quinta-feira, 23 de julho de 2026

A arte de fabricar vilões - Artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial


A arte de fabricar vilões


Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial

Há filmes que não terminam quando os créditos sobem. Eles apenas mudam de palco.
Existe uma tecnologia de poder tão antiga quanto eficaz. Ela não elimina adversários pela força. Elimina-lhes a credibilidade até que a própria sociedade complete o trabalho. É essa a arte de fabricar vilões.
Assisti recentemente a A Casa (Hogar). O protagonista não conquista o que deseja pela força, pela inteligência ou pelo mérito. Conquista porque domina a arma mais poderosa do nosso tempo, o controle da narrativa. Manipula fatos, explora vulnerabilidades, fabrica versões, conquista a confiança das pessoas e conduz todos, quase sem resistência, à mesma conclusão. O inocente passa a parecer culpado; o culpado assume a aparência de homem íntegro.
No final, Javier não rouba apenas uma casa. Rouba a percepção da realidade.
O que mais inquieta em Javier não é sua inteligência. É a absoluta ausência de escrúpulos. A mentira deixa de ser um expediente ocasional e transforma-se em uma estratégia permanente de poder. Essa é uma das características mais perturbadoras de qualquer projeto movido pelo fanatismo, seja ele político, ideológico ou religioso.
Foi impossível não enxergar, naquela ficção, um retrato perturbador do quarto poder.
A imprensa nasceu para fiscalizar o poder e seu maior patrimônio sempre foi a credibilidade. Mas, quando parte da cobertura abandona a investigação para privilegiar um enquadramento previamente escolhido, deixa de disputar apenas a interpretação dos fatos e passa a disputar o poder mais valioso de todos, o de moldar a percepção da realidade, decidir quem será percebido como vítima, quem será condenado como agressor. E de quais perguntas simplesmente deixarão de existir.
É exatamente nesse tribunal invisível que também se trava a guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas.
Em fevereiro de 2024, Ghazi Hamad, dirigente do Hamas, afirmou conhecer o número de civis mortos em Gaza. Questionado sobre quantos integrantes do próprio Hamas haviam sido mortos por Israel, respondeu que isso era impossível de determinar em meio à guerra.
A pergunta nasce naturalmente. Se a guerra impede a própria organização de identificar quantos de seus combatentes - factualmente, terroristas - morreram, como permite apresentar, com semelhante segurança, números de civis? A questão não é apenas estatística. É uma questão elementar de coerência lógica. Ainda assim, essa contradição recebeu muito menos atenção do que os números que ajudava a sustentar.
Foi exatamente assim que Javier venceu em A Casa. Antes de destruir o adversário, destruiu sua credibilidade. Depois disso, a realidade deixou de importar, porque a narrativa já havia decidido quem seria o herói e quem deveria ocupar o papel do vilão.
As grandes mentiras da história dificilmente prevaleceram por conseguirem eliminar todos os fatos. Elas triunfaram porque convenceram milhões de pessoas de que já não era necessário confrontar a narrativa com a realidade. Quando isso acontece, a verdade deixa de ser descoberta e passa a ser decretada. Nesse momento, a informação deixa de iluminar os fatos e passa a escrever o roteiro deles.
Quando o roteiro substitui a realidade, a mentira já não precisa provar que é verdadeira. Basta ser repetida à exaustão até ocupar o lugar da verdade.

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