segunda-feira, 13 de abril de 2026

Salão do vício - Artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração

Salão do vício


Alex Pipkin, PhD em Administração

Todo o Brasil sabe o que eles fizeram no verão passado, e não foi metáfora.

Foi à luz do dia, com agendas, vinhos, viagens e conveniências.

Relações que antes exigiam o abrigo das sombras passaram a frequentar os salões sem qualquer vestígio de pudor. O que antes demandava recato agora ostenta naturalidade, e o espanto, desgastado pela repetição, cedeu lugar a uma aceitação cínica. O Supremo, que deveria ser a sentinela da Constituição, tornou-se endereço, um balcão de negócios com pretensão de tribunal.

Não houve um golpe de mestre; houve de fato um golpe de hábito.

Estamos diante de uma espécie de usucapião institucional: ocupa-se, permanece-se, e o silêncio consolida. Quando o inaceitável deixa de ser contestado, ele ganha forma e legitimidade. O fato deixou de importar; importa quem permanece de pé após a poeira baixar. E sistematicamente todos permanecem.

O que sustenta esse arranjo não é o Direito, mas o acolchoado do corporativismo. É a lógica de um sistema fechado, que diante do risco, não se corrige, apenas se protege. Ajustam-se narrativas e preserva-se o banquete, porque o que importa é quem permanece à mesa quando as luzes se apagam.

Até que o custo sobe.

Entra em cena, então, o movimento mais previsível da nossa história; a assepsia performática.

O “salvador da democracia” de ontem ensaia, subitamente, distância, não dos fatos, mas das consequências. Ele descobre que é prudente lavar as mãos em público. Não há ruptura real, apenas um reposicionamento estratégico que tenta apagar convivências com notas oficiais, como se o país não tivesse olhos.

Mas o Brasil tem memória visual. Viu as proximidades, os silêncios cúmplices, a liturgia convertida em fantasia de luxo para esconder apetites brutos. O que há de novo nessa paralisia não é o desconhecimento, mas a fadiga moral.

O brasileiro não ignora; ele boceja diante do abismo. Nossa tragédia é o cansaço que transformou o absurdo em mobília, acostumando o olhar à deformidade até que ela parecesse design. Essa tolerância morna permite que tudo continue exatamente como está, com a elegância artificial dos discursos mascarando a crueza dos fatos, que já não se dão ao trabalho de se esconder.

A mudança ocorreu pelo avesso, o escândalo foi domesticado e promovido a engrenagem.

Essa se transformou em regra.



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