Aporofobia ou horror aos pobresJosé Luiz Alquéres*
17/08/2026
Entre os temas que vêm ganhando espaço na filosofia moral está a Aporofobia, palavra que significa aversão ou rejeição aos pobres. O conceito tem implicações profundas na realidade das grandes cidades brasileiras, sobretudo quando analisado à luz do processo de urbanização ocorrido nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial.
Antigas cidades, muitas nascidas ainda no período colonial, sofreram ocupação rápida e desordenada, decorrente da enorme migração do campo para os centros urbanos. O Brasil possui hoje índice de urbanização próximo de 90%. A China, em comparação, só ultrapassou a marca de 50% no início da década passada e hoje está em torno de dois terços. A urbanização brasileira criou, ao longo dos últimos 70 anos, enormes áreas ocupadas por populações de baixa renda, muitas vezes em locais sujeitos a alagamentos e deslizamentos.
Essas condições precárias vêm sendo reproduzidas por gerações, pois as políticas públicas não conseguiram enfrentar adequadamente o desafio de proporcionar vida digna a um contingente expressivo da população. Segundo o Censo de 2022, 20% da população da cidade do Rio de Janeiro viviam em favelas e comunidades urbanas, categoria específica do IBGE que não abrange, naturalmente, todas as formas de precariedade habitacional existentes no país.
Mais grave é o caráter geracional do fenômeno. Quando sucessivas gerações nascem e crescem submetidas às mesmas condições, aquilo que deveria ser intolerável — o precário, o informal, o degradante — acaba se tornando usual e até percebido por muitos como realidade inescapável das regras do jogo social que separam os segmentos de maior e menor renda. É a banalização do inominável.
A visão de seres humanos vivendo em condições tão degradantes comove aqueles que possuem um mínimo de compaixão e solidariedade. Para outros, porém, produz aversão e estimula explicações superficiais para um fenômeno complexo. Surgem argumentos que atribuem a pobreza a uma suposta preguiça dos pobres, a uma predisposição à criminalidade ou à vadiagem, ou à pretensa recusa a estudar, trabalhar e buscar melhores condições de vida.
Essas interpretações preconceituosas ignoram um fato fundamental: nessas áreas, os serviços públicos básicos jamais estiveram disponíveis em escala adequada. As escolas foram historicamente precárias, os postos de saúde insuficientes e as condições sanitárias deficientes produziram índices elevados de mortalidade infantil, com consequências sobre a expectativa de vida. Dentro de uma mesma cidade como o Rio de Janeiro, comparações entre áreas como o Complexo do Alemão, a Maré e a Rocinha e bairros de maior renda evidenciam profundas desigualdades nas condições de vida.