Opinião: Guerra no Oriente Médio: Brasil lucra, mas o povo sofre
27 Mai 2026
Ney Lopes
A guerra no Oriente Médio está remodelando a geopolítica global, e o Brasil se destaca nesse novo cenário. Entre as razões para essa posição privilegiada, estão o aumento das importações de petróleo bruto brasileiro pela China e pela Índia. Além disso, as jazidas de petróleo descobertas no Pré-Sal são de qualidade "leve", altamente desejada pelas refinarias estrangeiras. No entanto, esse petróleo é exportado sem refino, gerando dependência de produtos derivados importados.
A previsão de produção nacional é de 4,11 milhões de barris por dia, com 60% das exportações da Petrobras destinadas à China. Estima-se que, se o preço do barril atingir US$ 100, a receita gerada será equivalente a quase 1% do PIB. O Brasil emergiu como o principal beneficiário desse conflito, pronto para substituir o Oriente Médio como fornecedor principal para a Ásia.
O Bolso do Cidadão
Surge a pergunta: por que os lucros não chegam ao bolso do cidadão? A resposta está no paradoxo de um país que exporta cacau e importa chocolate belga. O Brasil se comporta como um gigante na extração, mas assemelha-se a um anão na capacidade de refinar. Décadas de erros políticos e falhas na gestão energética deixaram o país dependente da importação de 25% do diesel necessário para sustentar o agronegócio nacional. Assim, quando o conflito entre Estados Unidos e Irã faz o preço do barril disparar, o custo do combustível importado também sobe, gerando inflação e atormentando o consumidor.
A receita gerada pelas exportações de petróleo bruto é absorvida pelos cofres da Petrobras, destinada ao pagamento de impostos e royalties, além de ser utilizada pelo governo para cobrir “buracos” no orçamento. O dinheiro não chega ao trabalhador, mas sim ao balanço financeiro do Estado e das grandes corporações.
O Que Fazer?
A grande dúvida é como o Brasil deveria proceder. A solução parece evidente: investir em refinarias. No entanto, uma obra desse porte levaria de 7 a 10 anos para ser concluída e mais duas ou três décadas para se pagar. Até lá, o mundo já terá mudado. Projeções indicam que, até 2035, carros elétricos, híbridos e movidos a biocombustíveis dominarão o mercado, reduzindo a demanda por combustíveis fósseis. O risco é que uma nova solução já nasça obsoleta.
A verdade é que o Brasil colhe lucros na esfera internacional devido à guerra no Oriente Médio. Para que haja uma melhoria na qualidade de vida da população, serão necessárias novas soluções energéticas que façam do país um gigante no mapa global, beneficiando também quem trabalha e consome. Do contrário, persistirá o clássico cenário de uma "faca de dois gumes".

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