domingo, 5 de julho de 2026

A servidão da solidariedade - Artigo de Alex Pipkin, PhD em Administração


A servidão da solidariedade

Alex Pipkin, PhD em Administração

Uma das maiores vitórias do populismo foi deslocar o centro do debate público. A pobreza deixou de ser o grande problema nacional; a desigualdade passou a ocupar esse lugar. Parece uma simples mudança de foco, mas dela nasceu uma nova forma de exercer poder.

A pobreza é a verdadeira tragédia humana. A desigualdade acompanha qualquer sociedade livre, dinâmica e inovadora. Confundir uma com a outra significa abandonar a causa para discutir apenas seus efeitos, substituindo a criação de prosperidade pela redistribuição de uma riqueza que cresce cada vez menos.

Foi dessa inversão que surgiu uma engenharia política particularmente eficiente. Enquanto amplia benefícios, subsídios e gratuidades, o Estado enfraquece silenciosamente os pilares que tornariam essa proteção cada vez menos necessária, como a responsabilidade fiscal, a segurança jurídica, o investimento, a produtividade, o empreendedorismo e o crescimento econômico.

O Estado não produz riqueza; depende daquela que a sociedade produz. Quando passa a consumir uma parcela crescente dessa riqueza sem criar condições para ampliá-la, a prosperidade cede lugar à escassez.

A conta reaparece na perda de confiança, nos juros elevados, no baixo investimento, no crescimento medíocre e nas oportunidades que simplesmente deixam de existir.

A armadilha, porém, é mais profunda do que econômica. A dependência prolongada modifica a forma como o cidadão percebe o Estado. Ele deixa de enxergá-lo como instrumento da sociedade e passa a vê-lo como condição da própria existência. A autonomia parece arriscada, enquanto a política social, concebida para ser uma ponte rumo à independência, transforma-se em tutela permanente.

Uma sociedade verdadeiramente solidária mede seu êxito pelo número de pessoas que conseguem deixar os programas assistenciais porque encontraram trabalho produtivo, renda, patrimônio e autonomia. A função mais nobre da política social é tornar-se, pouco a pouco, menos necessária.

O populismo compreendeu que a necessidade cria vínculos políticos mais duradouros do que a força.

O medo produz obediência; a dependência produz gratidão.

O cidadão convencido de que sua autonomia depende da benevolência do Estado dificilmente perceberá o instante em que deixa de ser plenamente livre.

A mais refinada perversidade do populismo consiste justamente nisso: transformar a solidariedade, que deveria libertar, em um instrumento permanente de tutela.


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