Nordeste: o êxodo das renováveis
Daniel Lima
21/04/2026
Outrora, o êxodo que castigava o Nordeste era populacional, fruto da seca inclemente que expulsava famílias inteiras em busca de sobrevivência. Hoje, o risco é outro: desperdiçar o sol e o vento abundantes que poderiam transformar a região em potência energética mundial.
Empresas do setor de energia renovável avaliam suspender investimentos próximos a R$ 38,8 bilhões entre 2025 e 2026, penalizando novamente a região que se consolidou como líder na produção de energia eólica e solar. Os motivos são claros: falta de infraestrutura de escoamento, cortes forçados na geração (curtailment), elevação dos custos operacionais e perda de vantagens fiscais.
Nos últimos 12 meses, os cortes já representaram perdas bilionárias, estimadas entre R$ 3,8 e R$ 5,4 bilhões, com até 20% da geração solar e eólica simplesmente descartada. Esse desperdício mina a confiança dos investidores e ameaça a transição energética do país. Municípios que dependem da cadeia de renováveis enfrentam retração econômica, queda na arrecadação e aumento do desemprego.
O dilema é evidente: sem que o governo faça o dever de casa, o capital migra para outras regiões ou países. O Nordeste, que poderia liderar a transição energética no Brasil, corre o risco de se tornar apenas espectador.
O caminho do armazenamento
A solução não exige milagres, apenas racionalidade. Duas medidas podem virar o jogo:
Implantação de sistemas BESS (Battery Energy Storage Systems) junto aos empreendimentos solares e eólicos que sofrem cortes. O excedente seria armazenado e liberado em horários de maior demanda, eliminando perdas bilionárias e aumentando a eficiência da matriz.
Incentivo ao armazenamento residencial e comercial junto a MMGD: o programa de armazenamento distribuído poderia retirar a injeção nos horários de grande oferta e baixo consumo. Cada consumidor-produtor se tornaria parte da solução, equilibrando a rede e fortalecendo a transição energética.
Impactos de uma virada
Se os bilhões desperdiçados em cortes fossem investidos em baterias, o Brasil poderia instalar dezenas de gigawatts-hora em capacidade de armazenamento. Isso significaria:
– Redução drástica das perdas de energia limpa.
– Maior segurança energética em momentos de baixa geração.
– Criação de milhares de empregos na cadeia de fabricação, instalação e manutenção de baterias.
– Aceleração das metas de descarbonização, com ganhos ambientais imediatos.
O Brasil não sofre de falta de tecnologia ou de recursos. Sofre de falta de decisão. O dinheiro que escorre pelo ralo dos cortes de energia é suficiente para financiar um programa nacional de armazenamento capaz de revolucionar a matriz elétrica.
Se o país quiser preservar os R$ 38,8 bilhões em investimentos e consolidar sua posição como potência verde, precisa abandonar o discurso e partir para a ação.
*Daniel Lima é economista e especialista no setor energético.

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