A feiura como virtude gerencial
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
Existe uma lição sutil na arquitetura. Edifícios modernos podem ser esteticamente horrorosos e continuar de pé, mas pontes precisam prestar contas à realidade. Na engenharia, falhas estruturais cobram um preço imediato. A gravidade não aceita jargões, não frequenta congressos e jamais concorda com o chefe para proteger a carreira.
Nas empresas ocorre o oposto. A feiura intelectual desfruta de um ecossistema extraordinariamente confortável.
O ser humano é tribal antes de ser corporativo. Quer pertencer, assimilar códigos e sinalizar alinhamento.
Observe por um momento os ambientes de inovação. Empenhados em celebrar a ruptura, usam o mesmo vocabulário, leem os mesmos autores, frequentam os mesmos eventos e até se vestem igual. A corporação conseguiu padronizar até a rebeldia.
DiMaggio e Powell explicaram em 1983 como organizações de um mesmo setor se tornam progressivamente parecidas. A velha gaiola institucional ganhou decoração futurista. Benchmarking, consultorias e metodologias ágeis ampliam repertórios, mas também servem como blindagem.
Fracassar acompanhado é profissionalmente seguro; ter razão sozinho é um risco inaceitável. O consenso se converteu em uma apólice de seguro contra a demissão. Se todos erraram juntos, o desastre ganha contornos de prudência.
Por isso o dissidente experiente incomoda. Não porque tenha sempre razão, mas porque já viu modismos nascerem com nomes em inglês e morrerem sem deixar valor. A experiência não garante o acerto. A conformidade garante ainda menos.
Inovar não é substituir o que envelheceu. É saber o que precisa mudar sem desaprender o que continua verdadeiro.
Criou-se uma aberração gerencial em que executivos estão hiperatualizados no vocabulário do futuro, porém desarmados para lidar com a velha natureza humana. O premortem de Gary Klein permanece subversivo justamente porque faz algo quase proibido, autorizando pessoas inteligentes a imaginar que a unanimidade da mesa pode estar tragicamente errada.
Quem acredita que inovar exige esquecer o passado está condenado a reinventar, com nomes novos, os erros antigos.
Agora, a inteligência artificial pode acelerar essa conformidade. A IA barateia a análise e oferece respostas extraordinárias, mas pode fornecer também o álibi definitivo: “foi o que o algoritmo recomendou”.
O conhecimento se transformou numa commodity. O julgamento independente tornou-se a escassez crítica.
Aí está o paradoxo gerencial do nosso tempo. Nunca tivemos tanta inteligência disponível e nunca foi tão fácil encontrar boas razões para não pensar por conta própria.
A inovação autêntica não emerge do vocabulário da inovação, mas da coragem de sustentar o contraditório quando concordar seria muito mais conveniente.
Quando discordar custa a carreira, o ordinário ganha status, a covardia veste-se de prudência e a feiura intelectual torna-se virtude gerencial.

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