Das Diretas ao Fora Bolsonaro
Haroldo Saboia*
Tudo indica haver alguma similitude entre a campanha das
Diretas, de ontem, e o Fora Bolsonaro, de hoje. Ontem, tratava-se de pôr fim a
duas décadas de um regime que implantou um verdadeiro terrorismo de Estado em
nosso país. Hoje, trata-se de defender o Estado de Direito Democrático e
impedir que o Brasil resvale para uma abjeta ditadura, militar-miliciana, sob a
liderança protofascista de Jair Bolsonaro. Como dizia Dr. Ulysses, “a única
coisa que mete medo em político é povo na rua”
Haroldo Saboia
A convenção nacional do PMDB, no domingo 4 de dezembro de
1983, impôs severa derrota aos autênticos, aos progressistas e ao próprio
Ulysses Guimarães ao eleger, com apoio do então governador de Minas, Tancredo
Neves, o senador biônico paranaense Afonso Camargo para o importante cargo de
Secretário Geral.
Estava em jogo, então, a definição do PMDB, maior partido
de oposição no Congresso, quanto à transição política em curso: aprovar as
Diretas Já previstas pela Emenda Dante de Oliveira, participar do Colégio
Eleitoral para “eleger” o sucessor do general Figueiredo ou, uma terceira
hipótese, admitir um mandato-tampão em consenso com o Planalto.
Em 25 de janeiro de 1984, quando os próprios organizadores
esperavam 100 mil pessoas, São Paulo – no dia dos seus 430 anos de fundação –
surpreendeu: mais de 300 mil pessoas lotaram a Praça da Sé. Ulysses Guimarães,
Franco Montoro, Leonel Brizola, José Richa, Mario Covas, Lula e centenas de
artistas e lideranças sindicais estavam lá. Estava formada uma grande frente
popular pelas Diretas Já! Da disputa institucional, a campanha ganhou as ruas
fortalecida pela adesão dos movimentos sociais, sindicais e populares!
Deputado estadual, participei dessa Convenção como Delegado
do PMDB do Maranhão. Assisti ao plenário em ebulição, aplausos aos autênticos e
vaias, muitas e ruidosas vaias, aos conservadores.
A própria presença de Tancredo Neves foi objeto de apupos,
e seus partidários – mesmo os antigos autênticos como o pernambucano Fernando
Lira – praticamente impedidos de falar pelos militantes de esquerda (do PCdoB e
de outras organizações) ainda abrigados no velho PMDB.
O clima ao final era desolador. O deputado baiano, Chico
Pinto, afastado da Secretaria Geral, e Ulysses Guimarães, mantido na
Presidência de uma Executiva e de um Diretório majoritariamente conservador.
No dia seguinte, segunda feira, ao final da manhã, fui à
Presidência do PMDB encontrar com o antigo deputado maranhense Cid Carvalho,
que fora colega de Câmara do Dr. Ulysses na década de 1950, cassado em 1968 com
o AI-5, e de volta com a Anistia.
Pouca gente na Casa. Não havia sessões às segundas pela
manhã. Movimento menor ainda no Gabinete do derrotado da véspera, o bravo
anticandidato de 1974! Em seu gabinete, um único deputado àquela hora. Logo ao
chegar, mal o cumprimentei, Dr. Ulysses se dirigiu ao Cid e disse:
– Convide o Saboia para almoçar conosco. Vamos ao Anexo IV.
Não apenas “navegar era preciso” – como tanto gostava de
repetir – era preciso também dar uma demonstração de altivez, de força, mostrar
que a derrota não o abatera.
Acompanhei, então, os dois deputados pessedistas dos anos
1950, que atravessaram os longos corredores do Salão Verde e do Anexo II até o
restaurante do Anexo IV. No trajeto poucos parlamentares e jornalistas, e
muitos funcionários surpresos com aquela presença tão inusitada.
Para as ruas!
À mesa, o até então taciturno Ulysses Guimarães se
transformou:
– É Dr. Cid, temos que ir para as ruas! Teremos diretas só
se ganharmos as ruas!
Era quase unanimidade entre os analistas políticos naquele momento
de transição que, vitoriosa a Emenda Dante de Oliveira e restabelecidas as
eleições diretas para Presidente da República, o nome escolhido seria o do Dr.
Ulysses. Mantido o Colégio Eleitoral, emergiria com força o nome de Tancredo
Neves, com bem mais trânsito juntos às lideranças do PDS que sucedeu a Arena,
partido do “sim, senhor” dos anos de chumbo da ditadura.
A campanha pelas Diretas Já tomou conta do país, mas não
arrefeceu a disputa pela hegemonia do processo de transição em curso. No mesmo
palanque, às vezes até mesmo com discursos mais inflamados, defensores da ida
ao Colégio Eleitoral e da conversão conservadora do regime disputavam espaço
com os setores mais combativos, as forças de esquerda que lideravam a oposição
popular à ditadura militar
Levar a luta pelas Diretas Já dos debates institucionais
para os movimentos populares e sociais, do Congresso para as praças públicas,
eis o grande desafio que se colocava ao Dr. Ulysses. E ele bem o sabia.
Praticamente um mês depois, em 12 de janeiro de 1984, o
primeiro grande comício das Diretas, em Curitiba, reunia mais de 50 mil
pessoas. Fora convocado pelo governador José Richa instado pelo Dr. Ulysses. No
27 de novembro anterior, um comício convocado pelo PT (os outros partidos foram
convidados apenas dois dias antes e suas principais lideranças mandaram apenas
representantes) e por setores da Igreja Católica mal reuniu 15 mil pessoas no
Pacaembu.
A Frente pelas diretas
Em 25 de janeiro, quando os próprios organizadores
esperavam 100 mil pessoas, São Paulo – no dia dos seus 430 anos de fundação –
surpreendeu: mais de 300 mil pessoas lotaram a Praça da Sé! (Saí do meu
Maranhão para assistir de corpo presente esse momento de nossa História).
Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Leonel Brizola, José
Richa, Mario Covas, Lula, centenas de artistas e lideranças sindicais. Tancredo
Neves, que esteve em Curitiba, não compareceu. Estava formada uma grande frente
popular pelas Diretas Já! Da disputa institucional, a campanha ganhou as ruas
fortalecida pela adesão dos movimentos sociais, sindicais e populares!
Daí para a frente todos sabemos. Duas tiras – uma verde,
outra amarela – pintadas como displicentes pichações, coloriram o Brasil
inteiro…
A campanha pelas Diretas Já tomou conta do país, mas não
arrefeceu a disputa pela hegemonia do processo de transição em curso. No mesmo
palanque, às vezes até mesmo com discursos mais inflamados, defensores da ida
ao Colégio Eleitoral e da conversão conservadora do regime disputavam espaço
com os setores mais combativos, as forças de esquerda que lideravam a oposição
popular à ditadura militar.
Similitudes ontem e hoje
Por ironia da História, tudo indica haver alguma similitude
entre a campanha das Diretas, de ontem, e o Fora Bolsonaro, de hoje.
Ontem, tratava-se de pôr fim a duas décadas de um cruel
regime que censurou, que reprimiu, que prendeu, que torturou, que matou…
implantando um verdadeiro terrorismo de Estado em nosso país.
Hoje, trata-se de defender o Estado de Direito Democrático
instaurado com a Constituição de 1988 – com todas as debilidades, que
conhecemos – e impedir que o Brasil resvale para uma abjeta ditadura,
militar-miliciana, sob a liderança protofascista de Jair Bolsonaro.
Ontem, setores oposicionistas se dividiam entre aqueles que
queriam eleições imediatas, diretas verdadeiramente já, e outros que admitiam a
transição lenta, com a ida ao Colégio Eleitoral.
Hoje, temos certos setores que lutam pelo Fora Bolsonaro
(impeachement já) por entenderem que – a depender da conjuntura – Bolsonaro
pode ganhar tempo tanto para a disputa eleitoral em 2022 como para desfechar o
tão almejado (e até mesmo propalado pelos apoiadores) golpe policial-militar.
Ontem, a luta pelas Diretas Já saiu do Congresso para as
ruas. Hoje, ao contrário, a luta está partindo das ruas e praças do País e
acumulando forças – apesar das dificuldades impostas pela pandemia – para
chegar ao Congresso e viabilizar o impeachment já
Por outro lado, observamos outros setores que, embora
acompanhem o coro do Fora Bolsonaro, não se empenham, de fato, na campanha pelo
impeachement já por apostarem que o enfraquecimento de Bolsonaro é inexorável e
que é preferível esperar – deitados no berço esplêndido das pesquisas – para
derrotá-lo nas eleições presidenciais de 2022.
Ontem, a luta pelas Diretas Já saiu do Congresso para as
ruas.
Hoje, ao contrário, a luta está partindo das ruas e praças
do País e acumulando forças – apesar das dificuldades impostas pela pandemia –
para chegar ao Congresso e viabilizar o impeachment já.
Grito de partida
A Frente Povo Sem Medo, a Frente Brasil Popular, centrais
sindicais, partidos políticos, movimentos sociais e populares e entidades da
sociedade civil deram o grito de partida e foram às ruas, cada vez mais
numerosos, nos quatro cantos do Brasil em 29 de maio,19 de junho, 3 e 24 de
julho. Perceberam, como lembrou Guilherme Boulos, que “quando um governo é mais
letal do que o vírus, é inevitável a necessidade de sairmos para o
enfrentamento”.
Manifestações populares em centenas de cidades brasileiras;
um mega pedido de impeachment de Bolsonaro, que reuniu mais de cem denúncias
apresentadas à Câmara dos Deputados (23 crimes previstos em lei), entregue em
30 de junho e assinado por mais de uma dezena de partidos, de organizações de
categorias profissionais, um sem-número de renomados juristas; um manifesto com
centenas de economistas, empresários, banqueiros e intelectuais liberais –
revelam o crescente isolamento político e social de Jair Bolsonaro e seu
governo.
Lembremos que a PEC do voto impresso na Câmara Federal
esteve longe de conquistar os 308 votos necessários para a aprovação em
primeiro turno, o que representou a maior derrota do governo Bolsonaro no
Congresso até o momento. Fato que pode vir a confirmar a sempre lembrada
assertiva de que “o Centrão nunca se vende, sempre se aluga”!
Como dizia Dr. Ulysses, “a única coisa que mete medo em
político é o povo nas ruas”. Não podemos descartar a hipótese das manifestações
populares, convocadas pelas organizações do fora Bolsonaro, alcancem a
amplitude e a dimensão necessárias para impor ao Legislativo a suspensão das
funções presidenciais do atual presidente.
Se ontem a não aprovação da emenda Dante de Oliveira
contribuiu para que fosse configurado um caráter conservador à transição
política (ida ao Colégio Eleitoral, Assembleia Constituinte não exclusiva e com
a participação dos senadores biônicos de 1978); nos dias de hoje, o não
afastamento imediato de Bolsonaro poderá levar o país, em 2022, a um quadro de
esgarçamento social, político e institucional com desfecho imprevisível. Fora
Bolsonaro! Impeachment já!
*Haroldo Saboia foi Deputado Federal Constituinte (1986-90) pelo PMDB-MA, Deputado Federal (1990-99) pelo PT-MA e membro do Diretório Nacional do PSOL.

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