Alquimia do feed
Artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração
O Brasil, em seus raros momentos de lucidez, já teve uma publicidade que respeitava a realidade. Em sua era de ouro, comunicar era traduzir a engenharia de um produto em benefício concreto, dentro de um pacto silencioso de honestidade em que o produto era o protagonista, o consumidor era tratado como adulto e o criativo apenas iluminava aquilo que já existia.
Hoje, assisto à decomposição de uma ciência nobre sequestrada pela pirotecnia corporativa e, de maneira ainda mais obscena, pela maquiagem estatal.
O país que sonhava produzir riqueza tornou-se especialista em produzir percepção para disfarçar a mediocridade do mundo real. Deixamos de ser a pátria da produção para nos transformarmos no país do feed perfeito.
É comum ouvir que “governos fazem marketing”. Não fazem.
Marketing pressupõe valor real, reputação construída e entrega verificável. O que existe na propaganda política estatal é outra coisa. É a tentativa sistemática de anestesiar a percepção coletiva.
E a indecência mora justamente em fazer isso num país cercado por carências elementares. O cidadão é obrigado a financiar, com o próprio imposto, a engenharia narrativa destinada a convencê-lo de que a deterioração ao redor não passa de pessimismo oposicionista. Não existe nome elegante para isso. Apenas a velha fraude embalada por fotografia cinematográfica, trilha inspiradora e atuação ensaiada.
O ápice desse estelionato estético invade a sala de estar. Peças publicitárias prometem uma espécie de milagre econômico infantil. O fim da escala 6x1 aparece embalado pelo slogan “menos trabalho, mesmo salário, mais vida”, como se produtividade pudesse ser abolida por decreto e riqueza pudesse nascer de locução emocionante.
O mais impressionante não é a fantasia. É a serenidade da encenação. Os vendedores dessa alquimia política empacotam ilusões econômicas com a naturalidade de quem anuncia um novo sabor de refrigerante.
Uma das degradações mais profundas do nosso tempo é que não se mente mais para esconder a realidade; mente-se para substituir a própria ideia de realidade.
O marketing de verdade existe para aproximar percepção e valor. A propaganda decadente faz o contrário, fabricando percepção para compensar a ausência de valor.
Existe uma regra quase infalível na vida pública. Quando um governo precisa gastar fortunas para convencer a população de que sua ficção é extraordinária, o problema nunca esteve na propaganda. Sempre esteve no produto.
O Brasil ainda não decidiu se quer voltar a construir riqueza no mundo real ou continuar aplicando filtros sobre o próprio colapso.
O clique fabrica aplauso por alguns segundos. É verdade. Só a realidade sustenta um país.

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