, outra é o que se faz durante o governo. Mas os relatos dão conta de que Lula está animado com a queda de Flávio nas pesquisas e pretende acelerar a tática do “nós contra eles”, se apoiando mesmo nas medidas já tomadas de isenção do Imposto de Renda para os que ganham até R$ 5 mil e nos ataques aos “banqueiros e milionários” que diz se aproveitarem da desigualdade social do país para enriquecer mais ainda.

O envolvimento de Flávio com o ex-banqueiro trambiqueiro Daniel Vorcaro, colocando o escândalo do Banco Master no colo do bolsonarismo, seria outra oportunidade para explorar a pretensa perversidade dos ricos contra os pobres, confirmada pelo desvio de verbas da Previdência para investimentos inseguros de vários estados, como o Rio de Janeiro. No pacote, pode até mesmo voltar o imposto sobre grandes fortunas, que já causou problemas em diversos países da Europa e em estados dos Estados Unidos.

Fazendo isso, o candidato Lula contradiz sua própria experiência, pois sempre que foi para o centro político ganhou a eleição. Se radicalizar, dará razão aos que temem justamente esse estado de coisas, acusando-o de ser um esquerdista perigoso. Flávio ficaria reforçado em sua posição antagônica e provavelmente ganharia novamente apoio do mercado financeiro e dos eleitores de centro-direita que se decepcionaram com sua aproximação de Vorcaro.

A mais recente pesquisa de intenção de voto para a Presidência da República — BTG/Nexus — mostra o mesmo resultado do Datafolha, com queda de Flávio depois da divulgação dos áudios com Vorcaro. Na verdade, o resultado ainda mostra empate técnico, na margem de erro, com vantagem numérica ampliada de Lula. Foi um estrago pequeno para Flávio, mas outros fatos podem aparecer neste mesmo episódio, porque ainda há muita coisa mal explicada. Se for descoberto que parte do dinheiro do filme sobre Jair Bolsonaro foi desviado para sustentar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, ou se Mário Frias teve algum tipo de remuneração além do devido, se ficar provado que o dinheiro não era apenas para o filme, aumenta a crise para Flávio.

Há ainda as delações premiadas, em que pode aparecer muita coisa, inclusive sobre Lula. Teremos de esperar. Nenhum candidato da direita se mostrou viável até agora para substituir Flávio e, se não surgir nada definitivo contra ele, será o candidato desse campo no segundo turno. Muitos que agora se desiludiram e não votam em Lula acabarão votando nele mesmo. Apenas algo muito grande e escandaloso que retire Flávio da disputa pode mudar o quadro.

Do jeito que vai, Lula e os Bolsonaros têm apoio cego dos eleitores. Nada os abala. Lembremos que Lula ganhou uma eleição no auge do mensalão. Se bem que pediu desculpas, disse que foi traído, mas era uma crise imensa, e ele conseguiu superar. Não será surpresa, porém, se Bolsonaro conseguir superar esta crise. Os dois são líderes populistas, carismáticos, que têm apoio firme de grande parte do eleitorado próprio. A disputa prosseguirá até o fim da campanha. Não acredito que Bolsonaro troque um filho por Michelle. Ele prefere perder com Flávio a ganhar com qualquer outro. Qualquer um que não fosse de sangue passaria a ser o líder da direita, e ele perderia a importância

O Globo, 26/05/202


Busca