sexta-feira, 27 de março de 2026

Povo como pretexto - artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração


Povo como pretexto

Alex Pipkin, PhD em Administração

Ideologias não nascem como fraude; nascem como tentativas de compreender e organizar o mundo.

A esquerda parte da premissa de que o Estado deve mitigar desigualdades e proteger os vulneráveis. A direita, da convicção de que a prosperidade emerge da liberdade econômica, da iniciativa privada e do conhecimento aplicado à geração de riqueza. Em suas origens, não são dogmas, são hipóteses.

O tempo, contudo, tem o hábito de testar aquilo que os livros apenas sugerem.

A história econômica é menos generosa do que os palanques. Não há nação próspera sem disciplina fiscal, previsibilidade e respeito ao dinheiro extraído da sociedade. O crescimento sustentável definha onde o Estado gasta sem limites, tributa sem critérios e intervém sem medida. Tampouco há avanço onde a livre iniciativa é sufocada, o direito à propriedade é relativizado e a inovação não acontece pelo abusivo intervencionismo estatal.

A ironia trágica é que, em nome do povo, frequentemente se constrói o exato oposto daquilo que o beneficia. A inflação pune os mais pobres. A baixa produtividade os aprisiona, e a estagnação os condena. O discurso promete emancipação; a prática entrega dependência.

Mas a raiz da crise atual já não cabe nos manuais ideológicos. Ao longo das décadas, as doutrinas foram esvaziadas por dentro. O que testemunhamos hoje não é a aplicação coerente de ideias, mas a sua manipulação conveniente. Princípios viraram adorno. Conceitos, disfarce. Esquerda e direita passaram a compartilhar um traço perverso e mais profundo do que admitem; a substituição do propósito por interesses e, no limite, pelo próprio umbigo.

Os escândalos não são desvios de rota; são o próprio destino.

A política deixou de ser a disputa pela melhor forma de organizar a pólis. Tornou-se um sistema de autopreservação do poder. O resto é mera retórica.

O cidadão, nesse arranjo, não é destinatário; é argumento. Surge nos discursos com frequência litúrgica e desaparece das decisões com regularidade constrangedora. Não se governa para a realidade; (des)governa-se para a narrativa.

Não falta teoria. Falta caráter. A política não é vocação para o domínio, mas dever de serviço. Quando o poder se torna o fim e o cidadão se transforma em pretexto, nenhuma ideologia salva.

Resta apenas a repetição do mesmo erro, evidentemente com nomes diferentes, e exatamente o mesmo resultado.

Ou a política retorna ao seu único propósito legítimo, o de servir ao bem comum, ou continuaremos avançando, com convicção e discurso, rumo a um fundo do poço que não tem fundo.


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