A culpa que nunca muda de endereço
Alex Pipkin, PhD em Administração
Existe uma impressionante regularidade na história. Mudam os séculos, mudam as ideologias, mudam os regimes políticos e mudam até os argumentos utilizados para justificar o preconceito, mas o personagem da acusação permanece o mesmo.
Poucos povos foram privados com tanta frequência do direito elementar à inocência coletiva quanto os judeus.
Já foram responsabilizados pela morte de Cristo, pelas pestes medievais, pela usura, pelo capitalismo, pela globalização e, agora, voltam a ser convocados ao banco dos réus pelos crimes do bolchevismo.
A acusação apenas acompanha o espírito de cada época. Para quem combate o capitalismo, os judeus tornam-se a personificação da riqueza, dos bancos e do mercado. Para quem combate o comunismo, transformam-se nos arquitetos da Revolução Bolchevique. A acusação muda de direção, mas nunca de destinatário.
A lógica jamais foi compreender a história. Sempre foi preservar um culpado.
É justamente por isso que inquieta assistir ao reaparecimento de narrativas que procuram atribuir a um povo inteiro responsabilidades por crimes cometidos por indivíduos e regimes.
O problema não está na investigação histórica, que deve ser ampla, rigorosa e livre de censura. O problema começa quando a pergunta deixa de ser “quem praticou os crimes?” para se transformar em “por que os judeus não são responsabilizados por eles?”.
Nesse instante, a conclusão já está escondida na própria pergunta, a história deixa de procurar responsáveis para procurar uma identidade coletiva e o indivíduo desaparece sob o peso da origem.
Nenhum outro povo é convocado com tanta frequência a responder pelos atos de pessoas que apenas compartilhavam sua origem.
A responsabilidade individual, fundamento de qualquer sociedade civilizada, cede lugar à confortável ficção de que a culpa pode ser herdada por nascimento e transmitida como um atributo coletivo.
Criticar governos é legítimo e indispensável em qualquer democracia. Outra coisa, profundamente diferente, é negar exclusivamente ao povo judeu aquilo que se reconhece como um direito natural para praticamente todos os demais povos: possuir uma pátria onde sua existência não dependa da tolerância, da compaixão ou da conveniência política dos outros.
O antissemitismo raramente se apresenta pelo próprio nome. Ele prefere vestir a linguagem da história, da política, da moral e até dos direitos humanos, porque descobriu, há muito tempo, que o preconceito mais eficaz não é o que grita, mas o que consegue se apresentar como uma interpretação respeitável da realidade.
É assim que a barbárie sobrevive. Ela não precisa convencer o mundo de que os judeus são culpados por um episódio específico. Basta convencer o mundo de que, aconteça o que acontecer, sempre haverá uma explicação plausível para transformá-los, mais uma vez, no bode expiatório da história.
Essa é uma forma sofisticada do preconceito, porque já não exige que as pessoas odeiem os judeus.
Basta convencê-las de que sempre existe uma boa razão para culpá-los.
Os séculos passam, as acusações mudam, mas o endereço da culpa continua sendo o mesmo.

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