O tempo está acelerando ou a experiência está morrendo silenciosamente?
Por Warly Bentes
Certa vez no ginásio, para uma feira de ciências, em equipe fizemos um modelo de vulcão. A ideia era mostrar como a explosão do magma terrestre funcionava. Montanha de barro em miniatura, árvores de papelão em volta. Dentro da “cratera”, algodão embebido em álcool para produzir fogo e palha de aço para que com as faíscas se imitasse o vulcão expelindo gases e larva. Na apresentação na sala de aula, um colega errou a ordem dos “efeitos especiais”, rs. Colocou a palha de aço debaixo do algodão com álcool. Então riscado o fósforo, uma bola de fogo voou na direção de uma coleguinha sentada na primeira fileira, rs. Foi uma gritaria, rs. Mas tiramos nota 10 e a demonstração foi repetida no dia da exposição geral, desta vez no meio da quadra, para que ninguém corresse nenhum risco.
E assim, como todos nós, guardo na memória essas experiências da minha vida: como a primeira vez numa Roda Gigante ou numa lancha; a primeira vez que fui a São Paulo, a vez da primeira viagem internacional ou da vez que vi neve caindo numa noite em NY. O nascimento dos meus filhos. Experiências que vão formando o equilíbrio e a inteligência emocional de cada ser humano. Sem estas experiências o que seríamos? Imaturos? Tenho ouvido nos últimos anos cada vez mais pessoas dizendo que o tempo está voando. E o que isso tem a ver com nossas interações, nossas vivências com o mundo ao nosso redor? O que é essa sensação de que o tempo está acelerando?
Quase todo mundo tem a mesma impressão hoje: os anos estão passando cada vez mais rápido. A infância parecia infinita. Um ano escolar era uma eternidade. Agora piscamos e já é Natal outra vez. Mas e se essa sensação não for psicológica… e sim civilizacional? Talvez o tempo não esteja passando mais rápido. Talvez nós tenhamos parado de vivê-lo.
No final do século XIX, o filósofo francês Henri Bergson escreveu, em Matéria e Memória, que o tempo humano não é medido por relógios, mas por experiências marcantes. Para Bergson, a verdadeira duração (la durée) é psicológica. O tempo vivido depende da densidade das memórias.Tempo não é QUANTIDADE. Tempo é INTENSIDADE. Quando a vida é rica em experiências, o tempo se expande. Quando é pobre, ele encolhe.
Agora olhe para o presente. Vemos uma geração que vive sem marcos temporais. Nossa memória organiza o tempo em “eventos”: viagens, encontros, desafios, crises, conquistas, mudanças de fase. Esses marcos criam a sensação de passagem do tempo. Mas o que acontece quando o cotidiano vira uma sequência infinita de rolagens de tela? Feed. Stories. Reels. Shorts. Notificações. Mil estímulos por dia. Nenhum evento memorável. O cérebro recebe toneladas de informação, mas quase nada vira memória de longo prazo. É informação sem narrativa. Ë estímulo sem história. Vivência sem experiência. Resultado: o cérebro não encontra “pontos de ancoragem” para medir o tempo. E quando não há marcos… os meses colapsam uns sobre os outros. O ano vira uma semana longa.
Em Ser e Tempo, Martin Heidegger descreveu o ser humano como um ser lançado no tempo, um ser que precisa construir sentido ao longo da própria existência. Mas ele alertou para um perigo: a vida na cotidianidade inautêntica. A vida ocupada. Atarefada. Distraída. Cheia de urgências irrelevantes. A vida onde estamos sempre fazendo algo… mas raramente vivendo algo. Ele escreveu algo devastador:
“A ocupação constante é uma fuga de si mesmo.” Troque “ocupação” por “notificações” e temos um diagnóstico do século XXI. Vivemos a sociedade da aceleração permanente.
O sociólogo alemão Hartmut Rosa desenvolveu a ideia de aceleração social. Em Social Acceleration, ele mostra que a modernidade prometeu economizar tempo com tecnologia, mas produziu exatamente o contrário: uma fome infinita por mais velocidade. Tecnologia deveria nos dar tempo livre. Mas criou a obrigação de fazer mais coisas ao mesmo tempo.
Antes: Esperávamos cartas. Esperávamos notícias. Esperávamos respostas.
Hoje: Esperar virou ansiedade. Silêncio virou rejeição. Pausa virou desperdício. Vivemos em modo buffering emocional.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han talvez tenha dado o golpe final nessa discussão. Em A Sociedade do Cansaço, ele descreve a vida contemporânea como uma sequência de micro-tarefas sem continuidade narrativa. Sem silêncio. Sem tédio. Sem contemplação. E aqui está a provocação central: O tédio era o útero da experiência. Era no tédio que o cérebro organizava memórias. Era no vazio que a vida ganhava forma. Era na lentidão que o tempo se tornava humano. Hoje eliminamos o tédio com dopamina digital. E, sem perceber, eliminamos a sensação de viver.
Nunca tivemos tanto conteúdo. Nunca tivemos tão poucas lembranças. Pergunte a alguém o que fez na semana passada. Provavelmente responderá: “Nem sei… passou voando.” Mas pergunte sobre uma viagem marcante de anos atrás e a pessoa lembrará de cheiros, cores, conversas, detalhes. Porque experiência cria memória. Consumo cria ruído. Estamos trocando vivências por estímulos. História por atualização. Memória por feed.
Talvez o tempo não esteja passando mais rápido. Talvez estejamos vivendo menos experiências dignas de memória. Talvez o problema não seja o relógio. Seja a superficialidade da vida. E a pergunta desconfortável fica: Se nossos dias não deixam lembranças… nós realmente os vivemos? E mais: será que toda essa alienação serve a quem está no poder, manipulando e enriquecendo cada vez mais às custas da escravidão e do suor da maioria? Você já havia pensado nisso? Como você está vivendo suas experiências e construindo suas memórias?

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Este blog só aceita comentários ou críticas que não ofendam a dignidade das pessoas.