quinta-feira, 16 de abril de 2026

ALMAS CONSAGRADAS - Artigo de José Renato Nalini, acadêmico da Academia Paulista de Letras


ALMAS CONSAGRADAS   

Acadêmico: José Renato Nalini

Em momentos de crise como os de hoje, com incríveis e lastimáveis conflitos bélicos em várias partes do planeta, é importante recordar existências que colidem com esta Era impregnada de materialismo, de individualismo egoísta, de ateísmo sob múltiplas tonalidades


Almas consagradas

Os tempos que nos são dados vivenciar, imprimem à rotina um ritmo incompatível com a serenidade essencial à preservação da saúde mental. Inflação de informações, requisição permanente de inúmeras fontes de absorção e a volúpia das redes sociais, bombardeando a atenção que precisa ser múltipla e difusa.

A humanidade está enferma. Ainda que se apregoe o infinito acervo de conquistas científicas a contribuírem com a longevidade, isso não significa cheguemos todos lúcidos, conscientes e serenos. Indague-se: qual seria hoje o conceito de plena higidez da mente humana?

Entretanto, houve tempo em que o silêncio era um dom divino, cultivado nos claustros religiosos. Por isso os conventos, os mosteiros e os carmelos eram celeiros de espíritos superiores e incubadores de santidade.

Convém, de quando em vez, recordar vocações como a da Madre Maravillas de Jesus, excelsa figura de alma consagrada a Deus na vida puramente contemplativa. Adornou-se de todas as virtudes claustrais que praticou e transmitiu às suas filhas, as jovens carmelitas que a seguiram.

Em momentos de crise como os de hoje, com incríveis e lastimáveis conflitos bélicos em várias partes do sofrido planeta, é importante recordar existências que colidem com esta Era impregnada de materialismo, de individualismo egoísta, de ateísmo sob múltiplas tonalidades. É possível preservar a tranquilidade, a despeito da balbúrdia coletiva.

A carmelita descalça Madre Maravillas de Jesus nasceu em 4 de novembro de 1891, em Madrid. Em 1919, sua mãe viúva deu permissão para ela entrar no convento e em 12 de outubro desse ano ingressa no Carmelo do Escorial. Em maio de 1924, deixa o El Escorial para fundar o Carmelo de Cerro de los Angeles. Em 1926, foi nomeada Priora da Comunidade pelo bispo de Madrid-Alcalá, Dom Leopoldo Eijo y Garay.

Empreendedora, provida de empatia natural, é solicitada pelo bispo de Vijayapuram, na Índia, para fundar um carmelo em sua diocese. Entre a solicitação – 1932 – e a inauguração do convento, 1933 – decorreu apenas um ano. Para lá foram transferidas oito religiosas de sua comunidade. Seus superiores não a deixaram ir. A Guerra Civil espanhola a fez sofrer. Em 1936, a obrigam a deixar o convento e se recolhe, com sua comunidade, junto às Ursulinas de Getafe. Nesse mesmo ano, em 7 de agosto, derrubam a imagem do Coração de Jesus no Cerro de Los Angeles.

Teve de se refugiar, com sua comunidade, numa residência particular à rua Claudio Coello, 33, em Madrid. Em caminhão de carabineiros, dirige-se a Valência e em 1937 chega a Barcelona.

Nunca deixou de propagar a fé católica e de recrutar novas vocações, a despeito das perseguições. Mas prosseguiu, firme na fé e na disseminação da verdade, até sua morte em 11 de dezembro de 1974.

Durante toda a sua permanência no claustro, transmitia alegre tranquilidade e convicção de que Deus a habitava. Um sacerdote carmelita descalço, que a conheceu e foi seu confessor, escreve: “Não era difícil adivinhar que vivia em Sua divina presença e que ternamente O amava. Assim se deduzia de sua atitude serena e recolhida, seu constante referir todas as coisas à Divina Providência e buscar a glória de Deus em todas as suas empreitadas, o colocar na eficácia da oração o êxito de todas elas”. E continua: “A última vez que tive a ventura de estar com ela – julho de 1974 – pensei que não a veria mais na Terra, pois a achei muito envelhecida, encurvadíssima, fisicamente acabada, ainda que na mais completa lucidez mental. Saí com a suave impressão de haver estado com uma santa”.

Outro sacerdote, que a confessava nos últimos anos, diz assim: “Vejo-a assim, como a conheci em sua ancianidade, em seus últimos anos, eu diria que quando mais se conhece a santidade de uma pessoa, é no final de sua vida. É o momento em que se recolhe o fruto de todos os anos passados. Estavam ali recolhidos e guardados como quem guarda um tesouro dentro de seu coração, todas as experiências passadas, agradecendo ao Senhor todos os benefícios recebidos e procurando, dia após dia, hora após hora, contestar a essas benesses com uma entrega em silêncio. Silêncio interior, silêncio exterior, silêncio da alma. Esse silêncio que tanto fala de Deus Nosso Senhor quando alguém se comunica com Ele na solidão, como se comunicava a Madre Maravillas”.

O que significa para as novas gerações, aturdidas e séries candidatas à surdez, com o excesso de ruído dessas manifestações pseudoartísticas, falar em “silêncio”? Silêncio, para essas tribos, é uma figura de linguagem, algo teórico e simbólico, sobre cuja existência a juventude talvez tenha ouvido falar, mas cuja prática ignora, por desconhecê-la e, muito menos, praticá-la. Hoje todos querem falar. Durante todo o tempo. Ninguém se propõe a ouvir. Todavia, a mente inquieta aspira por pausa no barulho contínuo. Anseia por silêncio!

Madre Maravillas de Jesus escreveu: “O que Deus quiser, quando Deus quiser, como Deus quiser”, inscrição que está no jazigo de minha família, em Jundiaí, onde também repousarei. Espero que ao menos os cemitérios continuem silenciosos.

Publicado no Estadão/Blog do Fausto Macedo, em 15 04 2026

*José Renato Nalini, acadêmico da Academia Paulista de Letras

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