quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando o Senado resolveu existir - Artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração


Quando o Senado resolveu existir

Alex Pipkin, PhD em Administração

A rejeição de Jorge Messias pelo Senado não é uma simples derrota técnica; é algo muito mais raro.

Foi um desvio violento no padrão. Pela primeira vez em 134 anos, os senadores rasgaram o script de submissão ao Planalto e avisaram que a porta de entrada para o STF não é um guichê de entregas.

O “Bessias” de 2016, o homem do papel de posse preventivo, agora se transformou no rosto de uma ironia histórica. O fiel escudeiro, escalado para ser o escudo do governo na Suprema Corte, foi o primeiro a perceber que o chão de Brasília talvez não seja tão firme quanto se imaginava.

Mas não sejamos ingênuos. No submundo do poder, nada é de graça. Pode haver uma fatura sendo cobrada por fora, uma conveniência de última hora ou um movimento que ainda não se revelou por completo. Na política, a rejeição de hoje costuma ser a moeda de troca de amanhã.

Ainda assim, o sinal é inequívoco. Se o Senado descobriu que pode dizer “não” a um indicado, o recado ecoa além do episódio. Não é ruptura, mas seguramente é fissura. Fissuras, quando surgem, raramente permanecem contidas.

O governo Lula não caiu, mas perdeu o prumo. O Senado deixou de ser figurante e lembrou ao Brasil que ainda tem digitais.

Se foi um espasmo republicano ou um xeque-mate estratégico, o tempo dirá.

Mas uma coisa já não pode ser ignorada. Quando o roteiro falha, o público percebe que ele nunca foi inevitável.

Ainda que movido por engrenagens ocultas, o Senado permitiu-se, por um instante, um lapso de fidelidade à sua própria missão.

É nesse desequilíbrio entre o interesse e a verdade que a ladeira começa, silenciosamente, a inclinar.


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