quarta-feira, 5 de agosto de 2026

“Família, torna-te aquilo que és!” - Artigo de Dom Anuar Battisti, Arcebispo Emérito de Maringá (PR)


“Família, torna-te aquilo que és!”

Dom Anuar Battisti

Arcebispo Emérito de Maringá (PR)

 04/08/2026

Ao completar sua 30ª edição no Brasil, a Semana Nacional da Família de 2026 apresenta uma proposta de altíssima densidade teológica e pastoral. Organizada pela Comissão Nacional da Pastoral Familiar da CNBB, a edição deste ano traz como tema “Família, torna-te aquilo que és” e como lema bíblico “O amor jamais acabará” (1 Coríntios 13, 8).

Trata-se de um perfil de proposta que se recusa a ficar na superficialidade: o texto convoca a família a olhar para o espelho do Evangelho, redescobrir sua vocação original e firmar-se no amor de Cristo diante das tempestades da contemporaneidade. O tema escolhido para 2026 recupera uma das frases mais emblemáticas do Magistério da Igreja sobre a família, formulada por São João Paulo II na Exortação Apostólica Familiaris Consortio. A escolha é profética, pois coincide com a celebração dos 45 anos da Familiaris Consortio e com os 10 anos da Exortação Apostólica Amoris Laetitia do Papa Francisco.

Esta proposta imperativa exige da família cristã uma tomada de consciência, pois não é um mero apelo moralista, mas ontológico. A família não precisa inventar uma nova identidade a cada mudança de vento cultural; ela precisa assumir o que Deus já planejou para ela. Deve configurar-se, assim, como um antídoto contra a desconstrução. Em tempos nos quais o conceito de família é frequentemente esvaziado, a Igreja recorda que a família é a célula mãe da sociedade e a Igreja Doméstica.

A proposta para este ano decorre de um chamado à conversão contínua, considerando que “Tornar-se” é um verbo de processo. Significa que o lar é uma oficina diária onde o perdão, a paciência, o diálogo e a fidelidade são lapidados continuamente. O lema bíblico – “O amor jamais acabará” (1Cor 13,8) – extraído do Hino à Caridade de São Paulo oferece o alicerce espiritual necessário para sustentar o tema.

Diante de um mundo onde os relacionamentos se tornaram frágeis, descartáveis e “líquidos”, a Palavra de Deus proclama uma verdade contra-cultural: o amor autêntico é definitivo. Este lema injeta esperança nos lares, lembrando que as crises financeiras, as divergências de geração e os desgastes do tempo não têm a última palavra quando a família está fundamentada no amor que vem da Cruz e da Ressurreição.

A proposta da Semana da Família 2026 toca nas feridas mais abertas da sociedade contemporânea, oferecendo remédios pastorais concretos com respostas à crise de pertencimento e conectividade vazia. As famílias de hoje vivem frequentemente hiperconectadas digitalmente, mas profundamente isoladas no plano afetivo. O apelo a “tornar-se o que se é” convida os lares a reestabelecerem a mesa

do jantar, o abraço físico, a escuta atenta e a oração em conjunto como espaços sagrados de comunhão.

A proposta caminha ainda lado a lado com a defesa da dignidade humana em todas as suas etapas. A família que sabe quem é torna-se um escudo protetor para os filhos contra as ideologias desumanizantes e um porto seguro de acolhimento e respeito para os idosos. A vulnerabilidade econômica, o desemprego, as enfermidades mentais (como ansiedade e depressão entre os jovens) e as tensões conjugais são investidas reais. O lema “O amor jamais acabará” garante que a família católica não está abandonada à própria sorte: na graça dos sacramentos, os casais e pais encontram o sustento sobrenatural para recomeçar todos os dias.

A Semana Nacional da Família de 2026 traça um perfil corajoso, denso e profundamente esperançoso. Ela não mascara as dores das famílias, mas recusa-se a entregá-las ao desânimo. Ao proclamar “Família, torna-te aquilo que és” e testemunhar que “O amor jamais acabará”, a Igreja lança um clarão de luz sobre a sociedade: a família é, e continuará sendo, a maior riqueza de um povo, o santuário da vida e o caminho privilegiado para a santidade.


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