O réu no espelho
Alex Pipkin, PhD em Administração
Ontem assisti Nuremberg.
Saí com uma sensação incômoda, quase física: a de que o tribunal não terminou. Ele não acabou; deslocou-se. Saiu da Alemanha devastada e se instalou dentro de cada indivíduo que, diante do grotesco, abdica do próprio pensamento pelo conforto de pertencer.
A figura de Göring no banco dos réus não é apenas história. É diagnóstico. O mal não nasce em tratados; nasce no íntimo. Não começa como ideologia, mas como ressentimento. Uma ferida mal resolvida, uma humilhação silenciosa, uma impotência que apodrece. O que não é elaborado, se transforma. Primeiro em narrativa, depois em justificativa e, finalmente, em ação.
Göring não precisou de uma teoria para odiar. Precisou de uma explicação que o absolvesse. E encontrou.
Quando cruzou o caminho de Adolf Hitler, não encontrou um líder, encontrou uma autorização. A promessa de grandeza não era um projeto nacional; era um álibi psicológico. O nazismo não foi, para ele, uma causa. Foi um instrumento. Não construiu uma nação. Tentou resolver a si mesmo com o sangue dos outros.
É aqui que o filme deixa de ser passado. Ele se torna um espelho, incômodo, atual, inevitável.
Nuremberg tentou fixar um limite. Um “Nunca Mais”. Mas o “Nunca Mais” não é um monumento; é uma disciplina. E disciplinas fracassam quando são terceirizadas.
O mal não retorna em grandes rupturas. Ele avança em pequenas concessões. Na omissão elegante. No silêncio confortável de quem percebe e, ainda assim, escolhe não confrontar.
Durante o filme, não me abandonava uma frase atribuída a Edmund Burke: para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada. Mas isso é insuficiente. O mal não precisa apenas da inação. Precisa da abdicação; da decisão consciente de não pensar, de não julgar, de não se expor.
Hoje, o ódio não se apresenta apenas como barbárie. Ele se apresenta como razão. Não grita, argumenta. Não se impõe, infiltra-se. E encontra eco em indivíduos que, mesmo percebendo a distorção, preferem ajustá-la a romper com o grupo. A dissonância cognitiva não cega. Ela acomoda.
E aqui está o ponto que ninguém gosta de admitir: pessoas instruídas não são menos vulneráveis. São, muitas vezes, mais eficientes em justificar o erro que escolheram não confrontar.
O problema nunca foi apenas quem manipula. Sempre foi quem aceita ser conduzido, porque pensar cobra um preço que poucos estão dispostos a pagar: a solidão.
O mal não precisa ser genial. Precisa apenas ser tolerado.
O tribunal segue aberto. Sem juízes. Sem sentença.
A pergunta não é histórica. É pessoal. Incômoda. Inadiável: até quando você vai terceirizar o seu pensamento para não ter que sustentar a sua própria consciência?
Porque, no fim, o réu não está mais no banco.
Ele está no espelho.
E, desta vez, você sabe exatamente por quê.

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