quinta-feira, 30 de abril de 2026

Tchau, querido - Por Felipe Vieira


Tchau, querido

Por Felipe Vieira*

29/04/2026 

Há frases que atravessam governos e acabam voltando anos depois carregadas de ironia política.

Em março de 2016, no auge da crise que culminaria no impeachment de Dilma Rousseff, o país ouviu a gravação que entrou para a história política recente. Na conversa entre Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva, a então presidente avisava que enviaria o termo de posse ministerial “em caso de necessidade”. O responsável por levar o documento era justamente Jorge Messias, então subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil. Na gravação, Dilma se refere a ele de forma que virou um dos episódios mais marcantes daquele período: “Bessias”.

O episódio se transformou em símbolo da crise política daquele momento. A oposição sustentou que a posse ministerial buscava garantir foro privilegiado a Lula em meio ao avanço da Operação Lava Jato.

Ao fim daquela mesma ligação, outra frase entraria para o folclore político brasileiro. Lula encerra a conversa com Dilma dizendo: “Tchau, querida.”

O bordão virou meme, camiseta, adesivo e sintetizou o desgaste de um governo que já havia perdido conexão com parte expressiva da sociedade.

Dez anos depois, a política brasileira produziu uma cena carregada de simbolismo semelhante.

O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. O placar de 42 votos contrários e 34 favoráveis não representou apenas uma derrota do governo Lula. Foi uma derrota acachapante, constrangedora e politicamente devastadora, que expôs de forma pública a fragilidade da articulação do Palácio do Planalto e a incapacidade de construir maioria mesmo em um tema central. Mais do que um revés, foi uma vergonha institucional para o governo, derrotado em plenário após mobilização intensa. O resultado também funcionou como um recado direto contra a lógica das indicações baseadas em proximidade política, fidelidade ideológica e relações pessoais.

O Brasil precisa discutir com mais seriedade os critérios para ocupar uma cadeira no Supremo.

A Constituição fala em notável saber jurídico e reputação ilibada.

Não deveria ser tão difícil compreender o peso dessas duas exigências.

No caso de Jorge Messias, o debate sobre notável saber jurídico apareceu desde o primeiro momento. Embora tenha trajetória na advocacia pública e passagem pela Advocacia-Geral da União, críticos questionavam se sua experiência jurídica o colocava no patamar técnico esperado para uma cadeira vitalícia na mais alta Corte do país.

A discussão sobre reputação também surgiu em meio ao desgaste político natural de alguém profundamente vinculado ao núcleo de confiança do presidente.

Ministro do Supremo não pode parecer extensão do governo de turno.

Também não pode chegar à Corte carregando a percepção de alinhamento partidário.

O Supremo Tribunal Federal precisa voltar a ser visto como corte constitucional e não como espaço de acomodação política.

O país assistiu nos últimos anos a ministros envolvidos em polêmicas permanentes, conflitos públicos, protagonismo político excessivo e questionamentos sobre relações paralelas incompatíveis com a sobriedade exigida pelo cargo.

Juiz constitucional precisa falar por meio dos autos e dos votos.

Precisa ter independência.

Precisa respeitar os limites da Constituição.

Precisa manter distância absoluta de interesses econômicos paralelos, relações nebulosas e qualquer conduta que fragilize a credibilidade da Corte.

O Senado, desta vez, cumpriu seu papel.

Mostrou que a aprovação automática de indicados do Palácio do Planalto não pode ser tratada como mera formalidade.

Talvez a principal lição deste episódio seja simples.

Presidentes da República precisam parar de indicar amigos, aliados políticos e nomes pensados para agradar partidos.

O Supremo exige currículos sólidos, trajetória jurídica robusta, independência intelectual e reputação sem manchas.

O Brasil precisa de ministros que conheçam profundamente a Constituição e tenham compromisso exclusivo com ela.

Nada além disso deveria bastar.

No fim, a política entregou sua ironia histórica.

Dez anos depois do “tchau, querida”, Brasília ouviu seu próprio eco.

A derrota no Senado não foi apenas pontual. Foi ampla, simbólica e constrangedora. Expôs fragilidade política, falha de articulação e, sobretudo, o limite de um modelo de indicação que ignora critérios técnicos em favor da proximidade pessoal.

Há derrotas que passam.

Outras deixam marca.

Essa entra para a história recente como uma das mais duras e emblemáticas enfrentadas por um governo no Senado.

Tchau, querido.

*Felipe Vieira é jornalista.


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