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terça-feira, 27 de outubro de 2015

A onça está desaparecendo do Nordeste brasileiro

Inventário de animais da Caatinga do RN registrou apenas uma onça-parda. A onça-pintada não é avistada há décadas

BRUNO CALIXTO (ÉPOCA - Blog do Planeta)


 Uma onça-parda identificada em armadilha fotográfica em área de Caatinga do Rio Grande do Norte. Espécie é rara na região (Foto: Projeto Caatinga Potiguar)

A onça é um dos felinos mais característicos do Brasil, presente em todos os biomas. No semiárido brasileiro, entretanto, sua situação é crítica. A onça-pintada (Panthera onca) é considerada como "Criticamente em perigo", e a onça-parda (Puma concolor) é definida como "Em perigo". Um novo estudo feito na Caatinga do Rio Grande do Norte confirma a situação e mostra que esse carismático felino corre o risco de desaparecer do Nordeste brasileiro.

O estudo é o maior inventário de mamíferos feito na Caatinga. Ele foi elaborado pela ONG Wildlife Conservation Society (WCS-Brasil) e pelo órgão ambiental estadual do Rio Grande do Norte, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente (Idema). Segundo Carlos Fonseca, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e um dos autores do estudo, o objetivo é entender a atual situação dos animais da região para saber quais as oportunidades para preservar espécies. "A Caatinga tem sido negligenciada em termos de proteção de biodiversidade. A ideia foi coletar dados para identificar as melhores estratégias para a conservação."

Para fazer o inventário, os pesquisadores instalaram armadilhas fotográficas em vários pontos de mata natural. Quando um animal passa por essas armadilhas, ela tira uma foto. Assim, eles conseguem identificar os animais de médio e grande porte. Foram 2 mil registros de 14 espécies de mamíferos e mais de 180 espécies de aves. O método, infelizmente, não consegue capturar animais de pequeno porte, mas ter o registro de grandes felinos já é um indicativo da qualidade ambiental da área, porque são predadores de topo da cadeia. Se os predadores aparecem nas fotos, é sinal de que as presas também estão por lá.

E aí que está o problema. O estudo identificou um número muito menor de predadores do que o esperado. "Nós conseguimos registrar muitas espécies, mas o que chama a atenção, na verdade, é o quanto algumas espécies estão raras. Com todo esse esforço, nós só registramos uma onça-parda. A onça-pintada já não existe mais no Rio Grande do Norte provavelmente há décadas", diz Fonseca. O problema se repete com outros mamíferos. Animais emblemáticos, como tamanduá-bandeira ou o tatu-bola, também não foram registrados.

Área de Caatinga em Martins, no Rio Grande do Norte. Semi-árido também tem paisagens exuberantes (Foto: Carlos Roberto Fonseca)

 Veado-caatingueiro identificado em armadilha fotográfica em área de Caatinga do Rio Grande do Norte (Foto: Projeto Caatinga Potiguar)

A situação no bioma é crítica por conta de dois fatores. Um deles é a caça, ainda muito presente na região. O outro é o desmatamento. A Caatinga já perdeu 50% de sua área natural. Ela está no "meio do caminho" entre a Amazônia, que perdeu cerca de 18%, e a Mata Atlântica, que perdeu quase 90%. Por isso, segundo Marina Antongiovanni, da WCS-Brasil, a região precisa de uma estratégia específica para conservação. "A Caatinga existe no imaginário como uma área pobre e de secura. Mas, na verdade, o semiárido é riquíssimo se comparado a outras regiões de clima semelhante, com paisagens exuberantes e patrimônio arqueológico enorme. É importante quebrar essa imagem ruim."

Para os autores do inventário, a melhor forma de quebrar esse imaginário é protegendo as áreas que ainda contam com floresta intacta. Hoje, o bioma é um dos menos protegidos do país – só perde para o Pampa em porcentagem de área protegida. Apenas 6% da Caatinga está protegida, e muitas das áreas existentes não são de proteção integral. O inventário cria um mapa de regiões que valem a pena proteger, minimizando o impacto na população local, e criando uma oportunidade para a onça continuar existindo no Nordeste brasileiro. Para isso, no entanto, o governo precisa se mexer e criar novas unidades de conservação.

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