sexta-feira, 7 de agosto de 2026

FRUTOS DA EMOÇÃO - Do poeta e escritor Carlos Alberto Lima Coelho


FRUTOS DA EMOÇÃO

Carlos Alberto Lima Coelho, poeta e escritor 

“Sonha, poeta, sonha! Aqui sentado, no tosco assento da janela antiga, apoias sobre a mão a face pálida, sorrindo — dos amores à cantiga.” Álvares de Azevedo

Há lembranças que não envelhecem. Permanecem guardadas em algum lugar da alma, como antigas canções esperando apenas que alguém gire o botão do rádio para voltarem a tocar.

Grande parte das minhas poesias e crônicas nasceu assim: entre a solidão de uma madrugada, a ternura de uma lembrança e o desejo de transformar sentimentos em palavras. Algumas foram publicadas em livros e sites; outras ganharam vida através da voz, declamadas em programas românticos das emissoras de rádio de São Luís.

Naquele tempo, o rádio era mais do que um aparelho. Era companhia, confidente e mensageiro. Havia noites em que uma poesia parecia atravessar a cidade inteira, entrando silenciosamente pelas janelas e alcançando corações que talvez estivessem sofrendo, amando ou simplesmente esperando.

Programas como “Eu, Você e o Amor”, na Rádio Educadora do Maranhão, apresentado por Herbert Pereira; “Capital Romântica”; “Eu, Você e a Noite”, na Rádio Difusora; e “Tudo Dentro da Noite”, na Rádio Timbira, tornaram-se espaços onde a emoção encontrava abrigo.

As poesias chegavam aos ouvintes e, de alguma maneira, retornavam para nós por meio de cartas e telefonemas. Eram pedidos, confidências, declarações e histórias de amor. Algumas composições eram criadas especialmente para alguém que desejava dizer o que não conseguia expressar com suas próprias palavras. Outras serviam como introdução para músicas que marcavam namoros, reencontros, despedidas e paixões impossíveis.

Muitas nasceram da emoção imediata. Outras, da tensão de um instante, de uma saudade inesperada ou de um rosto que permaneceu na memória. O poeta, afinal, escreve porque alguma coisa dentro dele transborda.

A Rádio Timbira foi a última emissora em que trabalhei. Depois de quinze anos afastado dos microfones, retornei atendendo ao convite do jornalista Raimundo Filho, então diretor da emissora. No dia 19 de maio de 2008, voltei ao ar para apresentar o programa “Timbira Dentro da Noite”.

Era também uma forma de reverenciar a marca deixada pelo saudoso Elbert Teixeira, com o inesquecível “Timbira Faz Amigos — Tudo Dentro da Noite”.

Durante alguns anos, as noites voltaram a ser povoadas por mais de trinta músicas, poemas e crônicas do meu acervo particular. Voltaram também as cartas, os telefonemas, as histórias, os amores e as paixões. Cada ouvinte parecia trazer consigo um pequeno universo, e cada poesia encontrava um destino diferente.

O microfone, naquele tempo, não transmitia apenas sons. Transmitia esperanças. Do outro lado, alguém escutava no silêncio do quarto, talvez com os olhos marejados, acreditando que aquelas palavras haviam sido escritas especialmente para sua história.

E talvez tivessem sido.

Porque a poesia possui esse mistério: nasce no coração de uma pessoa, mas pode morar no coração de muitas outras.

Hoje, ao revisitar essas lembranças, percebo que nenhuma daquelas noites desapareceu completamente. Elas continuam guardadas na memória, misturadas ao chiado das antigas frequências, ao som das canções e às vozes dos ouvintes que transformaram os programas em encontros de almas.

Por isso resolvi abrir novamente as gavetas do tempo. Entre papéis amarelados, versos esquecidos e emoções ainda vivas, encontrei algumas das inspirações que mais marcaram aquela trajetória.

Reuni-las nesta edição não é apenas publicar poesias. É devolver voz a sentimentos que um dia percorreram as ondas do rádio.

São palavras nascidas de amores, saudades, sonhos e paixões.

São, sobretudo, frutos da emoção.

Carlos AL Coelho


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