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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

A Última Ceia



Iris Sinoti*






“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna1”.

Gostaria de propor um olhar símbolo da Santa Ceia: um chamado para o nosso sacrifício. Mas o que precisamos realmente sacrificar?

O que sentimos, qual estado emocional que nos encontramos? Normalmente negligenciamos esse aspecto como se nada significasse para nós. Estamos tão apartados de nós mesmos que somos meros desconhecidos em busca do caminho de casa. Onde foram parar os nossos valores? Como posso sentir-me verdadeiramente cristão se vivo, muitas vezes, egoisticamente preso a um mundo criado por mim para atender as minhas necessidades?

Não quero parecer pessimista, mas esse é o duro retrato da realidade de muitas pessoas: nos queixamos que a vida não está satisfatória e exigimos que o mundo mude para nos sentirmos melhores, lamentamos as nossas perdas financeiras e não nos damos conta que estamos perdendo a alma... Lamentável que, tal qual crianças emocionais, ainda não tenhamos compreendido o profundo significado de sermos Cristãos.

Estaremos nós preparados para “tomar a nossa cruz” e seguir o Mestre? Em primeira instância deveremos saber qual a nossa cruz, qual o fardo pesado (sombra) que carregamos nos ombros e que limita a nossa caminhada. No segundo momento precisamos realmente trazer para nós essa sombra e não mais querer projetá-la nos outros, na família, no governo, em Deus. Como escreveu Jung: “a sombra é problema moral que desafia a personalidade-ego como um todo...”, e rejeitamos a sombra porque não queremos que ela faça parte de nós, ignorando que sem ela não poderemos ser melhores e muito pouco poderemos fazer para melhorar o mundo que vivemos.

Podemos então pensar na última ceia tal qual um convite para entendermos a nós mesmos e conquistarmos uma nova vida. Quando nos ocuparmos com a tarefa quiçá dolorosa de compreender a nossa realidade íntima, provavelmente nos conectaremos aos nossos aspectos “inferiores”, nossos complexos e sombras, que estarão ali conosco, na nossa carne e no nosso sangue, mas ao mesmo tempo despertaremos o divino que existe em nós, e sentiremos, talvez pela primeira vez, efetivamente quem somos.

Qual o nosso objetivo na vida? Precisamos retirar o véu que encobre a verdade sobre nós, revelar o mistério que somos e encontrar dentro de nós os aspectos divinos até agora ocultos. Ter vida eterna é ter o poder de encontrarmos vida nova em nós mesmos, isto é, transformar o homem velho, com suas atitudes obsoletas, no homem novo, renascer em uma vida mais fecunda, mais significativa e de par com a nossa verdadeira natureza, Divina.

Mas tudo isso só será possível se tomarmos consciência do que acontece aqui e agora no nosso mundo interno. Sem essa percepção correremos sempre o risco de sermos levados pela onda coletiva, cheia de exigências, de valorização externa, de falsos aplausos, de distorção dos valores morais, das falsas necessidades e do distanciamento de Deus.

Todo o nosso esforço ao encontro do si mesmo nos aproxima de Deus, e cada passo em direção ao nosso calvário particular equivale, na mesma proporção, ao encontro com Deus em nós; fazer esse caminho, assim como Jesus, nos fará passar pela incompreensão e perseguição, pois assim é o caminho dos que escolhem servir ao Pai. Talvez seja exatamente por isso que “muitos somos os que ouvimos o chamado, mas poucos somos os que escolhemos Segui-lo”.

Para que tenhamos vida semelhante à do Cristo a nossa vida precisa ser sacrificial, o que equivale dizer que precisa ser devotada a algo maior do que o nosso próprio ego. Não me refiro unicamente aos sacrifícios materiais, mas ao sacrifício da vaidade, do orgulho e egoísmo e de tantos outros conteúdos morais que ainda contemos em nossa alma. Não é a perfeição eleita pelo mundo, mas esforço real em ser melhor hoje, isso sim nos possibilitará beber o vinho e comer o pão, assumindo para nós a missão de amor do Cristo.


*Iris Sinoti é palestrante e escritora espírita

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