Memória: "O dia em que encontrei na favela filha de Tobias Barreto"
14 Ago 2026
Ney Lopes*
Memória, história, hoje
Em 1965 transferi-me para residir em Recife e prosseguir estudos na Faculdade de Direito de PE. Passei a integrar a equipe de reportagens especiais do Jornal do Comércio, dirigida pelo jornalista Zezito Maciel, irmão de Marco Maciel. Era diretor-secretário do jornal o conceituado jornalista Esmaragdo Marroquim, figura influente no meio intelectual e cultural de Pernambuco, junto a escritores, imprensa e nomes de destaque como Ariano Suassuna e Mário Melo. Convidado, passei a integrar a equipe de repórteres da sucursal nordeste da Folha de SP, dirigida pelo conterrâneo Calazans Fernandes. Lá trabalhei ao lado do também amigo e conterrâneo Gaudencio Torquatto, hoje consagrado analista político do país.
Recebi na redação, a missão de localizar o paradeiro de “descendentes diretos” de Tobias Barreto, jurista pernambucano, filósofo, poeta, crítico, professor de Direito. considerado o fundador da Escola do Recife e um dos maiores intelectuais da história do Brasil, além de patrono da cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Letras.
Barreto tinha origem humilde e a sua pele escura foi usada socialmente para discriminálo, inclusive dificultando casamento com família aristocrática. Tornou-se defensor de negros e escravizados, incluindo atuação jurídica abolicionista. No Memorial da Justiça de Pernambuco consta a ação de liberdade do escravo Simplício Manuel, denominada “Uma questão de Justiça”, proposta por Tobias Barreto.
A investigação começou do zero. Madruguei por semanas, caminhando pela periferia do Recife, até que um oficial de Justiça me deu a pista decisiva. Encontrei dona Calíope Barreto, filha de Tobias, aos 68 anos, vivendo em um quarto miserável numa favela. Sobrevivia como “pensionista da caridade pública”. A herdeira de um dos maiores pensadores do país estava confinada à invisibilidade. Com o fotógrafo Clodomir Leite, levei dona Calíope para um “roteiro da saudade” pelas ruas do Recife. Na Faculdade de Direito, emocionada, relembrou o pai e disse apenas: “Ele sofreu muita inveja”. Era a síntese de uma vida marcada por grandeza intelectual e pequenas mesquinharias sociais
O abandono a que estava submetida gerou forte comoção na opinião pública pernambucana. O impacto da matéria e o apelo humano da história fizeram com que grandes veículos de circulação nacional se interessassem pelo caso. “O Cruzeiro”, na época a principal revista do país, adquiriu os direitos de republicação da reportagem.
A Academia Pernambucana de Letras (APL), por sugestão de acadêmicos que reconheceram o valor documental e histórico do fato, publicou a reportagem em sua revista. O poder público estadual mobilizou-se para amparar dona Calíope. Foi autorizada a doação de uma casa e pensão mensal pelo governador Paulo Guerra, assessorado pelo secretário de Justiça, Dr. João Roma e o secretário Assistente, Marco Maciel.
Hoje, ao revisitar essa memória, agradeço a Deus a oportunidade de ter contribuído para restaurar um capítulo esquecido da história brasileira. Tobias Barreto continua iluminando a cultura nacional — e sua filha, resgatada da penúria, devolveu ao país a chance de honrar esse legado.
*Ney Lopes é escritor, jornalista e poeta: ex-deputado federal

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