A cidade contra o cidadão
Quando o crescimento urbano deixa de servir à vida e passa a corroê-la
José Luiz Alquéres*
09/04/2026
Há algo de profundamente equivocado na forma como as cidades brasileiras vêm se transformando — e o mais inquietante é que esse processo se tornou, em grande medida, naturalizado.
Desde a última década de 50, o Brasil experimentou uma urbanização vertiginosa. A industrialização, o avanço da produtividade agrícola e a expansão dos sistemas de transporte deslocaram milhões de pessoas para os centros urbanos. Esse movimento, em si, não era um problema. Ao contrário, poderia ter sido a base de uma modernização equilibrada. Não foi.
As cidades que antes cresciam de maneira orgânica — moldadas pela proximidade, pela convivência e por um certo senso de escala humana — passaram a se expandir sob a lógica da urgência, da improvisação e, sobretudo, da omissão. O resultado foi a ocupação de áreas inadequadas, a formação de territórios frágeis e a consolidação de um padrão urbano que sempre correu atrás dos problemas, em vez de preveni-los.
O Estado tentou, em determinados momentos, reagir. Durante o regime militar, estruturou-se um sistema robusto de financiamento habitacional, ancorado no Banco Nacional da Habitação e sustentado pelos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Chegou-se a produzir, em alguns anos, um milhão de unidades habitacionais.
Mas quantidade nunca foi sinônimo de solução.
A inflação corroeu o sistema, os mutuários perderam capacidade de pagamento e o modelo colapsou. O que se seguiu foi ainda mais grave: uma retração prolongada do investimento público em habitação, infraestrutura e saneamento — uma espécie de abandono silencioso das cidades
Décadas depois, ainda lidamos com as consequências.
O erro fundamental: esquecer o bairro
Talvez o maior equívoco do urbanismo brasileiro recente tenha sido abandonar o bairro como unidade de pensamento.
No lugar dele, adotou-se uma lógica fragmentada, orientada por empreendimentos isolados. Constrói-se aqui, verticaliza-se ali, aprova-se um projeto acolá — como se a cidade fosse um mosaico de interesses independentes e não um organismo interdependente.
As cidades, porém, não funcionam assim.
Uma cidade só existe enquanto rede de relações. E é no bairro que essas relações se tornam tangíveis: onde se mora, onde se caminha, onde se reconhece o outro. É no bairro que a cidade deixa de ser abstração e se torna experiência.
Ignorar isso não é apenas um erro técnico. É um erro civilizatório.
A evolução que se tornou distorção
Os bairros brasileiros passaram, ao longo do tempo, por um processo relativamente previsível: ocupação inicial, loteamento, consolidação suburbana, verticalização moderada. Até aí, nada de anormal.
O problema surge quando esse processo ultrapassa um limite — e passa a ser conduzido não pela lógica da vida urbana, mas pela lógica da arrecadação. É o que se vê hoje.
Em áreas valorizadas, normas urbanísticas são flexibilizadas, parâmetros são alterados e o potencial construtivo é ampliado. Não por necessidade social, mas por conveniência fiscal. A cidade torna-se instrumento de receita.
Bairros como Copacabana, Ipanema e Leblon, concebidos sob determinadas condições de densidade e escala, passam a ser submetidos a pressões que ignoram completamente sua capacidade de suporte.
O resultado é visível — e, ainda assim, frequentemente ignorado: sombreamento excessivo, perda de ventilação, sobrecarga de infraestrutura, degradação da paisagem.
O efeito mais grave não é físico. É social.
Quando o bairro perde seus moradores, a cidade perde sua alma
À medida que o adensamento se intensifica e os usos se tornam mais instáveis, o bairro deixa de ser habitado para ser frequentado.
A diferença é decisiva: O frequentador passa; o morador permanece. O frequentador consome; o morador cuida.
Quando a presença cotidiana dos moradores se enfraquece, a vida urbana se esvazia. A segurança diminui, os vínculos se dissolvem, os espaços públicos perdem significado.
Esse fenômeno foi descrito com precisão por Jane Jacobs em The Death and Life of Great American Cities. A vitalidade urbana depende da continuidade da vida local — dos “olhos da rua”, da presença constante, do pertencimento.
Sem isso, a cidade se torna cenário. E cenários não protegem ninguém.
O colapso silencioso da classe média urbana
Há um aspecto particularmente sensível nesse processo: a erosão dos bairros de classe média.
Foram esses bairros que, ao longo do século XX, sustentaram o tecido social das cidades brasileiras. Neles se formaram gerações de profissionais, consolidaram-se valores de convivência e floresceram manifestações culturais.
Sua deterioração não é apenas urbanística. É civilizatória.
Quando esses espaços se desorganizam, perde-se mais do que qualidade de vida. Perde-se um modo de vida.
O que fazer — ou o que ainda é possível evitar
A solução não exige genialidade. Exige coragem. Antes de tudo, é preciso interromper o processo de degradação.
Isso significa preservar parâmetros de densidade, respeitar normas urbanísticas e conter a transformação da cidade em ativo financeiro. Significa, em termos claros, dizer “não” — algo cada vez mais raro no planejamento urbano brasileiro.
Em seguida, é necessário reordenar prioridades: mobilidade, infraestrutura, distribuição de serviços. Não como promessas, mas como política pública consistente.
Nada disso será suficiente sem um elemento essencial: a mobilização dos moradores.
A cidadania começa na rua onde se mora
Existe uma ideia antiga — quase esquecida — de que o pertencimento começa no lugar onde se vive.
Nas cidades contemporâneas, esse lugar é o bairro.
É nele que se aprende a conviver, a cuidar, a reivindicar. É nele que a cidadania deixa de ser abstrata e se torna concreta. Defender o bairro não é um gesto menor. É, talvez, a forma mais imediata e eficaz de participação pública.
Porque é ali, no espaço cotidiano, que a cidade se constrói — ou se desfaz.
Conclusão
As cidades brasileiras não estão apenas crescendo de forma desordenada. Estão, pouco a pouco, se voltando contra aqueles que deveriam servir.
Reverter esse processo não depende apenas de planos diretores ou de grandes obras. Depende, sobretudo, de recuperar aquilo que foi negligenciado: o bairro como unidade de vida, de identidade e de responsabilidade coletiva.
Temos que eleger gente qualificada para liderar esses processos, como prefeitos, vice-prefeitos e vereadores – em vez da atual profusão de picaretas, oportunistas, corruptos e incompetentes, que povoam o cenário político brasileiro e provocam desânimo em todos os cidadãos desta nação.
Sem isso, continuaremos construindo cidades cada vez maiores — e, paradoxalmente, cada vez menos habitáveis.
*José Luiz Alquéres é engenheiro e planejador urbano, CREA 13.829-D.

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