Na teoria, não é difícil apontar diferenças entre uma quadrilha e um partido político. Os manuais de Direito Penal ensinam que quadrilha é uma associação com o objetivo de praticar crimes. Os professores de ciência política sustentam que um partido age dentro dos preceitos legais, com a finalidade de disputar, conquistar e exercer cargos públicos. O sonho de quem ingressa num partido político é comandar a máquina estatal e, quanto a isso, não há nada de ilícito. Enquanto a quadrilha existe para delinquir, o partido existe para alcançar e manter o poder, nos marcos da normalidade do estado de direito.
Na prática, as duas entidades às vezes se misturam. Quando
as duas estruturas se enamoram, as pernas de uma se trançam nas da outra e
geram uma confusão medonha. O noticiário sobre a roubalheira na Petrobras – que
parece um filme sobre o fim do mundo, umApocalipse now em que as engrenagens da
corrupção, azeitadas com óleo cru, vão moendo as instituições nacionais – é
mais uma prova disso. Onde terminam as quadrilhas e onde começam os partidos?
O tema não é inócuo, nem fácil, nem indolor. Qual a
diferença entre uma agremiação política em que alguns são corruptos e uma
organização criminosa em que alguns são políticos? A pergunta machuca. Muita
gente boa, gente com biografia limpa, até mesmo heroica, preferia não dar
ouvidos a essa indagação. Mesmo assim, a pergunta queima a pele de cada um de
nós, como o sol a pino de verão. Não dá para ignorá-la. Da resposta que
soubermos dar a essa interrogação dependerá o futuro da democracia em nosso
país.
Os matemáticos se deliciam com perguntas parecidas, mas sem
as mesmas consequências morais. Especulam sobre o problema do monte de areia. A
questão é intrigante, de difícil solução. Um monte de areia continuará sendo um
monte de areia, mesmo se tirarmos de cima dele uma ou duas colheres de
grãozinhos que lá estão. Mesmo depois de tirarmos um balde, ou muitos baldes,
lá estará nosso monte de areia, ainda digno desse nome. A partir de um ponto,
se não pararmos de subtrair areia, ele deixará de ter o aspecto de um monte e
ficará com cara de areia espalhada no chão. O problema reside em saber
exatamente o número que separa uma coisa (o monte de areia) da outra (areia
espalhada no chão). Quantos grãos de areia são necessários para que tenhamos um
monte de areia?
O mesmo raciocínio vale para a água. Você pode tirar
piscinas e mais piscinas de uma represa, nem por isso ela deixará de ser uma
represa. De repente, a gente se dá conta de que a represa começou a secar. Num
belo – e triste – dia, a gente percebe que o mar virou sertão. Aí, já era.
Voltemos então a nossos partidos políticos. Primeiro,
aparece lá um ladrão, mas os filiados dão de ombros. As desculpas são
conhecidas: “Até no Vaticano existe corrupção”; “A classe dominante rouba muito
mais” (nos partidos de esquerda); “É só para complementar meu caixa, se eu
estivesse na iniciativa privada ganharia dez vezes mais” (nos de direita); “Ele
não pegou para ele, foi só para o partido”; “É só uma reserva para a gente
pagar advogados”.
A coisa vai indo, vai indo, até que fica impossível saber se
a corrupção é mesmo um “mal necessário” para pôr em prática o programa político
do partido ou se é o programa político que está a serviço da corrupção. O roubo
é necessário para assegurar a perpetuação no poder. Ou o poder se faz
necessário para garantir a perpetuação do roubo? E então? Que linha que separa
uma coisa da outra?
Para complicar nossa equação, aqui os números não ajudam
tanto. A resposta depende de quem faz a pergunta. Aos olhos de uma formiga, um
punhado de areia é uma cordilheira. Aos olhos de um elefante, um monte de areia
é desprezível. Se o eleitor não liga, a incidência dos ladrões na política será
maior. Se a comunidade fiscaliza, será menor. A linha que separa um partido
ainda saudável de uma quadrilha inescrupulosa não pode ser dada por um critério
absoluto. Depende da consciência de cada um de nós. Você, por exemplo: até onde
você vai? Até que ponto suporta o mau cheiro?
Nosso maior desafio, hoje, é construir, a partir de nossos
limites pessoais, um limite que tenha uma validade coletiva, institucional.
Quase todos concordam que o melhor lugar do ladrão na política é fora dela. Na
cadeia, de preferência. A gente não sabe é dizer o que distingue uma quadrilha
de um partido político. Por isso, não consegue saber quem deve sair e quem deve
ficar.
(Este artigo de Eugênio Bucci, Jornalista e Professor na
USP, foi publicado originalmente na revista Época, edição de 08.12.14).
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Este blog só aceita comentários ou críticas que não ofendam a dignidade das pessoas.