Sebastião Nery
RIO – Uma tarde, no Império, enquanto passeava a cavalo,
o Imperador Dom Pedro II caiu do cavalo. O Rio se encheu de boatos. O Imperador
estava mal, seria internado e, quem sabe, talvez tivesse que ir tratar-se em
Lisboa ou Paris. Ainda não havia Incor, Sírio-Libanês, etc.
Os boatos continuaram. O Imperador apareceu na sacada do
Paço Imperial apoiado em duas “muletas”. O jornal “Aurora Fluminense”, dirigido
por Evaristo da Veiga, nosso bravo patrono, nome da rua onde está hoje o
Sindicato dos Jornalistas do Rio, publicou que “o Imperador apareceu na sacada
do Paço apoiado em duas “maletas”. No dia seguinte, o “Aurora” consertou:
– “Ontem, por lamentável equívoco, nosso jornal publicou
que o Imperador apareceu na sacada do Paço Imperial apoiado em duas “maletas”.
Na verdade, o Imperador estava apoiado em duas mulatas”.
A emenda ficou pior do que o soneto.
Quando presidente da República, Sarney veio ao Rio e foi
xingado por um grupo de brizolistas que quebrou as janelas de um ônibus da
Presidência onde ele estava. Na TV Manchete, a jornalista Jacyra Lucas se
atrapalhou e disse que ele foi “hospitalizado” em vez de “hostilizado”.
Com Sarney não foi nem “muleta”, nem “maleta”, nem
“mulata”. Foi mesmo a “maleita” do Poder.
Negro, alto, elegante, Leopold Senghor (1906-2001) foi o
grande herói do Senegal, desde quando colônia francesa. Poeta, teórico da
“negritude” e da poesia africana, formado na Sorbonne, professor em Dacar,
deputado na Assembleia Nacional da França, em 58 ajudou a fundar o PUA (Partido
da Unidade Africana).
Liderou a independência do Senegal, prendeu o ditador
Mamadou Dia e em 1960 foi o primeiro presidente eleito de seu pais.
Em 1965, Senghor esteve no Brasil como presidente. Ademar
de Barros era governador de São Paulo. O programa elaborado pelo Itamaraty
previa uma visita ao Estado. Senghor, conhecido por sua cultura, falava
diversas línguas, inclusive o português, ficou bem à vontade no Brasil.
Quando o chefe do cerimonial do Palácio dos Bandeirantes
anunciou a presença do visitante, Ademar gritou lá de dentro:
– Manda o crioulo entrar.
Senghor ouviu, mas fingiu que ignorava o português e
cumprimentou Ademar em francês. Ademar, que também falava várias línguas,
continuou com suas irreverências, conversando em francês com o presidente e
entremeando a conversa com frases em português:
– Estou maluco para ver as canelas desse crioulo. Se
forem finas e de calcanhar alto, ele é bom de enxada, conforme dizia meu avô na
fazenda.
Ademar levou-o a visitar a cidade, a Assembleia, o
Ibirapuera, os cartões de visita. No dia seguinte, foi até o aeroporto de
Congonhas, de onde Senghor seguiu para Brasília. Depois, Ademar disse aos
jornalistas:
– Vejam só. Não sei o que esse pretinho veio fazer aqui.
Comprar o quê? Assinar o quê? Nem sei onde fica o Senegal.
Senghor vingou-se. Contou tudo no livro que escreveu
sobre o Brasil.

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