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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A casa e a tatarana


Laurez Cerqueira 
 
(Autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes - vida e obra; Florestan Fernandes – um mestre radical; e O Outro Lado do Real)



Nasci e vivi até 18 anos numa casa à beira de uma estrada, recuada, com um vasto gramado na frente e, no meio, uma árvore enorme chamada Tatarana, da família do pau-ferro.

Tronco pelado, esbranquiçado, folhagem miúda e densa.

Árvore forte, frondosa, de copa arredondada, resistente, desafiava os longos períodos de seca, sempre verde. Enfrentou até raios, nos temporais.

Tatarana enverga, mas não quebra.

Lampião deu o nome de Tatarana ao cangaceiro que ele mais confiava.

Guimarães Rosa também deu o nome Tatarana a um de seus personagens de Grande Sertão, Veredas.

Quando Riobaldo entrou para o bando de jagunços foi batizado com o nome Tatarana, por ele ser o melhor de todos na pontaria.

Do tupi, tatarana quer dizer semelhante ao fogo.

A árvore era ponto dos cavaleiros que passavam pela estrada, no passo mole, viajeiro, vindos de longe, serpenteando montanhas e planícies.

Às vezes paravam para fazer uma visitinha, descansar na sombra fresca. Amarravam os cavalos, entravam porta adentro para beber água, tomar café, prosear um pouco. O tempo não era do relógio, mas da prosa.

Portas e janelas abertas o dia inteiro. Não sumia uma agulha sequer. Ninguém tocava em nada do outro. Apesar da intimidade, da liberdade, muito respeito à casa dos outros.

Era até cerimonioso. Na porta da casa, se chegasse alguém, logo ia-se ao encontro para receber. Firmava o bridão do cavalo e a cabeça do arreio, para o equilíbrio na hora de apear.

Como de costume, ao cumprimentar, num gesto de gentileza, tiravam os chapéus e davam as mãos.

Eram matutos.
O matuto é nosso sábio.

Outro dia recebi a noticia que a tatarana tombou, vencida pelas parasitas que lhe sugavam a seiva e pelo tempo.

A tatarana deu sombra e alegria a muita gente. Descanso e paz aos animais.

Soube também que nasceu um broto dela, no mesmo lugar. Forte como a mãe.

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