Temos de proteger nossas crianças. Urgente!
Renata Abreu*
21/05/2026
Existe algo profundamente errado em uma sociedade que não consegue proteger suas próprias crianças. E talvez a maior tragédia do nosso tempo seja perceber que estamos nos acostumando com o horror.
Nos últimos dias, assistimos estarrecidos ao caso de um menino de 11 anos encontrado morto dentro de casa, em São Paulo, depois de permanecer acorrentado, desnutrido e submetido a torturas pelo próprio pai, com a cumplicidade da madrasta e da avó. Um menino machucado, isolado, fora da escola e privado da própria infância.
É impossível não sentir revolta diante de uma barbaridade dessa dimensão. Mas também é impossível ignorar uma verdade ainda mais dolorosa: esse menino não é um caso isolado. Ele representa milhares de crianças brasileiras cercadas por medo, abandono e violência.
Chegamos a um tempo em que crianças apanham dentro de casa, sofrem abusos físicos, psicológicos e sexuais, são humilhadas nas escolas, perseguidas nas redes sociais e expostas diariamente a conteúdos violentos nas telas dos celulares. Meninos e meninas estão sendo induzidos ao ódio, à automutilação, à depressão e até ao suicídio. Existe uma geração inteira emocionalmente ferida diante dos nossos olhos.
E isso deveria nos envergonhar profundamente. Porque uma criança não consegue se defender sozinha da maldade humana. Ela depende integralmente da proteção dos adultos. Depende da família, da escola, do Estado e da sociedade. Quando essa rede falha, a infância vira território de sofrimento.
O mais revoltante é perceber que muitos desses casos dão sinais claros antes da tragédia acontecer. Crianças mudam o comportamento, demonstram medo, isolamento, tristeza profunda. O corpo fala. O olhar fala. O silêncio fala. Mas ainda vivemos em uma sociedade que prefere fingir que não vê. Que escuta gritos atrás da parede e decide não se envolver. Que vê hematomas e silencia. Que transfere para os outros a responsabilidade de proteger.
Não existe neutralidade quando uma criança está sendo destruída.
O Brasil precisa parar urgentemente de tratar a violência infantil como episódios isolados. O que estamos vivendo é uma crise moral, social e humana. E essa violência já não está apenas nas ruas ou em lares desestruturados. Ela também se esconde no ambiente digital.
Hoje, crianças convivem diariamente com desafios criminosos, manipulação psicológica, incentivo à automutilação e conteúdos perversos espalhados nas redes sociais. Nunca foi tão fácil acessar a mente de uma criança. E nunca foi tão difícil protegê-la.
Como parlamentar, representante dos brasileiros e, acima de tudo, como mãe, tenho lutado no Congresso Nacional pela aprovação urgente de medidas mais rígidas de proteção à infância e punições mais severas para crimes praticados contra crianças e adolescentes, incluindo propostas que tornam hediondos os atos de violência cometidos contra menores.
Quem agride, tortura ou mata uma criança não pode receber tratamento brando da legislação. Estamos falando de crimes praticados contra seres absolutamente indefesos e vulneráveis.
Essa não é uma pauta política. É uma obrigação moral.
Precisamos fortalecer os canais de denúncia, preparar escolas e profissionais para identificar sinais de violência, cobrar responsabilidade das plataformas digitais e construir uma cultura real de proteção à infância. Uma sociedade que perde a sensibilidade diante da dor de uma criança começa a perder também sua própria humanidade.
Milhares de crianças ainda crescem em ambientes de medo e violência. E nenhuma nação pode se considerar civilizada enquanto seus pequenos forem tratados dessa forma.
Toda criança merece crescer sabendo que existe um adulto disposto a protegê-la. E o Brasil precisa decidir, com urgência, de que lado está nessa luta.
*Renata Abreu é deputada federal por São Paulo e presidente nacional do Podemos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Este blog só aceita comentários ou críticas que não ofendam a dignidade das pessoas.