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quinta-feira, 4 de junho de 2015

DISPLICÊNCIA OU INCOMPETÊNCIA OU DESCORAGEM

(*) Mhario Lincoln


Olho para Curitiba (PR) onde moro hoje e me lembro de quando cheguei aqui há 11 anos com aquela ideia nordestina de que a capital do Paraná era realmente um Eldorado. Isso porque fui convencido pelo então ex-prefeito, depois governador, urbanista Jaime Lerner, através da vasta propaganda de TV, rádio e jornal que Curitiba era o novo Eldorado brasileiro.

O tempo passou e hoje sinto nas veias o que Curitiba se transformou, mesmo que, ainda, seja uma cidade superinteressante e muito bem urbanizada. Paramos aí! Mas se compararmos inúmeras outras capitais brasileiras (falo somente das capitais) a história vai se tornando triste e sinistra ao mesmo tempo.

E de quem é a culpa? Não entro nos detalhes políticos. Quero discutir aqui, nestas minhas poucas linhas, a questão humana e social. E são exatamente esses arcabouços não tão complexos que muitos dos atuais prefeitos não se alinhavam. Por isso o título. Seria por displicência, incompetência ou Descoragem (pós-campanha eleitoral e encarando a realidade nua e crua da cidade?).
Imagina-se ser o Brasil um país rico. Bilionário, a começar pelo espírito de seu povo e pela subserviência da sua maioria eleitoral. Mesmo assim (e por causa disso), os dirigentes municipais se acercam de projetos inacabados e ilusões de ótica para mostrarem a essa parcela subserviente, ora, que falta dinheiro para investimento, ora porque planejam bem e demoradamente para construírem algo definitivo para a melhoria do povo.

Balela! Quem quer faz. Com pouco dinheiro faz. E esse pouco é muito, se analisarmos taxas e impostos municipais, verbas federais etc., recebidas mensalmente. Pois bem. Agora eu pergunto: Por que lá fora costuma ser diferente?

Exemplo maior está vindo agora da cidade de Barcelona, na Espanha, cuja população da região briga, inclusive, para se separar dos mandos do Rei. Navegando no Youtube, vi um discurso de um dos candidatos à Prefeitura de Barcelona. E esse foi um dos motivos para escrever este texto. Atitudes como vou relatar abaixo, talvez tenham origem na formação sócio-humana das pessoas daquele lado do Mundo, que incidam em decisões como essas, as quais cito agora, através das palavras da jornalista Mariana Bastos, publicada na revista Carta Capital.

“Eu ia embora caminhando para pegar meu filho no colégio depois da entrevista, e o jornalista me disse: ‘Vou te acompanhar. Você não pode ir sozinha. Alguém pode te atacar’”, contou entre risadas Ada Colau, (foto) a recém-eleita prefeita de Barcelona, em um comício. “Disse que não queria sua companhia. Quero fazer política de forma diferente, poder caminhar na rua como prefeita, buscar meu filho no colégio. ”

A anedota revelada durante a campanha é apenas um exemplo entre tantos do que Colau e a coalizão da qual faz parte, a Barcelona en Comú, pretendem: uma nova forma de fazer política que sirva de referência para o mundo.

A cidade, que nas últimas décadas apresentou-se como um modelo urbanístico a ser seguido, sobretudo por aquelas interessadas em sediar os Jogos Olímpicos (incluindo o Rio de Janeiro), foi também fortemente afetada pela crise econômica. A retração da economia iniciada em 2008 deixou um rastro de despejos, altas taxas de desemprego da população jovem e aumento da desigualdade social. Nos últimos quatro anos, a diferença de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres da cidade cresceu 40%.

Segundo ela, a cidade tem condições para mudar essa situação e pode ser exemplo de governar com cidadania. “Em Barcelona, temos um tecido social militante e organizado acima da média de outras cidades e esse é nosso maior tesouro”, afirma. “Se você consegue liderar um projeto coletivo no qual todos contribuem com um grão de areia, você tem a garantia de êxito”.

O programa de governo do Barcelona em Comú indica que a proposta pode ter efeito. A plataforma foi costurada nos últimos sete meses contando com ampla participação popular, sobretudo das associações de bairro e de representantes de movimentos sociais (imigrantes, LGBTs, feministas, entre outros). A forma de organização do Barcelona em Comú foi marcada pela horizontalidade, compondo uma rede. Tudo para atender os anseios de uma juventude que reivindica participação política.

Entre as propostas da coalizão e da nova “alcaldessa” estão o banimento dos carros oficiais para autoridades e um teto salarial de 2,2 mil euros líquidos (cerca de 7,6 mil reais). O valor é bem inferior ao que ganha o atual prefeito, Xavier Trias (cerca de 11 mil euros). É baixo até mesmo para os padrões brasileiros. Fernando Haddad (PT), prefeito de São Paulo, por exemplo, ganha cerca de 23 mil reais por mês. “Parece pouco, mas mais da metade dos habitantes de Barcelona vive com menos de mil euros por mês”.

Alçada a grande fenômeno eleitoral da Espanha no domingo 24, do mês passado, a jovem política de apenas 41 anos é o símbolo maior dessa transformação. Feminista, criada em um bairro de classe média baixa, ex-líder de uma organização de defesa dos despejados pela hipoteca, militante dedicada de direitos humanos, Colau tem um perfil que em muito destoa dos engravatados costumeiramente eleitos para postos governamentais.

Bom, de uma coisa algo se sobressai para, pelo menos, explicar o inexplicável. Seria, aqui no Brasil, muito mais Displicência ou Incompetência ou Descoragem ou muitos, mas muitos dos políticos/executivos sempre, sempre e sempre, invés de misturarem-se aos problemas do povo - ou ao povo e ir buscar os filhos no colégio ou sentar num banco no meio da praça como um cidadão que está à serviço do povo e não o inverso – ele faz é contratar seguranças, comprar carros blindados, aumentar seus próprios salários com corrupção e propinas, mudar de moradia, trocar a chave da fechadura do coração e sempre, sempre e sempre, colocam a instituições acima de suas personalidades, como se a partir de suas eleições, a cidade ou estado ou o país fossem exclusivamente patrimônios seus, sob suas ordens, sob seus caprichos, sob suas orientações e ponto final.

É, talvez a formação sócio-humana influencie as cabeças executivas deste país. Já em Barcelona, outras cabeças também influenciaram a formação política por lá. Mas de certa forma, bem diferente da nossa. Afinal, encerro o texto com a declaração da nova prefeita de Barcelona que disse à repórter, citada no primeiro parágrafo deste texto:

“Nossa campanha tem muito a ver com os processos de mobilização cidadã dos últimos anos, cujo ápice foi o 15M, no qual as pessoas saíam às ruas para dizer: ‘essas instituições não nos representam’", afirma. "E denunciavam que havia uma convivência muito forte entre os poderes econômicos e os principais partidos [PSOE e PP] que governaram nos últimos 40 anos. As instituições não estão à altura da sociedade atual. Temos de atualizá-las, democratizá-las e colocá-las a serviço das pessoas”, afirmou Colau, que saiu às ruas durante o 15M mesmo tendo um bebê de um mês em casa.

Lá, quando a coisa está errada, mudam. Aqui, presenteiam com mais 4 anos. Brutal diferença.

Mhario Lincoln, jornalista sênior.

Editor do site www.domeulivro.com.br

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