quarta-feira, 20 de maio de 2026

Confraria do buraco - Artgo de Alex Pipkin, PhD em Administração


Confraria do buraco

Alex Pipkin, PhD em Administração

Folhear análises políticas brasileiras às vezes se parece com abrir um velho jornal satírico esquecido num café enfumaçado.

Claro, falta apenas o vinho na taça enquanto algum analista solene explica, em tom professoral, que determinado político “precisa adquirir experiência administrativa”.

A piada da vez surgiu nos alertas dirigidos a Nikolas Ferreira e Cleitinho Azevedo. Segundo os estrategistas de salão, antes de voos maiores, ambos precisariam “criar casca”, assumir funções executivas e demonstrar capacidade de “fechar buracos”.

Há algo de lirismo verde e amarelo nessa tese.

O Brasil talvez seja o único lugar do planeta onde homens atravessam décadas habitando o Estado sem resolver segurança, educação, saneamento ou transporte e, ao final da devastação, recebem medalhas invisíveis de excelência gerencial.

Experiência em quê, exatamente? Confesso que, no Brasil, às vezes é preciso desenhar.

Fernando Henrique era sociólogo. Lula, sindicalista. Nenhum deles brotou de uma incubadora tecnocrática suíça com planilhas de produtividade sob o braço.

Ainda assim, tornaram-se sumidades da nossa liturgia republicana, essa curiosa religião civil onde conviver longamente com o fracasso estatal confere certificado automático de competência.

No dialeto de Brasília, “experiência administrativa” raramente significa eficiência. Significa intimidade com o labirinto. Saber quais portas abrir, quais crises empurrar adiante e, sobretudo, como embalar os empresários com “e” minúsculo, essa fauna anfíbia que prospera não pela inovação, concorrência ou mérito, mas pela promiscuidade obscena entre gabinetes, contratos nebulosos e balcões de influência.

Criamos a aristocracia do colapso gerenciado.

Nossos burocratas tornaram-se engenheiros da permanência. Convivem harmonicamente com o esgoto, o déficit, a estatal loteada e o asfalto lunar. Administram a tragédia nacional como mordomos de um castelo em ruínas, com elegância, discrição e absoluto desprezo pela realidade concreta.

É evidente que governar exige mais do que pirotecnia digital ou indignação performática. Exige líderes capazes de cercar-se de técnicos que conheçam profundamente suas áreas e atuem de maneira funcional, não como sacerdotes ideológicos fantasiados de gestores.

Chegou a hora de inverter o ônus da prova.

Não são os novatos que precisam justificar falta de rodagem na máquina.

São os veteranos do sistema que deveriam explicar sua vasta experiência em produzir um país que nunca funciona, o ad aeternum país do futuro.

No Brasil, “experiência administrativa” transformou-se na arte de passar a vida inteira ao lado do buraco sem jamais cair dentro dele.

E, evidentemente, sem jamais fechá-lo.


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