quinta-feira, 18 de junho de 2026

A vergonha mudou de endereço - Por Alex Pipkin, PhD em Administração


A vergonha mudou de endereço

Alex Pipkin, PhD em Administração

Às vezes tenho a sensação de viver uma versão coletiva de O Estranho Caso de Benjamin Button.

Não porque a humanidade esteja rejuvenescendo. Mas porque, pela primeira vez, uma sociedade inteira parece ter decidido transformar a adolescência em ideal de vida.

Durante séculos, crescer significava descobrir uma verdade desagradável. A realidade existe.

Ela não pergunta o que desejamos. Ela não consulta nossos sentimentos. Ela não negocia com convicções. Ela apenas existe.

Tornar-se adulto era aprender a conviver com isso. Era compreender que nem todo desejo é um direito, nem toda frustração é uma injustiça e nem toda crença resiste ao confronto com os fatos.

A civilização nasceu desse aprendizado. Foi o longo processo de ensinar seres humanos a trocar impulsos por responsabilidade, vontades por consequências e desejos por realidade.

Mas algo mudou.

Pela primeira vez, não exigimos que os desejos se adaptem ao mundo. Exigimos que o mundo se adapte aos desejos.

A realidade passou a pedir desculpas.

Os fatos tornaram-se acessórios.

A identidade passou a valer mais do que os argumentos.

E, de repente, sentir virou uma forma superior de saber.

Talvez por isso a grande mazela do nosso tempo não seja a ignorância. Ignorância sempre existiu.

O que existe hoje é algo mais sofisticado.

A renúncia voluntária à lucidez.

Nunca tivemos tanta informação, tantos especialistas e tantos instrumentos para compreender o mundo.

Ainda assim, multidões preferem o conforto psicológico do pertencimento ao desconforto intelectual da verdade.

Não buscam compreender; buscam pertencer.

E é justamente aqui que a vergonha mudou de endereço.

Durante séculos, sentia vergonha quem contrariava a realidade. Hoje, sente vergonha quem contraria a tribo.

A dissonância cognitiva transformou-se em esporte coletivo.

Nunca houve tanta inteligência disponível e tão pouca coragem para utilizá-la.

Pessoas brilhantes repetem absurdos para preservar aplausos.

Instituições fingem não ver o que veem.

Intelectuais fingem não saber o que sabem.

Não escrevo isso por nostalgia.

O passado foi tão imperfeito quanto o presente.

Escrevo porque nenhuma sociedade prospera quando transforma sentimentos em critérios de verdade, quando confunde compaixão com dependência, quando substitui responsabilidade por reivindicação permanente ou quando troca pensamento por sinalização de virtude.

Talvez eu esteja deslocado. Talvez seja apenas um adulto tentando permanecer adulto numa época que decidiu transformar a adolescência em projeto de sociedade.

Mas a realidade possui uma característica inconveniente.

Ela não participa de assembleias, não aceita moções de repúdio, tampouco se curva a narrativas.

Ela apenas envia a conta.

E a história mostra que, mais cedo ou mais tarde, toda civilização acaba pagando.

Afinal, a realidade tem muitos defeitos. Mas nunca teve o hábito de perdoar dívidas.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Este blog só aceita comentários ou críticas que não ofendam a dignidade das pessoas.

Busca