quarta-feira, 17 de abril de 2013

David Nasser e Tenório Cavalcanti






Tenório Cavalcanti







Eu deveria sair agora pela manhã para receber a tal vacina. Fiquei no apartamento, porém!... Desejava ler...  Abri páginas..., nada me atraía... Lembrei da lurdinha de Tenório! Os mais antigos sabem do que estou falando...Mergulhei na carta que Tenório escreveu a David Nasser, em outubro de 1960... Faz tempo, né!... Era tempo de disputa eleitoral... O fogo político tanto fervia como esquentava e ardia... Falava-se ainda, naquela época, no uso da pistola; Tenório tenha a lurdinha!..., uma metralhadora... Não largava dela... Não vou contar a história... Vou apenas ler a carta, grande parte em silêncio...

"Meu caro David Nasser: 

Não sou feliz. Ferem-me acusações de inimigos, atribula-me a incompreensão de amigos. Dói-me menos o agressivo acicate daqueles do que a dúbia e meia solidariedade dêstes.

Seu artigo na Revista O Cruzeiro, meu caro David, constrangeu-me. Confessando-se meu amigo, você fêz sua a acusação de meus inimigos: chamou-me de pistoleiro.

Nenhuma outra acusação me é feita, a não ser essa que visa ridicularizar minha coragem de defender-me.

Você diz que não tem mêdo de mim. Eu, em resposta, asseguro-lhe: tenho mêdo de você, tenho mêdo de qualquer homem, até o dia em que você ou qualquer um outro saca de uma arma para abater-me, aniquilar-me."

XXXXXX....
 
Paro a leitura e reflito sobre o início da carta...Mudo de posição e continuo lendo, agora em silêncio... Sinto um Tenório Cavalcanti angustiado, revoltado e desafiador - no entanto... Chego aos finalmente, depois de ler o longo texto... E o Tenório encerra sua carta, assim:
 
"Um menino que injuria, você David, fustiga-me e me provoca, como se eu gostasse de rinha. Diz que não tem mêdo de mim, e eu me rio e passo, gozando a injúria da criança e gostando da sua coragem, porque o corajoso não me atemoriza e, sim, o que tem mêdo. O homem que mais me apavorou não foi o que me descarregou o revólver Colt de frente, e a quem abati em luta limpa. Mas um covarde que fêz, da tocaia, a cama. O corajoso disputou a vida como homem. O covarde armou-me 14 emboscadas. O primeiro foi esquecido. Teve enterro, mas não teve um pedestal na opinião dos que me acusam; o segundo, foi imortalizado como vitima.
Eu, porém, David, penso de modo diferente: matei o corajoso para não morrer, mas o covarde precisou ir para honrar a dignidade das calças que o homem veste.
Sei que você é corajoso, e, comigo, o homem corajoso vive em paz, até o dia em que me respeite a família e não tente contra a minha vida, contra a vida dos meus amigos e do meu povo. Você não me apavora. Estimo-o, mesmo quando você me acusa. Você é um membro dessa família árabe, que nós, brasileiros, temos no coração."

XXXXXXX...
 
Terminei a leitura... Guardo a carta e escrevo sobre Tenório, pequenas linhas - apenas...
 
Tenório Cavalcante era deputado federal e foi o fundador do jornal "A Luta Democrática". Foi candidato ao governo do então Estado da Guanabara, em 1960, perdendo para Carlos Lacerda, que era apoiado pelo jornalista David Nasser...  Lurdinha era a metralhadora usada por Tenório Cavalcanti, arma que ele usava até no plenário da Câmara.
Tenório Cavalcanti era conhecido como o homem da Capa Preta e portava por baixo do seu manto  uma metralhadora INA, com um pente carregado, a qual deu o nome carinhoso de Lurdinha. 
 
 

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