O país perdeu. Eles ganharam.
Alex Pipkin, PhD em Administração e Consultor Empresarial
Escrevo todos os dias. Ontem, pela primeira vez, me perguntei se ainda vale a pena. Vou repensar.
Recebi mensagens em tom de deboche: “Viu só? Nós ganhamos”. Como se a eleição fosse final de campeonato e a conta que virá pudesse ser empurrada para a torcida adversária. Chocante.
Ganharam o quê? O direito de comemorar enquanto o país empobrece? A licença para chamar de vitória uma escolha que cobra seu preço na moeda, na renda, no trabalho e no futuro dos próprios vencedores?
Não sou bolsonarista. Não tenho político de estimação, não me ajoelho diante de sobrenome nem confundo voto com absolvição.
Apoiei a alternativa que, a meu juízo, ainda preservava algum compromisso com a responsabilidade econômica e a liberdade de produzir. Fiz uma escolha pragmática. O que não farei é fingir que o resultado transforma erro em acerto ou irresponsabilidade em projeto. Tenho princípios basilares.
O Brasil não está à beira do abismo. Já vive nele, e ainda há quem confunda a queda com uma vitória.
As instituições se corroem pela conveniência, a justiça se submete à ocasião e a política vende benefícios no presente, deixando para quem trabalha a conta do futuro. A tragédia é que tanta gente se acostumou, inclusive os mais dotados, com o cenário bizarro. Pior do que isso, aprendeu ainda a festejá-lo.
Acredita-se que o Estado pode gastar sem limite, que a máquina pública pode crescer sem produzir, que responsabilidade fiscal é frescura de economista e que alguém, em algum lugar, pagará pela festa do “ódio do bem”.
Pagará, sim. Não a “elite” petista instalada no poder, protegida por privilégios e distante da vida real. Nem o militante que escreveu “nós ganhamos”, convencido de que a conta sempre chega para os outros. Será o cidadão diante do mercado, do aluguel, do imposto, do salário que compra menos a cada mês, da genuína vida vivida.
É isso que me cansa. Não a discordância, que faz parte da vida social, mas a alegria de quem celebra sem saber o que está celebrando.
A servidão mais eficiente não precisa de correntes quando o prisioneiro chama a cela de vitória e ainda debocha de quem aponta a porta fechada.
Eu gostaria de estar errado. Não escrevo como profeta, nem sinto prazer em prever o que pode dar errado.
Escrevo porque ainda me revolta ver um país trocar prudência por torcida e chamar de conquista a própria ruína.
Eles ganharam a eleição. O país ficou com a conta.
Ah, e o deboche não paga nem os juros.

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