terça-feira, 28 de abril de 2026

Savonarola, Robespierre e similares Artigo de José Luiz Alquére


Savonarola, Robespierre e similares

José Luiz Alquéres*

27/04/2026

Em 1498, o monge agostiniano Girolamo Savonarola morreu na fogueira — o mesmo destino ao qual ele próprio havia condenado centenas de pessoas, sob acusações de ordem moral e religiosa.

Foi nesse período que a Inquisição, já existente havia dois séculos, ganhou novo ímpeto e passou a se imbricar diretamente com a governança política de Florença. A cidade, que havia expulsado os Médici — sua tradicional dinastia dominante — buscava uma experiência republicana. A tentativa, contudo, foi rapidamente capturada por correntes moralistas de viés radical, que converteram o ideal político em instrumento de perseguição.

Cerca de três séculos depois, na França, poucos anos após a Revolução Francesa, emergiu como figura hegemônica o revolucionário Maximilien Robespierre. Em nome da democracia, dos direitos humanos e da virtude, fez dessas bandeiras um instrumento de eliminação sistemática de todos aqueles que considerava seus inimigos.

O regime que nascera sob os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade degenerou rapidamente em um sistema de terror. Estima-se que cerca de dezoito mil pessoas tenham sido guilhotinadas em Paris, enquanto número semelhante pereceu no restante do país — todas sob a acusação de oposição a princípios que, em si, eram nobres.

À semelhança de Savonarola, que sucumbiu ao próprio método, Robespierre também terminou na guilhotina. Sua morte marcou o fim da chamada Era do Terror, mas deixou uma marca duradoura: a associação, jamais inteiramente dissipada, entre processos revolucionários e o recurso sistemático à violência extrema como instrumento de transformação política.

No século XX, esse padrão não desapareceu. Fidel Castro, em Cuba, reintroduziu o paredão nos anos 1960, enquanto a Revolução Russa, já em 1917, adotara métodos igualmente severos contra aqueles rotulados como “inimigos do povo”. Aqui na América Latina os Sandinistas, na Nicarágua; Pinochet, no Chile; e os generais na Argentina, mutatis mutandi, praticaram as mesmas barbaridades.

Essas referências históricas ganham relevância diante do cenário contemporâneo brasileiro e internacional. Observa-se um progressivo esvaziamento da qualidade, da representatividade e, sobretudo, do respeito às instituições. Nesse ambiente, discursos radicais buscam ocupar e influenciar os principais centros de poder — do Supremo Tribunal Federal ao Senado Federal, passando pela Câmara dos Deputados e pelo próprio Executivo.

Entre o discurso e a prática, as distâncias têm se revelado profundas. Não raramente, aqueles que se apresentam como os mais ardorosos defensores da democracia são também os que adotam, no exercício do poder, práticas de natureza autoritária e decisões de caráter marcadamente monocrático. Surge, então, a indagação inevitável: seriam defensores apenas da palavra, à maneira de Girolamo Savonarola?

O mesmo se observa no campo da moralidade administrativa. Aqueles que proclamam a virtude, a transparência e a integridade na gestão pública frequentemente figuram, na prática, entre os maiores beneficiários de privilégios — seja em proveito próprio, seja em favor de familiares. Vantagens pecuniárias, prerrogativas de poder e benefícios indiretos são usufruídos com uma naturalidade que surpreende até os observadores mais tolerantes da vida política nacional e internacional.

Nossos “Savonarolas” e “Robespierres” contemporâneos — hoje presentes no Judiciário, no Executivo e no Legislativo e em organismos internacionais— reproduzem, sob nova linguagem, a mesma lógica de seus antecessores: discursos moralizantes que encobrem práticas de poder. Ainda assim, há sinais de inflexão. Em diferentes camadas da sociedade, observa-se um crescente grau de descrença e, em certos casos, de aberta rejeição a esse padrão de atuação, amplificado por uma imprensa que, apesar de suas limitações, tem exposto com maior frequência tais contradições.

Torna-se cada vez mais evidente que ações governamentais se orientam prioritariamente pela preservação do poder e pela manutenção de privilégios já consolidados. Não é essa, contudo, a expectativa da sociedade brasileira.

Em algum momento — e por meios estritamente democráticos — a população tenderá a criar as condições para remover esse entulho autoritário, erguido sob o pretexto de defesa da própria democracia. Quando isso ocorrer, não haverá fogueiras nem guilhotinas. Haverá, antes, o julgamento político da história — e este, como se sabe, costuma ser mais duradouro e implacável do que qualquer sentença imediata.

*José Luiz Alquéres é engenheiro e planejador urbano, CREA 13.829-D.


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